Nesta última semana, em nota divulgada no site oficial do
Milan, o diretor-executivo do clube Adriano Galliani afirmou
categoricamente que Kaká não será liberado para disputar os jogos
olímpicos de Pequim. O dirigente alegou que Kaká não é um jogador sub-23
e, por isso, o clube rossonero não está obrigado a liberá-lo para as
Olimpíadas, pois esta competição não está incluída no calendário FIFA.
Não demorou muito e o nosso brilhante técnico Dunga já colocou a boca no
trombone. Segundo ele, as equipes realmente não são obrigadas a liberarem
os seus atletas. Porém, o treinador da Seleção Brasileira fez um apelo
para que os jogadores “batessem de frente” com seus comandantes no sentido
de ressaltar a importância da inédita medalha de ouro para o nosso país.
Eis suas palavras: “não quero que o jogador vá brigar com quem paga seu
salário, mas pela qualidade e o prestigio que possuem, podem interferir
nas negociações. No momento que o jogador lava as mãos, fica difícil
contar com ele”.
Sinceramente, não concordo com a opinião de Dunga e acho uma covardia a
postura da CBF nesse caso. Se bem que nesta sexta-feira já divulgaram uma
nota oficial dizendo entender a posição do clube italiano em não liberar o
atleta. Não obstante tal fato, urge esclarecer que esta não é a primeira
vez que tanto a CBF quanto Dunga tentam jogar Kaká contra a opinião
pública. Um episódio semelhante aconteceu na Copa América de 2007, quando
o jogador pediu dispensa da Seleção Canarinho alegando estar cansado e
precisando de férias. Isso foi o estopim para Dunga e a entidade máxima do
nosso futebol se revoltarem contra o jogador.
Ao meu ver, não prospera este discurso fajuto de “cadê a vontade patriota
de defender a Seleção?”. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não tem
fundamento também o argumento de que, se Kaká batesse o pé e contrariasse
o Milan, ele conquistaria o respeito e a admiração de todos, além de
ganhar pontos com o povão e, principalmente, com o técnico da Seleção.
Isso não faz o menor sentido. Quanta hipocrisia meu Deus!
Ninguém é louco de bater de frente com quem paga seu salário no final do
mês. O Kaká está inteiramente com a razão e deve seguir aquilo que
determina os seus patrões. A CBF e o Milan que se entendam. E não é uma
questão de “lavar as mãos”. O atleta já manifestou a sua vontade de
disputar as Olimpíadas, mas isso não depende só dele. Aliás, convém
enaltecer que o Milan sempre fez jogo-duro quando o assunto são os Jogos
Olímpicos. Isto porque há 4 anos o clube italiano não liberou Kaká para
disputa do Pré-Olímpico no Chile.
Vendo assim de longe, a atitude dos dirigentes do Milan parece algo de
ditador, mas analisando friamente o “x” da questão eles estão inteiramente
com a razão, uma vez que Kaká é um jogador imprescindível para a equipe e
uma possível contusão deixaria o clube no prejuízo.
Mas, enfim, o que não entra na minha cabeça é o fato de que existem
pessoas (e não são poucas) que engolem o discurso sem nexo de Dunga quando
ele tenta atribuir a Kaká a responsabilidade pelo ocorrido. Tudo isso não
passa de um raciocínio antiquado e de uma atitude de extrema covardia. O
nosso treinador deveria medir suas palavras antes de alfinetar qualquer
jogador via imprensa e jogar sobre o mesmo a responsabilidade de sua
não-ida à Olimpíada. Não se trata de uma questão de amor à pátria, de
dever cívico ou moral. Ninguém é louco de colocar o seu patrão contra a
parede por mais prestígio que tenha.
Portanto, se a CBF e Dunga acham que o Milan vai fazer a “caridade” de
liberar Kaká, eles podem tirar o cavalinho da chuva. E, antes de mais
nada, ao invés trocar farpas com o Milan nos bastidores, a CBF deveria se
preocupar com o planejamento do tão falado “projeto olímpico”.
Planejamento esse que não passa de uma verdadeira utopia. Enquanto isso, a
busca incessante pelo “título que ainda falta para o Brasil” parece um
sonho bem distante.
