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(Roberto Bezerra) - 14/03/2011
O velho rei não se segurava nas pernas de tanta
emoção. Afinal ele havia construído todo aquele
reino e agora havia se transformado numa figura obsoleta. Ou, melhor
dizendo, haviam-no transformado numa figura obsoleta.
Queriam o novo. Já não mais servia quem tanto havia
servido.
- Recolha-se a uma posição de menos trabalho. Vá
descansar que NÓS
tomaremos conta daqui pra frente, informaram-no alguns dos seus antigos
súditos, agora, insatisfeitos com a sua
administração. O que o rei não conseguia entender
era o fato de que essa informação vinha justamente
daqueles a quem ele havia ensinado tudo o que aprendera.
Educadamente, o soberano tentou discursar agradecendo o apoio que
sempre recebeu de todos. A emoção o traiu. Buscou
forças e citou, com orgulho, os velhos companheiros das
inúmeras batalhas travadas durante o seu reinado. Aliás,
nunca perdeu nenhuma delas, pois sempre esteve armado com a sua
escopeta da sorte que ele carinhosamente havia batizado de bom-senso.
Voltava a usar a sua velha arma. Naquelas alturas, nem achava que fosse
mais precisar dela. Triste engano. Tentou, ainda uma vez, retomar o
discurso de despedida e a emoção novamente o traiu.
Sentou-se e mais uma vez perdeu lágrimas. Não perdeu a
majestade.
Discretamente era acompanhado nas lágrimas por príncipes,
princesas e por velhos e novos súditos que, cedo aprenderam a
admirar nele as virtudes de um verdadeiro soberano. A rainha e
companheira, porém, não deixava rolar uma lágrima
sequer. Ficava, ao contrário, consolando os inconsoláveis
amigos. E quando sentia que iria desmoronar, em frações
de segundos, levantava a vista e fechando os olhos, recebia do alto uma
força estranha e inexplicável que a fazia continuar.
Terminada a última sessão como rei, o velho monarca
recolheu-se aos seus aposentos para meditar. O que iria fazer agora?
Pensava aquele velho rei. Afinal, havia dedicado a parte mais
importante da sua vida aquele projeto e agora havia sido
substituído, já numa época da vida onde não
poderia mais retroceder.
E pensou o rei em voz alta:
- Ora, se vi pessoas inteligentes em outros paises desenvolverem
projetos audaciosos já tendo uma idade bem maior do que a minha,
o que me impede de também poder recomeçar?
Naquela noite, o rei mal conseguiu dormir. Não por estar com
insônia. Mas por estar mergulhado numa infinidade de pensamentos
já ligados ao seu novo projeto de vida. Quando finalmente
adormeceu, sonhou com uma floresta cheia de fruteiras onde, mesmo
dormindo, conseguia ouvir claramente o canto de um pássaro que
insistia em cantar o mesmo verso:
- Que a estrada já havia sido traçada e o caminho
já estava certo.
Era o canto do uirapuru.