Como todos devem estar sabendo, o líder São Paulo está
muito próximo de conquistar o seu quinto título nacional. Isto porque no
duelo com o ex-vice-líder Cruzeiro, realizado no último domingo, o
Tricolor paulista venceu a Raposa por 1 a 0, no Morumbi, em partida válida
pelo Campeonato Brasileiro, abrindo, assim, uma larga margem de vantagem
sobre os seus adversários diretos ao título.
Com este resultado, o São Paulo já pode se tornar campeão neste final de
semana. Para isto o Tricolor precisa ganhar do Sport e torcer para
Palmeiras, Cruzeiro e Santos não vencerem os seus jogos. Como se pode
constatar, a taça já está encomendada e o caminho do Morumbi é um destino
mais do que certo.
Aliás, torna-se imperioso salientar que esta quinta estrela bordada no
uniforme do São Paulo terá uma contribuição mais do que especial do seu
goleiro Rogério Ceni, além da instransponível defesa são-paulina.
Com apenas 12 gols sofridos em 32 partidas, caso o São Paulo não sofra
mais nenhum gol até o término da temporada (seis jogos para ser mais
preciso), ele quebrará o recorde de defesa menos vazada de toda a história
do Brasileirão. Um recorde espetacular e digno de aplausos. Será um feito
e tanto. Não há que se negar.
Contudo, se tal façanha vier mesmo a se confirmar, será mais uma vitória
do futebol competitivo sobre o futebol-arte. Isto porque o time
são-paulino vem caracterizando-se por ser uma equipe aplicadíssima
taticamente, de ótimos valores, mas que tem na defesa o seu grande trunfo.
E não há nada de assombroso nisso. Trata-se de uma triste realidade do
futebol mundial.
Já é fato que o futebol, hoje em dia, é resultado. E nada melhor para se
conseguir um bom resultado do que escalar uma equipe equilibrada. Uma
equipe que saiba atacar e, principalmente, defender-se com qualidade. Não
adiantam 11 craques em campo. É preciso dosar a qualidade técnica com a
marcação forte. Aliás, as grandes equipes vencedoras dos últimos anos têm
sido assim. Um exemplo disso é a Itália quando conquistou o tetra
campeonato mundial no ano passado.
Verifica-se, pois, que a arte de desarmar, de não deixar o adversário
jogar e de parar o jogo a todo custo está se tornando uma febre. O mais
importante são os resultados. E, para se ter resultados, deixa-se de lado
o talento e se dá lugar à força física e a aplicação tática. Não temos
como fugir disso. Infelizmente.
Já não é mais segredo para ninguém, portanto, que o futebol competitivo de
hoje privilegia a parte tática e a forte marcação, em detrimento do
futebol vistoso, do futebol pra frente, do drible e da criatividade. Cada
vez mais os vazios no campo estão se tornando raros. Cada vez mais lances
de pura arte e habilidade estão ficando em segundo plano. E o pior de tudo
é que, nos dias atuais, a irreverência dentro de campo, um drible bem
aplicado ou um lance inesperado, vem sendo considerado sinônimo de
humilhação, chacota e provocação ao adversário.
Enfim, a conseqüência natural de tudo o que fora exposto é a de que o
futebol-arte está fadado a desaparecer e quem sairá perdendo somos nós –
amantes do bom futebol.
Pode parecer tolice esses comentários cheios de saudosismo do
futebol-arte, do jogo bonito, da plasticidade, etc e tal... Mas, na
verdade, é isso que prende o olhar do torcedor ao longo dos noventa
minutos. É isso que faz o torcedor levantar da arquibancada. É isso que
faz o torcedor pagar o alto preço dos ingressos. Em resumo, é o
futebol-arte que espalha alegria, que contagia as torcidas e que estampa o
fascínio de sua presença nos estádios do Brasil e do mundo.
Diante de tais circunstâncias, o meu maior medo é de que este pragmatismo
são-paulino, se for recompensado com o título, sirva de exemplo para que
outras equipes se tornem ainda mais defensivas, ainda mais concentradas em
"recuperar a bola" em detrimento da criação de jogadas ofensivas.
Só nos resta agora torcer para que o futebol-arte volte a prevalecer e
reinar pelos gramados Brasil afora, afinal de contas a arte não acabou. O
que está faltando é coragem e competência por parte dos treinadores para
aplicá-la. Ah! Como seria bom que esses técnicos medrosos fizessem uma
revisão em seus conceitos, pois como disse o Romário certa vez: "Técnico
bom é o que não atrapalha".
