É cada vez mais consistente a idéia de que teremos este
ano uma eleição bem diferente de tantas quantas já vivenciamos nessa nova
fase da democracia brasileira. A atuação vigilante, responsável,
permanente e intransigente do Ministério Público Eleitoral por seus
procuradores, nos faz acreditar que a prática de corrupção eleitoral será
combatida com toda força no pleito que acontecerá em 2008. As cortes de
justiça eleitoral também têm cumprido a sua parte, penalizando
exemplarmente os infratores da legislação, os que buscam utilizar a
máquina administrativa para conquistar votos e os que se prevalecem do
poderio econômico para captar sufrágios. Até a Polícia Federal tem sido
importante na afirmação dessa vontade nacional de que não se admite mais a
sobrevivência política dos corruptos, realizando investigações criteriosas
de procedimentos criminosos praticados por detentores de mandatos
eletivos.
Isso tudo faz com que respiremos um ar de pureza no cenário político
nacional.
A partir desse raciocínio me surpreende a euforia dos aliados do
governador Cássio Cunha Lima festejando a possibilidade de que o processo
de cassação não entraria em pauta no TSE neste mês de abril, o que
ensejaria o entendimento, deles, de que assim o caso FAC só seria julgado
no próximo ano.
A análise não merece qualquer amparo técnico. Os partidários do governador
avaliam que estando o processo em mãos do novo advogado do vice-governador
reduziria o tempo disponível ao Ministro Carlos Ayres para pedir pauta
antes de assumir a presidência do TSE. O prazo de cinco dias legalmente
concedido ao advogado se expira na tarde da próxima terça-feira, dia 15,
restando então ainda quinze dias para que o Ministro relator possa
solicitar pauta de julgamento. Até porque o processo já está sendo
analisado pelo relator desde fevereiro, inclusive com o parecer favorável
à manutenção da decisão do TRE pelo Procurador Eleitoral, o que nos
permite compreender que a esta altura o ministro já tenha praticamente
pronto o seu voto.
Sabe-se que o Ministro Carlos Ayres não deseja deixar qualquer processo em
que figura como relator sem julgamento.
Independente disso, o futuro Presidente do TSE, mais do que ninguém, tem
responsabilidade com a realização de um pleito organizado, transcorrendo
dentro da mais absoluta normalidade e do amparo legal. O julgamento do
processo de cassação do governador é portanto fundamental para
estabelecer, em nível nacional, de que o cometimento de crimes eleitorais
é passível de rigorosas punições. A não realização desse julgamento é
precedente perigoso para a democracia brasileira, porque a opinião pública
vai ficar sem acreditar que existe uma legislação eleitoral a ser
cumprida. Se consolidaria a impressão de que a impunidade continuará a ser
uma marca da nossa vida política.
Sinceramente, acho que o foguetório e comemorações são muito mais uma
forma de animar a militância do que uma convicção de que o julgamento não
acontecerá este ano.
Quando o direito não é bom, a esperança que fica é o atraso do julgamento.
Assim ganham mais um tempo de governo.
