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Futebol competitivo x Futebol-arte

portalbip.com (Quintino Augusto) - 26/10/2007

Como todos devem estar sabendo, o líder São Paulo está muito próximo de conquistar o seu quinto título nacional. Isto porque no duelo com o ex-vice-líder Cruzeiro, realizado no último domingo, o Tricolor paulista venceu a Raposa por 1 a 0, no Morumbi, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro, abrindo, assim, uma larga margem de vantagem sobre os seus adversários diretos ao título.

Com este resultado, o São Paulo já pode se tornar campeão neste final de semana. Para isto o Tricolor precisa ganhar do Sport e torcer para Palmeiras, Cruzeiro e Santos não vencerem os seus jogos. Como se pode constatar, a taça já está encomendada e o caminho do Morumbi é um destino mais do que certo.

Aliás, torna-se imperioso salientar que esta quinta estrela bordada no uniforme do São Paulo terá uma contribuição mais do que especial do seu goleiro Rogério Ceni, além da instransponível defesa são-paulina.

Com apenas 12 gols sofridos em 32 partidas, caso o São Paulo não sofra mais nenhum gol até o término da temporada (seis jogos para ser mais preciso), ele quebrará o recorde de defesa menos vazada de toda a história do Brasileirão. Um recorde espetacular e digno de aplausos. Será um feito e tanto. Não há que se negar.

Contudo, se tal façanha vier mesmo a se confirmar, será mais uma vitória do futebol competitivo sobre o futebol-arte. Isto porque o time são-paulino vem caracterizando-se por ser uma equipe aplicadíssima taticamente, de ótimos valores, mas que tem na defesa o seu grande trunfo. E não há nada de assombroso nisso. Trata-se de uma triste realidade do futebol mundial.

Já é fato que o futebol, hoje em dia, é resultado. E nada melhor para se conseguir um bom resultado do que escalar uma equipe equilibrada. Uma equipe que saiba atacar e, principalmente, defender-se com qualidade. Não adiantam 11 craques em campo. É preciso dosar a qualidade técnica com a marcação forte. Aliás, as grandes equipes vencedoras dos últimos anos têm sido assim. Um exemplo disso é a Itália quando conquistou o tetra campeonato mundial no ano passado.

Verifica-se, pois, que a arte de desarmar, de não deixar o adversário jogar e de parar o jogo a todo custo está se tornando uma febre. O mais importante são os resultados. E, para se ter resultados, deixa-se de lado o talento e se dá lugar à força física e a aplicação tática. Não temos como fugir disso. Infelizmente.

Já não é mais segredo para ninguém, portanto, que o futebol competitivo de hoje privilegia a parte tática e a forte marcação, em detrimento do futebol vistoso, do futebol pra frente, do drible e da criatividade. Cada vez mais os vazios no campo estão se tornando raros. Cada vez mais lances de pura arte e habilidade estão ficando em segundo plano. E o pior de tudo é que, nos dias atuais, a irreverência dentro de campo, um drible bem aplicado ou um lance inesperado, vem sendo considerado sinônimo de humilhação, chacota e provocação ao adversário.

Enfim, a conseqüência natural de tudo o que fora exposto é a de que o futebol-arte está fadado a desaparecer e quem sairá perdendo somos nós – amantes do bom futebol.

Pode parecer tolice esses comentários cheios de saudosismo do futebol-arte, do jogo bonito, da plasticidade, etc e tal... Mas, na verdade, é isso que prende o olhar do torcedor ao longo dos noventa minutos. É isso que faz o torcedor levantar da arquibancada. É isso que faz o torcedor pagar o alto preço dos ingressos. Em resumo, é o futebol-arte que espalha alegria, que contagia as torcidas e que estampa o fascínio de sua presença nos estádios do Brasil e do mundo.

Diante de tais circunstâncias, o meu maior medo é de que este pragmatismo são-paulino, se for recompensado com o título, sirva de exemplo para que outras equipes se tornem ainda mais defensivas, ainda mais concentradas em "recuperar a bola" em detrimento da criação de jogadas ofensivas.

Só nos resta agora torcer para que o futebol-arte volte a prevalecer e reinar pelos gramados Brasil afora, afinal de contas a arte não acabou. O que está faltando é coragem e competência por parte dos treinadores para aplicá-la. Ah! Como seria bom que esses técnicos medrosos fizessem uma revisão em seus conceitos, pois como disse o Romário certa vez: "Técnico bom é o que não atrapalha".

Quintino Augusto
  • Advogado com especialização em Direito Civil, além de apreciador do futebol e esportes em geral
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