Quando uma inverdade é dita várias vezes, principalmente
por um meio de comunicação de massa, torna-se uma falsa verdade no
consciente coletivo. E a imprensa carioca é especialista em construir
inverdades, de modo a incutir nos torcedores rubros negros a idéia de que
"disputar uma final contra o Flamengo no Maracanã é suicídio",
principalmente quando lotado.
Culpa de uma emissora tendenciosa que pretendia mais uma vez passar uma
imagem que não existe. Uma imagem de uma equipe que tem um plantel de alto
nível, com jogadores técnicos e qualificados para ganhar uma competição de
âmbito internacional. Só que a verdade foi de uma vez por todas
restabelecida. Bastava apreciar o deprimente espetáculo que a equipe
flamenguista protagonizou nesta última quarta-feira.
No estádio onde o Flamengo reinou absoluto no passado, lá se vão quase 21
anos desde o último título sobre uma equipe de fora do Rio, na decisão
contra o Internacional, pela Copa União. Desde então, as únicas
competições nacionais vencidas pelo Flamengo, em casa, foram contra os
rivais regionais Botafogo, em 1992, e Vasco, em 2006, dando uma clara
demonstração de que há duas décadas o flamengo tem se especializado em ser
um time regionalista.
De lá para cá, o time perdeu, sempre no Maracanã, três decisões da Copa do
Brasil, uma Supercopa, um Rio-São Paulo, além de incontáveis vexames
contra equipes mais fracas. Na verdade tem sido um bom negócio para os
times que não são carioca fazer final no Maracanã.
Pode-se dizer que tudo começou em 1995, quando um super time foi montado
para o centenário do clube, mas que colecionou fracassos que culminaram
com o vice-campeonato da Supercopa, contra o Independiente da Argentina.
Dois anos depois, mais duas finais perdidas em casa. Uma no torneio
Rio-São Paulo contra o Santos. A outra aconteceu três meses depois, quando
o Grêmio deu a volta olímpica no Maior de todos.
Alguns anos se passaram, o clube se reestruturou, conquistou vários
estaduais, a Copa dos Campeões e a Mercosul (ambas fora do Rio de Janeiro)
e todos acreditavam que a sina era coisa do passado. Ledo engano. Em 2004,
o Flamengo recebeu o Santo André em casa na final da Copa do Brasil e mais
uma vez a vitória simples lhe bastaria. Mas o inacreditável aconteceu.
Vitória do pequeno clube do interior de São Paulo, por 2 x 0, e mais de 80
mil torcedores se deram conta, finalmente, que a mística havia acabado.
Mas o pior ainda estava por vir. E veio do México. Trata-se do América,
cujo time faz uma campanha sofrível em seu campeonato nacional e que não
havia vencido sequer uma partida fora de casa na Libertadores. Na verdade,
o Flamengo foi vencido pela soberba. Um fiasco inquestionável, conforme
retratado pela mídia no dia seguinte. Pode até parecer um velho clichê,
mas Libertadores é diferente. É preciso mais atenção, concentração,
dedicação e respeito ao adversário. Porém, o clube rubro negro não seguiu
à risca todos esses requisitos e os castigo veio a cavalo. O roteiro era
de festa, em função da conquista do Estadual, com um Maracanã cheio e
despedida emocionada do técnico Joel Santana. Mas o clima de oba-oba e o
excesso de confiança transformaram-se em um dos maiores vexames da
história do Flamengo. É do tipo de vexame inqualificável e irretorquível.
O Flamengo pagou caro pelo clima de “já ganhou” e pelo salto alto. O que
se viu foi acomodação no lugar da tradicional raça rubro negra. O que se
viu foi irresponsabilidade no lugar de respeito.
Mas que esta derrota sirva de lição para os clubes brasileiros nas
próximas edições do principal torneio sulamericano. Se bem que o clube
rubro negro parece ter faltado a essa aula, afinal de contas em 2007 ele
já havia sido eliminado para o limitado Defensor em circunstâncias bem
parecidas.
Enfim, para o torcedor do Flamengo não há nem mesmo algum fracasso similar
dos rivais para servir de consolo. Vasco, Fluminense e Botafogo já
perderam partidas decisivas no Maracanã, mas sempre contra equipes fortes
e de tradição. Na história do estádio, apenas três vexames serão lembrados
para sempre. Um da Seleção Brasileira e dois do Flamengo.
E, de uma vez por todas, vamos desmistificar mais uma Mentira Global.
