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Um civil na caserna

portalbip.com (Roberto Bezerra) - 14/11/2006

 

Lá pelo início dos anos 70 quando a ditadura militar ainda estava pegando fogo, eis que ingressa na área civil do exercito, através de concurso público (naquela época, era possível), para exercer uma função na área de contabilidade, o Mário, pessoa simplória, mas, de gênio forte e com um temperamento de quem não gostava de engolir desaforos.

Lamentavelmente quando houve a distribuição dos aprovados no concurso, foi designado para assumir logo num lugar onde reinava uma hierarquia extremamente rígida naqueles tempos tão amargos.

Mário, não sendo militar, nos conta que teve que engolir uns maus bocados para conseguir se acostumar com aquela vida que, na realidade, quase chegava a ser também uma vida de militar.

É isso mesmo, diz ele, não era militar, mas o regime era quase o mesmo. Naqueles tempos, a rigidez era tanta, que até para tomar um simples cafezinho, só quem tinha direito eram os militares.
E os que tinham patente de oficial. De sargento para baixo não era dado esse tipo de regalia.

E quem se atrevesse a fazê-lo por debaixo dos panos e fosse flagrado estava sujeito a sanções disciplinares duríssimas por parte de alguns oficiais superiores, que estavam completamente tomados, naquela época, pela neurose do poder.

Ora, se entre eles próprios o tratamento que reinava era esse, imaginem se um funcionário da área civil resolvesse tomar o tão assediado cafezinho, com toda certeza, aconteceria uma tempestade num copo d’água, ou, melhor dizendo, num copo de café.

Se o dia fosse de chuva, o drama já começava pela manhã, no horário de hastear a bandeira, os trabalhadores da parte civil ficavam numa área ao relento separada da dos militares que, ao contrário, ficavam numa área coberta.

Funcionários estatutários de um lado, celetistas do outro. Caso a chuva perdurasse, ninguém saia. Tinha que esperar o término do evento. Trabalhava molhado.

Um outro detalhe interessante é que se um servidor fosse encontrado num setor de trabalho que não fosse o seu e que não estivesse devidamente autorizado para estar naquele recinto, já teria aberto, imediatamente contra si, um inquérito por conta desse fato.

Relata o nosso amigo sobre a imensa paciência que procurou ter para agüentar 30 longos anos de trabalho num ambiente de tanta pressão. Só mesmo a força de um lamentável infarto para conseguir aposentá-lo. Três safenas, uma mamária e uma aposentadoria por invalidez marcaram o resultado final de sua dedicação ao serviço público.

E após ver consolidado o seu processo de aposentadoria, quando chegaram ao fim as pressões provenientes das adversidades criadas pela vida de trabalho, eis que o nosso Mário, que finalmente, achava que recuperaria a sua paz, deparou-se com mais um tipo de discriminação, desta feita, de caráter social, natural nesse país para quem vive a condição de aposentado.

Começou com as dificuldades financeiras. Aposentado, uma renda sensivelmente diminuída, idade já avançada e por fim a necessidade premente de comprar medicamentos, às vezes, caros, levaram-no a vender até o seu próprio carro, usado, porém, segundo ele, em excelente estado. E nunca mais conseguiu comprar outro.

Hoje, vez por outra, encontramos nosso amigo andando pelas ruas do bairro onde mora, indo desabafar suas mágoas junto aos amigos. Reclama principalmente das chances de progresso que a vida lhe negou.

Jamais teve a oportunidade de se promover em seu ambiente de trabalho, mesmo tendo conseguido se formar em economia, um curso da sua área de atuação. Revoltado, relembra com amargor os inúmeros bate-bocas que teve com os seus superiores por conta das lamentáveis injustiças das quais se considera vítima.

É, sem dúvida, esse é um relato isolado, mas que, na verdade, mostra também o retrato da realidade de milhões de pessoas nesse país. Não é só pelo fato de ter trabalhado numa unidade militar. O Brasil, ainda é um país cheio de preconceitos e discriminações em todos os seus segmentos.

Ora, se formos verificar, com um mínimo de atenção, qual é o período de maior discriminação que ocorre na vida do brasileiro, constataremos que o mesmo se dá, na realidade, na terceira idade, que é justamente o período onde as pessoas se tornam vítimas da aposentadoria, da velhice e principalmente da enorme injustiça social que, infelizmente, ainda continua a assolar nesse país.

Roberto Bezerra
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