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André Ricardo

 

Roberto Bezerra

Administrador de empresas, microempresário e colaborador da imprensa


O troco da bananeira

Plantada bem no fundo do quintal da casa de Seu Edson e Dona Liquinha a bananeira, já um tanto velha, só agora conseguira brotar os seus frutos. Porém, até que valeu a pena esperar. Que penca! Deveria ter pelo menos uns dez cachos de banana. E já não era sem tempo. Escapou, por pouco, de ser cortada. Vivia ouvindo ameaças de Seu Edson:

- Deixe estar filha da égua, véia desse jeito e não coloca nada. Vá brincando comigo que eu lhe aprumo.

Dona Liquinha, muito religiosa que era, não agüentava ouvir tal heresia e de imediato passava um sermão no marido.

- Edson, deixe de mexer com a natureza. Na época certa ela vai botar os frutos dela. E vais ver como serão bonitos!

E realmente, quando menos se esperou, lá estava ela, uma penca novinha e muito pequena ainda, mas, para o olhar crítico de Seu Edson, provavelmente, uma penca que não iria ser lá grande coisa. Enganou-se, pois a penca foi crescendo tanto, que logo começou a entortar a velha bananeira e o velho teve que escora-la para que a mesma não tombasse com o seu enorme peso.

Seu Edson ficou impressionado com o tamanho das frutas, mas, por outro lado, não querendo também dar o braço a torcer, ainda disse:

- Finalmente, né bananeira boboca, tivesse medo de mim e se apressasse em me atender. Já sabias que estavas com os teus dias contados e resolvestes deixar de picuinha comigo. Quando menos esperares, vou aí em cima cortar os teus cachos. Me aguarda, não perdes por esperar.

Dona Liquinha corria em socorro da bananeira.

- Edson deixa essa coitada em paz. Ela vai terminar te aprontando alguma. Parece criança, vive arengando com a pobrezinha.

Mas Seu Edson não dava trégua e mal as bananas começaram a ficar de vez e no ponto de serem retiradas, lá se dirigiu ele com uma corda e um facão pra cortar a penca, motivo de tanta polêmica entre ele e a infeliz fruteira. Preparou-se para subir, mesmo sob os protestos da mulher, que além de achar cedo para tirar a penca, também não acreditava que o marido conseguisse, sozinho, descer tamanho peso sem terminar se acidentando.

- Edson, chama o vizinho para ajudar senão tu vai descer daí primeiro que a penca. Tu não estás vendo que não podes sozinho com ela. É muito grande e pesada.

- Deixa de besteira mulher. Será possível que eu não possa com uns míseros cachos de banana, muito mais, de uma bananeira velha, que nem se agüenta mais nas pernas. Prá botar uns cachinhos bestas desses, se eu não tivesse escorado ela, tinha arreado era tudo.

Seu Edson, teimoso que era, subiu na bananeira e não tendo bem onde se apoiar, foi justamente se escanchar por cima da penca, jogou a corda por cima da folha mais robusta, amarrou uma ponta na penca e a outra enrolou na mão esquerda. Puxou o facão e aprontou-se para dar o golpe no tronco da penca. Dona Liquinha entrou em pânico com a presepada que estava prestes a testemunhar.

- Homem, desce daí. Deixa de ser teimoso. Tu não estás vendo que isso não vai dar certo. Vai cair tudo junto, inclusive tu.

- Já disse que deixasse de besteira mulher. Eu sei o que estou fazendo. Sai daí que eu já estou descendo e levando junto, as bananas.

Dito isso o facão amolado cortou o ar e num golpe só decepou o tronco da penca. A folha não suportando tanto peso pendeu e a penca desceu arrastando Seu Edson e a corda juntos diretos para o chão. Dona Liquinha correu pra cima preocupada, mas vendo seu Edson levantar-se inteiro e, por muita sorte, sem nenhuma fratura, desatou numa risada só e disparou sem nem pensar:

- Tá vendo velho teimoso, a bananeira te deu o troco.

portalbip.com em 01/11/2006

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