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Maribondos de estimação

portalbip.com (Roberto Bezerra) - 13/02/2007

Dona Liquinha gostava de ir ao quintal da sua casa e, ela mesma, estender a roupa lavada da sua família. Nunca deu a mínima importância a uma tremenda casa de maribondos que tinha no telhado de um dos quartos que ficava naquela área do terreno. Cansou de estender a roupa, rodeada por cinco ou seis e os mesmos nunca se atreveram a lhe dar uma ferroada sequer.

Seu Edson não cansava de adverti-la:

- Liquinha, esses bichos ainda vão te dar uma surra e tu vai sair daí correndo, toda picada de maribondo.

- Esses daqui mesmo nunca vão fazer isso. Eles me conhecem muito bem. Podem até picar você, a mim, duvido.

E seguia-se a rotina diária. A mesma atitude teimosa. A mesma reclamação. Os bichos até parecia que reconheciam, na velha senhora, a dona do terreiro. Chegavam até a pousar na roupa molhada na hora que ela estava estendendo a mesma no varal.

O mais engraçado é que era só com ela que eles agiam daquela forma. Se uma outra pessoa resolvesse passar perto da casa deles, os bichos pareciam até endoidar, se assanhavam todos e causavam um verdadeiro pânico em quem se atrevesse a chegar perto.

Seu Edson, receoso que os bichos se rebelassem, algum dia, e resolvessem atacá-la, ameaçou, uma vez, tocar fogo na casa deles. Ah! Foi uma confusão. Dona Liquinha foi quem se rebelou e não permitiu, de maneira nenhuma, que ele fizesse aquilo. E ainda saiu resmungando:

- Onde é que já se viu. Os bichos quietos no canto deles e vem você querendo matar todos eles, e ainda por cima, queimados. Deixe estar os coitadinhos. A mim, nunca ofenderam.

Mas, eis que Dona Liquinha, que sofria, havia muitos anos, da vesícula, teve uma forte crise e passou vários dias de cama, afastada completamente das suas atividades de dona de casa, do seu quintal e, por conseguinte, também teve de se afastar dos seus maribondos de estimação.

Quando, dias depois, retornou às atividades, apressou-se logo em mandar lavar algumas roupas mais necessárias ao dia-a-dia e rapidamente se dirigiu ao quintal para estendê-las.

Mas as coisas pareciam ter mudado enquanto esteve ausente. Mal sacudiu a primeira peça de roupa molhada no varal, qual não foi a sua surpresa. Voaram de dentro da casa uns quatro maribondos enfurecidos e partiram pra cima dela. Ela notando a investida ameaçadora, gritou:

- Valha-me minha Nossa Senhora, os bichos endoideceram! Dito isso, disparou em direção à cozinha. Conseguiu chegar lá sem ser picada, mas já chegou completamente esbaforida, até porque, mal havia se recuperado da crise da vesícula e ainda se encontrava debilitada.

Ao entrar esbarrou com o filho mais velho, que acabara de chegar da faculdade. Ele, vendo a mãe correndo daquele jeito, até pensou que se tratasse de algum malandro que tivesse invadido o quintal.

- O que danado é isso? O que foi que houve no quintal pra senhora vir correndo de lá desse jeito?

- Meu filho, os maribondos ficaram completamente doidos e me atacaram. Não me conhecem mais. Se eu não corro já estaria era toda picada. O que será que aconteceu com aqueles malucos pra eles me atacarem dessa maneira?

- Ah! Então foi isso? Ora mamãe, a senhora passou vários dias de cama. Nesse meio tempo, aqueles maribondos que eram seus conhecidos devem ter se mudado pra outro lugar. Esses que estão aí agora devem ser novatos na área e, provavelmente, por não a conhecerem, não lhe têm ainda nenhuma estima. A senhora tem que ter paciência e esperar que eles se acostumem com a sua presença.

- Você tá pensando que eu sou alguma demente, seu cabra? Danado é quem vai esperar que eles se acostumem comigo. Eu vou é chamar Edson, agora mesmo, pra tocar é fogo na casa desses filhos da égua.

Resultado: Os maribondos de estimação se lascaram!

Roberto Bezerra
  • Administrador de empresas, microempresário e colaborador da imprensa
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