Um amigo, se vendo acossado pelo constante aumento da clientela na sua casa de refeições, resolveu vender o seu automóvel, um chevette de ano 1984, em razoável estado de conservação, com o intuito de ampliar o prédio desafogando, assim, o ambiente do seu comércio.
Segundo ele, o carro era uma massinha, ou seja, para melhor esclarecer,
não podia passar num buraco mais profundo que, com o solavanco, voava
massa pra tudo quanto era lado.
Honesto que é, o nosso amigo não conseguia esconder dos interessados o
estado real em que o carro se encontrava e isso terminava por gerar uma
série de dificuldades na hora de efetuar a transação.
Quando chegava um interessado e perguntava como estava a situação do automóvel, ele mesmo se encarregava de jogar uma pá de terra no negócio e na própria empolgação do suposto comprador.
- E aí meu amigo, como é que se encontra o carro?
- Tá aí né, o motor até é bom, mas a lanternagem tá nesse estado que o amigo mesmo pode ver. Tem massa aqui, tem massa alí e o senhor sabe, o maior problema de carro velho não é o motor e sim a danada da lanternagem.
O homem não esperava nem prá ouvir o resto da conversa e já ia embora, ligeirinho, resmungando:
- Quando o próprio dono já vem com uma conversa dessas, imagine como o carro não está, eu é que não vou entrar nessa.
Chegou até a receber uma boa oferta pelo carro de um dos supostos compradores que ofereceu três mil reais pelo automóvel, mas, nosso amigo, na época, embirrou em três mil e quinhentos e hoje se arrepende de não ter fechado o negócio.
E assim o tempo foi passando e nada do carro ser vendido. Recentemente, encontrei com ele e o mesmo me participou o problema. Procurei aconselhá-lo a não agir daquela forma. Disse para que procurasse informar ao interessado apenas o básico da situação, afinal, carro velho, todo ele tem um problema ou outro e por conta da questão da lanternagem, o carro dele não deveria deixar de ser vendido.
O mesmo aquiesceu e decidiu que, dali prá frente, iria maquiar um pouco a conversa. Não iria mentir sobre o estado do carro, mas também não iria se empolgar mais a ponto, de que ele mesmo, viesse a esculhambar com a situação em que o chevette se encontrava. E realmente ele estava exagerando e, com isso, terminava até lutando contra si próprio. O carro nem era tão ruim assim. Muita gente poderia ainda se valer muito dele.
Alguns dias depois, encontrando com ele e, curioso que estava, fui logo perguntando se o mesmo já havia vendido o carro.
- Oh! meu amigo, já conseguiu negociar o carro?
- Ainda não, mas até que tem aparecido alguns interessados. Semana passada mesmo veio um, mas, inventou de vir logo na hora que eu tinha botado o danadinho no lavajato.
- E aí, como foi a conversa?
- Ele perguntou sobre o estado do carro e eu me lembrando que deveria maquiar um pouco a conversa, fui logo dizendo que o motor era uma verdadeira Débora Secco.
- Boa, o caminho é por aí.
- É, mas não deu muito certo não. Logo em seguida ele inventou de perguntar pela infeliz da lanternagem.
- E o que foi que você disse?
- Que essa daí, tava mais pra Derci Gonçalves!
- Mas rapaz, você disse uma coisa dessas ao cara e o que foi que ele respondeu?
- Nada. Sumiu. Até hoje, não voltou. Não quis nem ir olhar o carro.
