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(Roberto Bezerra) - 14/08/2010
Da turma, sem dúvida, ele era o mais seguro
nesse assunto.
- Não me caso nunca. Quero ver quem me dobra. Já me casei
com a boemia, com a noite e com as notícias.
Fiquei calado e pensei comigo mesmo. É ruim. Mais dia, menos
dia, ele se casa também.
E ele volta ao ataque:
- Primeiro foi o Portuga. Agora, você.
E continua:
- Apressados! Frouxos!
Continuei calado. Ele amenizou.
- Vou lhe dar um presente. Não pode ser muito caro. Vai ser um
liquidificador.
Esperei um ano. Enfim, chegou. E lá vem ele de novo:
- Não disse que dava! Você é que é muito
impaciente. Apressado!
Tomei-o como padrinho de um dos meus filhos. No final das contas,
compadres, nós sempre fomos. Acompanhamos cada vitória e
derrota um do outro. O ganho com as vitórias, o crescimento com
as derrotas.
Acompanhamos as primeiras namoradas assim como também fomos
solidários com as primeiras desventuras. Ensinei-o como jogar
xadrez. Engrenou no jogo. Nunca mais ganhei uma partida. Parti pra
esculhambação. Encerramos os jogos.
E o primeiro emprego? Procuramos juntos. Que sufoco. O primeiro
salário, meu amigo nem pensou duas vezes. Torrou todo. Roupas,
relógio e etc. e tal. E não pensem que foi numa loja
qualquer da vida. Não! Foi na Le Mans. E, pasmem, eu, na
época, desempregado ainda tive que emprestar dinheiro para o
cara completar o pagamento na loja.
Viagens, acidentes traumatizantes, a morte precoce do nosso querido
amigo e parceiro Portuga, nada, nem mesmo a distância natural que
a vida cria para os amigos conseguiu nos tirar de sintonia.
Mas eis que agora, o último dos moicanos, até
então, solteirão imbatível e aluno rebelde que
nunca se dobrou ao cunho dos professores, se encantou com a doce
professorinha do interior. Até tentou correr. Mas, lá do
alto dessa sintonia inabalável, deve ter ouvido o berro:
- Apressado! Frouxo!
Estancou esbaforido. Ouvira perfeitamente. Mas não lhe pareceu
ser um xingamento. Só agora percebia que nunca foi.
A professorinha então, tranqüila, se aproximou daquele
aluno, vivido, experiente, e por alguma razão, então
desconhecida, lhe fez uma proposta:
- Vou lhe contar uma história. Você escuta até o
fim. Se gostar, você nunca mais deixará essa sala de aula.
Se não gostar, você pode seguir adiante.
Escutou. Nem mexeu os olhos. Nem se mexeu. Continuou lá. Tinha
afinal encontrado a professorinha da sua vida. Nunca mais perderia
aquela doce aula. E tal qual um imperador, encheu o peito e, com um ar
solene, fez a importante pergunta:
- Será que o meu compadre também vai me dar um
liquidificador de presente de casamento??????