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O mercado de votos

portalbip.com (Rui Leitão) - 21/08/2008

O assunto dominante nas rodas políticas de nossa capital nos últimos dias é a denúncia da existência de um mercado de votos nesta eleição, com líderes comunitários negociando votos por valores em dinheiro. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar o caso.

Apesar de não ser uma questão nova, o fato enseja a necessidade de se promover um debate sobre a compra de votos, oportunismo ilícito tão presente no modelo político-cultural-brasileiro. Nesse mercado o voto se transforma em simples mercadoria pelo qual os interessados pagam qualquer preço, desde que atendam as conveniências pessoais dos que se vendem nas eleições na busca de um benefício momentâneo e egoísta.

No “mercado de votos” é cada vez maior o número de eleitores que faz a sua escolha por razões outras que não a opção consciente de quem deva ser o seu representante, seja no legislativo ou no poder executivo, não se importando se o candidato tem competência ou compromisso com a coletividade.. O que é mais lamentável é que a compra de votos termina ganhando legitimidade de representação democrática. Por ser uma prática camuflada e difícil de ser comprovada torna-se complicado o seu combate. É um mercado onde tudo é objeto de negociação: declarações, condutas, votos, consciências e dignidade.

Percebe-se, neste ano, a adoção por autoridades judiciais de medidas inibidoras desse comportamento criminoso de alguns atores políticos. Há um evidente esforço de luta contra a dinâmica desse mercado, todavia não é exclusiva das autoridades essa responsabilidade. Por um dever de cidadania cabe a cada um de nós ser vigilante na identificação dos que agem ativa ou passivamente na negociação de votos, denunciando à justiça eleitoral os que assim se comportam nos períodos de eleição. A omissão torna a todos cúmplices da comercialização ilegal e criminosa de votos.

Ainda que os exemplos já se mostrem com a cassação de mandatos daqueles que foram flagrados na captação ilícita de sufrágios, a lentidão com que a justiça eleitoral chega à sentença conclusiva de aplicação das penalidades aos infratores, de certa forma, remete a um sentimento de impunidade que estimula a manutenção dessa ação delituosa em favor dos que detêm poder político e força econômica.

Nos acostumamos, infelizmente, à observação generalizada de que “isso não vai dar em nada”, “não adianta lutar contra os poderosos”, “só ganha eleição quem tem dinheiro ou poder”. Triste essa constatação. O político desonesto se corrompe porque precisa de dinheiro para comprar votos. O eleitor desiludido raciocina que em eleição aparece a oportunidade de ganhar alguma coisa. São as regras do mercado. Jogo de interesses que vilipendia a soberania popular.

Mas, com certeza, já foi muito pior. Entretanto, não podemos, nem devemos, cruzar os braços, numa atitude passiva de quem espera que as ações partam dos outros. Não devemos admitir que nossa representação política seja definida pelo “mercado de votos”. Só assim podemos nos dar ao direito de criticar e cobrar dos políticos.

Vamos torcer para que a denúncia desses candidatos a vereador repercuta em favor da democracia e das eleições livres e independentes.

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