Tenho um amigo que trabalhou na antiga concessionária de energia do
estado até se aposentar. Naquela época, viajava muito para o sertão, em
companhia da equipe, fazendo trabalhos da empresa que, por vezes, levava
semanas para concluir. Por esse motivo tinha que dormir, juntamente com os
companheiros, nos acampamentos montados pela concessionária nas cidades
onde estava operando.
Numa dessas viagens juntou-se à equipe um velho funcionário da empresa que
chamarei aqui de Bernardinho. Sexagenário, encontrava-se apenas a alguns
meses da aposentadoria. Mas, como era muito experiente e necessário à
equipe, fez questão de acompanhar os colegas nessa viagem. Porém,
Bernardinho tinha um problema que entristecia muito o pessoal, mal
terminava o horário de trabalho, desaparecia, enchia a cara e só aparecia
nos dormitórios-tenda lá pela madrugada, completamente chapado.
Certa noite meu amigo acordou, sobressaltado, com o barulho que
Bernardinho fez ao se jogar literalmente em cima de umas estopas que
estavam no chão, para dormir. Babando e com as calças urinadas e caindo
era uma cena simplesmente deprimente de se ver. Um homem, aos sessenta e
quatro anos de idade, se entregando a bebida daquela forma. Sentiu muita
pena e decidiu que, de alguma forma, iria tomar alguma providência para
ajudar o colega a se livrar daquele vício.
Pensou muito, mas não conseguia chegar a uma conclusão definitiva, afinal
teria que ser alguma coisa que o fizesse parar de beber para sempre. Não
adiantava ser algo que remediasse a situação temporariamente. Não
resolveria. Já estava quase para desistir quando um dia, no finalzinho da
tarde, um colega, brincalhão e ardiloso, lhe contou uma piada de bêbado
que lhe deu, de imediato, a idéia final para resolver aquele impasse.
Tinha certeza que iria resolver o problema de uma vez por todas.
Lá pelas tantas da madrugada, chega Bernardinho, mais uma vez, num estado
de dar pena. Completamente desfigurado pelo estado de embriaguez que se
encontrava. Assanhado, malcheiroso e, como sempre, todo urinado. Desta
feita, jogou-se em cima de uma saca de trapos que estava dentro da tenda.
Como sempre, caiu de bruços.
Meu amigo nem pensou duas vezes. Durante a
tarde, havia comprado um ovo. Isso mesmo. Um ovo de galinha. Com um garfo,
partiu o ovo e colocou num pequeno vidro a clara. Dirigiu-se ao local onde
Bernardinho estava e, sem ninguém ver, com o próprio garfo, puxou um pouco
a calça de Bernardinho. Só o suficiente para derramar a clara do ovo bem
no meio das suas nádegas.
Feito isso, correu de volta para o lugar onde estava dormindo e deitou-se
adormecendo logo em seguida.
Pela manhã, Bernardinho acordou se sentindo estranhamente incomodado pela
sensação daquele líquido frio e gosmento logo naquele local. Passou a mão
e mal pode acreditar no que tinha acontecido. Provavelmente, alguém havia
se aproveitado dele por conta do seu estado.
Mas que tremenda sacanagem, pensou ele. Se aproveitar de um homem velho e
ainda por cima embriagado. Tarado sem vergonha. Marginal. Ah! Mas
descobriria, cedo ou tarde, quem havia feito aquele absurdo com ele.
Os dias que correram para terminar a semana passaram para Bernardinho como
uma verdadeira tortura. Mal terminava o trabalho, ficava na tenda, de
plantão, braços cruzados e cara feia, encarando os colegas de trabalho. Os
mesmos não entendiam o que havia acontecido. Só o meu amigo sabia.
Passaram-se meses e, finalmente, chegou o dia de Bernardinho se aposentar.
Nunca descobriu o que houve. Mal percebera o fato que havia parado de
beber, tão preocupado estava em descobrir quem teria sido o suposto tarado
que lhe aplicara aquele “remédio para bêbado”.
