Se já não bastasse o baixo nível técnico do futebol
brasileiro na atualidade, é duro também ter de aturar a tremenda falta de
imaginação dos nossos jogadores no momento da comemoração de um gol.
Vocês hão de concordar comigo que a tal da “Dança do Créu” e a comemoração
no estilo “Chororô” são umas das coisas mais repulsivas, desnecessárias e
ofensivas dos últimos anos no futebol tupiniquim. Não foi à toa que, mesmo
com 50 dias de atraso, a Comissão de Arbitragem da CBF orientou os
árbitros a coibirem comemorações de gols provocativas às torcidas
adversárias. Aliás, o estopim para tal atitude se deu em virtude da
confusão generalizada que ocorreu no último final de semana num jogo entre
Avaí e Figueirense, válido pelo Campeonato Catarinense, quando o atacante
Bebeto, após marcar um gol, fez a tão polêmica Dança do créu em frente à
torcida do time da casa.
Mas até que enfim essa idiotice foi colocada na marca do pênalty. Já era
tempo. É de conhecimento de todos que existem provocações toleráveis e
outras não. Ao meu ver, os jogadores de futebol precisam ter um pouco de
responsabilidade e a consciência de que qualquer provocação, por menor que
seja, hoje em dia já é motivo para acirrar os ânimos e explodir a ira das
torcidas que hoje mais parecem um barril de pólvora. Infelizmente a
rivalidade do nosso futebol chegou a esse ponto.
Todavia, se há quem desaprove este ato por considerar um desrespeito à
instituição e torcida adversária, há quem ache válido este tipo de
brincadeira no futebol. Dizem que “faz parte do folclore do esporte”.
Alegam, ainda, que não se pode deixar morrer a graça do futebol. Eu
discordo. Tenho a opinião de que esse tipo de comemoração só alimenta esta
rivalidade violenta que existe entre as torcidas. Em tempo de pedidos e
demonstrações de paz nos estádios essa famigerada Dança do Creu só vem a
atrapalhar o processo de pacificação nos campos de futebol. Além disso, há
de se convir que, se o futebol virou profissional, os seus protagonistas
precisam ter postura digna de tal seriedade. Precisam dar um bom exemplo.
Aliás, merecem aplausos as palavras do jornalista André Kfouri quando o
mesmo teceu o seguinte comentário a respeito do assunto: “a torcida do
Flamengo é uma das coisas mais lindas do mundo. Custa-me crer que, em vez
de correr na direção dela e admirar a cena, um jogador prefira outro tipo
de comemoração”. Eu assino embaixo. Ao comemorar um gol o jogador não pode
debochar, porque isso incita não só o adversário, como também os
torcedores do outro time. Sendo assim, as comemorações têm que estar
dentro das normalidades, dentro da beleza do espetáculo.
Ah, e para que eu não pareça um chato e seja taxado de “o último dos
românticos”, convém ressaltar que sou a favor de que continuem as
comemorações criativas, desde que não sejam ofensivas, vulgares,
violentas, hostis ou desrespeitosas. Mas também hei de confessar que tenho
saudades do tempo em que os jogadores ao comemorar um gol se deixavam
levar pela mesma emoção do torcedor, ou seja, gritavam, corriam,
levantavam os braços e se jogavam no gramado. Coreografia é coisa de caso
pensado e a emoção do gol, para mim, passa longe do racional.
Portanto, fico na torcida para que os nossos “craques” da atualidade
busquem inspiração no passado não só em relação ao bom futebol apresentado
naquele tempo, mas também no quesito como se deve comemorar um gol. Quem
não se lembra dos imortalizados socos no ar de Pelé, dos saltos de
Garrincha, do “nana-neném” de Bebeto, do punho erguido de Reinaldo, de
Neto com os joelhos no chão, etc.
Mas há quem prefira o “chororó” de Souza, a inusitada e criativa Dança do
Créu e por aí vai. Mas temos que respeitar quem gosta.
