Os comerciantes do mercado do Geisel perderam no sábado, 10 de março, um vigilante muito especial. O guarda Levi. Assim o chamávamos. Na realidade, não era apenas um vigia. Era bem mais do que isso. Era um verdadeiro faz tudo. Além de ser um bom amigo.
Ajudava um na quitanda, trocava dinheiro quando outro precisava, ia atrás dos filmes da locadora quando algum esperto resolvia não devolvê-los, procurava servir a todos, para quem trabalhava, em tudo que eles precisassem ora como vigia, ora como biscateiro.
No passado, foi militar, mas perdeu-se no caminho. Seguiu a vida como ajudante de feirante, aí, talvez, o início da pior fase. Caiu na bebida. Foi novela para se livrar dessa mazela. Nunca, porém, deixou de ser uma boa pessoa. Nem quando estava bêbado.
Certa vez, em meio a uma de suas carraspanas, caiu bêbado em um dos becos do mercado. Desfaleceu de bruços. Um dos seus piores momentos. De uma hora para outra, começou a chover muito. No lugar onde seu rosto estava formou-se uma pequena poça d’água. Quase morreu afogado. Não fosse a ação de alguns transeuntes, que, como ele, também se embriagavam naquela área, provavelmente teria sido o seu fim.
Bebeu muito, assumiu um total desencanto pela vida. Um dia, não tendo mais forças, conseqüência dos excessos cometidos com o álcool, entrou em coma alcoólico. Foi levado às pressas para o Hospital Universitário. Quase morto. Passou trinta dias internado. Um milagre ter sobrevivido. Entretanto, recebeu alta com um ultimato dos médicos. Se tornar a botar na boca uma gota sequer de álcool, nem precisa voltar.
Quando voltei a encontrá-lo, quase não o reconheci. Não me contive e ri. Não por maldade, mas o quadro era, no mínimo, pitoresco. Os olhos do meu amigo estavam iguais a farol de carro velho. Completamente desregulados. Um olho olhava para um lado, o outro se voltava para uma direção completamente oposta.
Ficou dormindo numa sala do mercado que estava fechada. Um verdadeiro forno. Começou a juntar papelão para vender. Rendia muito pouco. Comecei a andar com ele pelos boxes do mercado oferecendo aos proprietários seus serviços como vigia. Uns poucos, além de mim, aceitaram. Mas já era uma nova perspectiva.
O irmão mais velho, quando soube do ocorrido, veio do interior do Estado de Pernambuco e se dispôs a ajudá-lo. Mandou que procurasse um lugar decente para morar, pois correria por sua conta a despesa do aluguel. Em três anos, nunca falhou.
Impressionante a trajetória de vida dessa humilde figura. Após passar por todos esses transtornos, conseguiu mudar completamente a sua vida. Atualmente, estava com mais de trinta comerciantes se servindo do seu trabalho de vigilância. Já tinha em sua casa tudo o que uma pessoa precisava para viver dignamente. Tudo comprado novo, com o fruto do seu trabalho.
Vivia, os dias de hoje, repleto de esperanças e perspectivas. Já começava a juntar algum dinheiro almejando a compra da casa própria. Ajudava também uma filha, a mesma que, nos momentos difíceis, sempre esteve do seu lado.
Corria tudo na mais perfeita ordem se não fosse a meningite que o nosso amigo contraiu. Baixou hospital pela última vez. O mesmo da época da bebida. Foi pego, completamente, de surpresa. E o mais irônico é que não morreu da doença que o levou para lá. Morreu vítima de uma parada cardíaca, proveniente do problema de circulação que tinha. Por ter passado muitos dias deitado e sedado, o quadro agravou-se, levando-o ao óbito.
Foi vencido apenas nessa parte desse grande jogo da vida. Afinal ninguém, até hoje, conseguiu vencer esse segundo tempo. Na outra parte, na realidade, a maior, foi um grande vencedor. Um misto de perseverança, otimismo e segurança. O que podemos juntar de melhor em amizade, fidelidade e confiabilidade.
Enfim, um exemplo de vida que conheci.
