Velhaco que é bom mesmo não admite receber cobrança. Se o dono do estabelecimento ao qual ele está devendo inventar de ir a sua casa ou ao seu local de trabalho para reclamar a dívida, vai passar mesmo é por um senhor vexame.
Conheço um que passou. Dono de farmácia, foi ao ambiente de trabalho do dito cujo. Chegou logo cedo, repartição cheia, e ele, também, cheio de razão. Quebrou a cara. Mal chegou, já foi abrindo o verbo, em voz alta, para que todos no recinto pudessem ouvi-lo e assim tentar intimidar o seu devedor:
- Três meses meu amigo. Como é que você faz uma coisa dessas comigo? Você por acaso está pensando que eu recebo os medicamentos através de doação? Não! Eu tenho mesmo é que pagar por eles. E são caros. Ninguém se engane com esse fato.
Nosso amigo, tarimbado, ao contrário do esperado, não se deixou intimidar nem um pouquinho e, mesmo pego de surpresa, foi logo respondendo à altura:
- Mas rapaz, como é que você, colega meu de infância, meu vizinho, meu amigo, pessoa que eu considero como se fosse meu irmão, não se envergonha de vir ao meu ambiente de trabalho me constranger para cobrar uma micharia dessas? Você, por acaso, sabe o que eu tenho passado na minha vida para não poder lhe pagar tamanha miséria?
- Me desculpe... Eu não tive a intenção... Eu não sabia...
- Como é que não sabia, meu amigo? Eu ali, encostado a você. É muita falta de interesse pela vizinhança. É por isso que esse mundo vive coalhado com esse índice enorme de violência e desamor.
- Mas meu amigo, o que diabo é que tem a ver a violência e o desamor do mundo com a conta que você está me devendo?
- É claro que têm tudo a ver. Se não fosse pela ingratidão das pessoas e a mesquinhez de certos comerciantes, que levam a vida a se preocupar com minúcias como essa, é evidente que esses índices seriam bem menores ou, talvez, até nem existissem.
Nessa altura dos acontecimentos algumas pessoas da repartição e, principalmente, clientes e fornecedores, que pouco conheciam a figura do exímio velhaco, já haviam se aglomerado junto a ele e até já ensaiavam uma salva de palmas para o mesmo.
O dono da farmácia, completamente pasmo, tentou voltar à sessão de desculpas, mas já era tarde. Todos o olhavam com uma expressão dura e bastante repreensiva.
- Onde já se viu, dizia um. Vir cobrar uma porcaria dessas do rapaz, no ambiente de trabalho dele. E é porque é amigo. Quem tem uma tralha dessas como amigo, não precisa de inimigos.
Outro vociferava:
- Vai embora traste! Por que não deixa o coitado trabalhar em paz? Vá procurar o que fazer também pra ver se consegue ganhar um dinheirinho, ao invés de ficar infernizando a vida dos outros.
Finalmente o dono da farmácia conseguiu, após muito esforço, sair de
dentro da sala. E só saiu inteiro porque, além de pedir mil desculpas,
dispensou o débito do sem-vergonha e ainda colocou a farmácia à sua
disposição para o que ele precisasse.
Moral da história: “Velhaco que se preza, não paga a conta que deve, o
credor é quem pede desculpas e ainda completa lhe abrindo uma nova linha
de crédito”.
