O assunto dominante nas rodas políticas de nossa capital
nos últimos dias é a denúncia da existência de um mercado de votos nesta
eleição, com líderes comunitários negociando votos por valores em
dinheiro. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar o caso.
Apesar de não ser uma questão nova, o fato enseja a necessidade de se
promover um debate sobre a compra de votos, oportunismo ilícito tão
presente no modelo político-cultural-brasileiro. Nesse mercado o voto se
transforma em simples mercadoria pelo qual os interessados pagam qualquer
preço, desde que atendam as conveniências pessoais dos que se vendem nas
eleições na busca de um benefício momentâneo e egoísta.
No “mercado de votos” é cada vez maior o número de eleitores que faz a sua
escolha por razões outras que não a opção consciente de quem deva ser o
seu representante, seja no legislativo ou no poder executivo, não se
importando se o candidato tem competência ou compromisso com a
coletividade.. O que é mais lamentável é que a compra de votos termina
ganhando legitimidade de representação democrática. Por ser uma prática
camuflada e difícil de ser comprovada torna-se complicado o seu combate. É
um mercado onde tudo é objeto de negociação: declarações, condutas, votos,
consciências e dignidade.
Percebe-se, neste ano, a adoção por autoridades judiciais de medidas
inibidoras desse comportamento criminoso de alguns atores políticos. Há um
evidente esforço de luta contra a dinâmica desse mercado, todavia não é
exclusiva das autoridades essa responsabilidade. Por um dever de cidadania
cabe a cada um de nós ser vigilante na identificação dos que agem ativa ou
passivamente na negociação de votos, denunciando à justiça eleitoral os
que assim se comportam nos períodos de eleição. A omissão torna a todos
cúmplices da comercialização ilegal e criminosa de votos.
Ainda que os exemplos já se mostrem com a cassação de mandatos daqueles
que foram flagrados na captação ilícita de sufrágios, a lentidão com que a
justiça eleitoral chega à sentença conclusiva de aplicação das penalidades
aos infratores, de certa forma, remete a um sentimento de impunidade que
estimula a manutenção dessa ação delituosa em favor dos que detêm poder
político e força econômica.
Nos acostumamos, infelizmente, à observação generalizada de que “isso não
vai dar em nada”, “não adianta lutar contra os poderosos”, “só ganha
eleição quem tem dinheiro ou poder”. Triste essa constatação. O político
desonesto se corrompe porque precisa de dinheiro para comprar votos. O
eleitor desiludido raciocina que em eleição aparece a oportunidade de
ganhar alguma coisa. São as regras do mercado. Jogo de interesses que
vilipendia a soberania popular.
Mas, com certeza, já foi muito pior. Entretanto, não podemos, nem devemos,
cruzar os braços, numa atitude passiva de quem espera que as ações partam
dos outros. Não devemos admitir que nossa representação política seja
definida pelo “mercado de votos”. Só assim podemos nos dar ao direito de
criticar e cobrar dos políticos.
Vamos torcer para que a denúncia desses candidatos a vereador repercuta em
favor da democracia e das eleições livres e independentes.
