O Brasil em que vivemos hoje nos transformou em
consumidores do medo. A violência urbana é uma das maiores mazelas da
sociedade brasileira. A banalização do crime faz com que nos sintamos
ameaçados sempre. Não há tranquilidade nem na nossa própria casa. Em nosso
país são contabilizados trinta homicídios por cada cem mil habitantes ao
ano, se colocarmos essa estatística exclusivamente nas áreas
metropolitanas esse número cresce assustadoramente. A omissão do poder
público torna alguns municípios terras de ninguém. Esse sentimento de
insegurança modifica a vida de nossas cidades. A violência urbana que
estamos presenciando ceifa vidas, dilacera famílias, fabrica marginais,
cria organizações voltadas para a prática de delitos, desrespeita os mais
elementares direitos de cidadania, corrompe os que teriam obrigação de
reprimir o crime, violenta consciências, estimula a prostituição, infanto
juvenil inclusive, fortalece o tráfico de drogas.
O que é pior é que a violência no Brasil está atingindo cada vez mais as
cidades pequenas. Na medida em que se intensifica o policiamento nos
grandes centros urbanos, os criminosos migram em direção às cidades menos
protegidas, onde a falta de estrutura e as péssimas condições de trabalho
dos policiais agravam os problemas com a segurança da população. Antes, a
violência urbana estava localizada nas periferias das grandes e médias
cidades. A precariedade dos serviços públicos e equipamentos, tais como:
iluminação pública, saneamento básico, transporte, sistema viário, energia
elétrica, segurança pública, equipamentos culturais, esportivos e
culturais e o acesso à justiça, e ainda a baixa oferta de postos de
trabalho, contribuíam para que nesses espaços segregados se instalassem
com maior incidência os eventos criminosos. Sem falar que a má
distribuição de renda resulta na privação de educação e melhores moradias,
o que deixa segmentos dessa população vulneráveis ao ingresso na
criminalidade. Isso não representa dizer que os moradores dessas áreas
urbanas sejam culpados. Na verdade além de enfrentarem condições precárias
de subsistência, tornam-se a principal vítima dos crimes violentos.
Mais recentemente temos acompanhado na grande mídia notícias do
comportamento truculento do aparelho policial vitimando inocentes. De quem
se espera proteção, de repente vemos se voltar contra os cidadãos,
confundindo pessoas de bem com bandidos. Há de se reconhecer, entretanto,
que os baixos salários, as falhas no processo de seleção dos recursos
humanos, a escassez de recursos operacionais e a falta de treinamento
adequado, são fatores que contribuem para esse desvio de conduta de alguns
policiais militares, apesar de que nada justifica os procedimentos de
estupidez, brutalidade e irresponsabilidade que foram registrados nos
últimos dias.
Os policiais estão em situação desigual na guerra contra os bandidos. As
facções criminosas que implantaram um poder paralelo ao Estado estão
melhor equipados para enfrentar as forças que deveriam ser a nossa
proteção. Estamos acuados, nos sentindo impotentes diante do poderio dos
bandidos. O Estado não pode se confundir, nem ser confundido com o
banditismo.
Civis mortos por balas perdidas, sequestros, policiais assassinados,
assaltos, sequestros, crianças mortas brutalmente, famílias indefesas,
esse é o nosso cotidiano. A sociedade está refém das facções criminosas.
O que fazer? De quem é a culpa? Essa é a pergunta a que todos procuramos
resposta. Precisamos ter politicas públicas eficazes no combate à
criminalidade, em especial, aos graves problemas sociais brasileiros.
Investir em espaço urbano, qualidade de vida, serviços sociais, segurança
e educação. São necessárias ações na gestão urbana. Promover uma
integração entre as politicas urbanas e as politicas de segurança. Mas a
responsabilidade também é nossa. Não podemos ser omissos. A sociedade
civil organizada não pode capitular diante da violência contra os seus
valores e representantes.
