Lá pelo início dos anos 70 quando a ditadura militar ainda estava pegando
fogo, eis que ingressa na área civil do exercito, através de concurso
público (naquela época, era possível), para exercer uma função na área de
contabilidade, o Mário, pessoa simplória, mas, de gênio forte e com um
temperamento de quem não gostava de engolir desaforos.
Lamentavelmente quando houve a distribuição dos aprovados no concurso, foi
designado para assumir logo num lugar onde reinava uma hierarquia
extremamente rígida naqueles tempos tão amargos.
Mário, não sendo militar, nos conta que teve que engolir uns maus bocados
para conseguir se acostumar com aquela vida que, na realidade, quase chegava
a ser também uma vida de militar.
É isso mesmo, diz ele, não era militar, mas o regime era quase o mesmo.
Naqueles tempos, a rigidez era tanta, que até para tomar um simples
cafezinho, só quem tinha direito eram os militares.
E os que tinham patente de oficial. De sargento para baixo não era dado esse
tipo de regalia.
E quem se atrevesse a fazê-lo por debaixo dos panos e fosse flagrado estava
sujeito a sanções disciplinares duríssimas por parte de alguns oficiais
superiores, que estavam completamente tomados, naquela época, pela neurose
do poder.
Ora, se entre eles próprios o tratamento que reinava era esse, imaginem se
um funcionário da área civil resolvesse tomar o tão assediado cafezinho, com
toda certeza, aconteceria uma tempestade num copo d’água, ou, melhor
dizendo, num copo de café.
Se o dia fosse de chuva, o drama já começava pela manhã, no horário de
hastear a bandeira, os trabalhadores da parte civil ficavam numa área ao
relento separada da dos militares que, ao contrário, ficavam numa área
coberta.
Funcionários estatutários de um lado, celetistas do outro. Caso a chuva
perdurasse, ninguém saia. Tinha que esperar o término do evento. Trabalhava
molhado.
Um outro detalhe interessante é que se um servidor fosse encontrado num
setor de trabalho que não fosse o seu e que não estivesse devidamente
autorizado para estar naquele recinto, já teria aberto, imediatamente contra
si, um inquérito por conta desse fato.
Relata o nosso amigo sobre a imensa paciência que procurou ter para agüentar
30 longos anos de trabalho num ambiente de tanta pressão. Só mesmo a força
de um lamentável infarto para conseguir aposentá-lo. Três safenas, uma
mamária e uma aposentadoria por invalidez marcaram o resultado final de sua
dedicação ao serviço público.
E após ver consolidado o seu processo de aposentadoria, quando chegaram ao
fim as pressões provenientes das adversidades criadas pela vida de trabalho,
eis que o nosso Mário, que finalmente, achava que recuperaria a sua paz,
deparou-se com mais um tipo de discriminação, desta feita, de caráter
social, natural nesse país para quem vive a condição de aposentado.
Começou com as dificuldades financeiras. Aposentado, uma renda sensivelmente
diminuída, idade já avançada e por fim a necessidade premente de comprar
medicamentos, às vezes, caros, levaram-no a vender até o seu próprio carro,
usado, porém, segundo ele, em excelente estado. E nunca mais conseguiu
comprar outro.
Hoje, vez por outra, encontramos nosso amigo andando pelas ruas do bairro
onde mora, indo desabafar suas mágoas junto aos amigos. Reclama
principalmente das chances de progresso que a vida lhe negou.
Jamais teve a oportunidade de se promover em seu ambiente de trabalho, mesmo
tendo conseguido se formar em economia, um curso da sua área de atuação.
Revoltado, relembra com amargor os inúmeros bate-bocas que teve com os seus
superiores por conta das lamentáveis injustiças das quais se considera
vítima.
É, sem dúvida, esse é um relato isolado, mas que, na verdade, mostra também
o retrato da realidade de milhões de pessoas nesse país. Não é só pelo fato
de ter trabalhado numa unidade militar. O Brasil, ainda é um país cheio de
preconceitos e discriminações em todos os seus segmentos.
Ora, se formos verificar, com um mínimo de atenção, qual é o período de
maior discriminação que ocorre na vida do brasileiro, constataremos que o
mesmo se dá, na realidade, na terceira idade, que é justamente o período
onde as pessoas se tornam vítimas da aposentadoria, da velhice e
principalmente da enorme injustiça social que, infelizmente, ainda continua
a assolar nesse país.
