Totó, torcedor
fanático por pelada andava o interior todo atrás
delas. Onde ouvisse falar que tinha um torneio, corria pra
lá. Morava em Sapé e, como sua casa era
próxima ao campo, sempre que a turma ia jogar na cidade, era
o primeiro a chegar pra ver o jogo. Certa vez, quando a turma chegou,
Totó foi logo se apresentando.
- Eu acompanho vocês pelo Estado todo. Onde vocês
vão jogar eu tô lá fazendo torcida pra
vocês. Sou o fã número um da turma.
Adoro pelada. Já participei muito. Hoje em dia,
só faço assistir.
Alguns, realmente, até conheciam Totó, outros
já tinham ouvido falar. Ele dificilmente perdia algum jogo.
Mas, no frigir dos ovos, não deram muita bola para ele.
Só cumprimentaram e não esticaram muita a
conversa. Totó não gostou nada. Sentiu-se
completamente desprestigiado. Logo ele que era tão obstinado
na sua torcida. Tinha que fazer alguma coisa para reverter tal
situação. Até já sabia como
iria fazer. Como conhecia bem o pessoal do matadouro municipal, iria
prometer para o pessoal uns testículos de boi para eles
fazerem um tira-gosto depois do jogo. Seria fácil conseguir
a mercadoria.
Era um bonito dia de domingo. Nenhuma nuvem no céu e o jogo
já tinha começado. Deixaria para falar com os
rapazes quando a partida terminasse. Seria idolatrado novamente.
Arranjar um tira-gosto bom daqueles para o pessoal que adorava tomar
uma cervejinha após a pelada. Iriam adorar.
Lá pelas cinco da tarde encerrou-se o jogo. A turma saiu
toda esbaforida. O suor descendo testa abaixo. Todos doidos para tomar
uma cervejinha. Eis que novamente se apresenta Totó.
- Pessoal, um momento aí. Sigam-me que estou providenciando
uns ovos de boi para a gente cozinhar na minha casa. As cervejas,
vocês compram.
Foi um alvoroço geral. Totó virou
herói. O encarregado da pelada foi imediatamente
cumprimenta-lo.
- O sucesso da pelada deu-se exclusivamente por conta da sua
presença Dr. Totó. Aliás, se
não fosse torcedores como o senhor, essas peladas
já teriam sido extintas.
Juntaram de imediato uma comissão para ir ao matadouro com
Totó. Os demais, orientados por ele, esperariam na frente da
sua casa que ficava no caminho.
Saiu Totó, em direção ao matadouro,
acompanhado por uma dúzia de homenzarrões, todos
suados e sedentos por uma geladinha acompanhada por um ovinho de boi
cozido. Pelo menos mais outra dúzia ficou na
calçada da sua casa esperando pela encomenda.
Vinte minutos depois chegaram ao matadouro. Já
começava a escurecer. Totó pediu para que todos
esperassem lá fora que ele ia providenciar o prometido.
Entrou no matadouro. Tudo escuro. Saiu tateando pelo breu
até que tropeçou no vigia que estava deitado no
chão, dormindo, completamente bêbado.
- Ô meu cumpadre, acorda aí. Tô
precisando que você me arranje uns ovos de boi pra eu
cozinhar para a turma da pelada.
O vigia puto da vida, porque Totó acordou ele, foi logo
esbravejando.....
- Ô!!! Seu filho da p...... porque você
não vai procurar ovo de boi na casa da sua
mãe????????
- Não faça uma coisa dessas, por caridade. Tem
mais de vinte cabras esperando por isso. Eu prometi que levava. Vai
homem. Arranja esses ovos.
- Só se for os meus. A feira foi ontem seu demente!!!!!!!!
Aqui não tem mais nem um osso sequer pra fazer uma sopa.
Quanto mais, ovo de boi. Tu se lascou pra deixar de ser burro.
Totó ficou branco igual a uma vela. O que ele iria dizer
para o pessoal. Que fria ele tinha se metido. Besteira querer apelar
pro bom-senso da turma e contar a verdade. Já fazia uns
quarenta minutos que eles estavam lá fora esperando. A coisa
ia ficar feia.
Dito e feito. Quando Totó foi se aproximando com as
mãos abanando, os caras, já bem impacientes, com
o suor já todo enxuto na roupa, delicadamente, perguntaram???
- Cadê a porra dos ovos????????
- Calma gente. Deu um probleminha. É que os bois que mataram
aqui ontem era tudo capado!! Nenhum tinha ovo. Pense numa
coincidência da gôta.
A primeira tapa alcançou Totó bem na orelha. Ele
não esperou pra ver onde a segunda ia pegar. Desatou rua
abaixo e o pior que pra sair dali tinha que passar bem em frente
à sua casa. Quando ele avistou o restante da turma parada na
sua calçada, não contou estória, abriu
o berreiro.
- Corre todo mundo. Os bois se soltaram!!!!!!!!!
Foi um Deus nos acuda. Ainda hoje tem nego correndo sem encontrar o
caminho de casa.
