portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 09/07/2010
Essa frase - aparentemente verdadeira - cabe na boca de
nove entre dez políticos hoje no Brasil. Se não vejamos.
Pra Lula, ‘aliança se
faz com os diferentes’ é ‘coerente’ com
as composições políticas que ele conseguiu
construir em torno do seu governo. A Lula, a história
atribuirá à capacidade de demonstrar na prática
que uma coisa é um discurso e outra coisa é a
prática.
Aliança se faz com os diferentes, tem sido a frase mais usada
nos dias atuais de convenções e campanha eleitoral. Pois
a partir de agora o jogo está feito e o tabuleiro
político arrumado. Que venha mais uma eleição no
Brasil do futuro. Do futuro, pois esse que está aqui precisa
dá solução pra muita coisa.
José Serra: Aliança se faz com os diferentes.
Justificando sua aliança com o PPS, PV, PTB.
Dilma: Aliança se faz com os diferentes. Tentando
disfarçar o desconforto com sua aliança com o PMDB, PP,
PDT, etc. e tal.
Cássio, Ricardo e Efraim: Aliança se faz com os
diferentes. E de tão diferentes que só se pode achar uma
explicação. São realmente todos diferentes no
falar e bem iguais no agir.
José Maranhão, Rodrigo Soares, Wellington Roberto,
Simão Almeida: Aliança se faz com os diferentes. E de
tão diferentes aparentemente, demonstram tanta igualdade no
oportunismo pelo mando do poder.
Ideologia? Como dizia Cazuza: eu quero uma pra viver.
Aliança se faz com os diferentes. Isso é certo quando os
diferentes aceitam a legitimidade dos iguais. Dos interesses iguais. E
aqui entra mais uma vez a ética como faca pra cortar esse bolo
do poder. E separar o joio do trigo, o diferente do igual. Desse poder,
que os homens distribuem em recursos, prestígio e
influência.
Mas de quê iguais estamos falando?
De quê diferente estamos nós a nos referir?
De ‘iguais’ estamos falando com certeza de cidadania.
Democracia. Direitos e deveres iguais de verdade e não de
mentirinha. Estamos cansados desse discurso de que vivemos numa
democracia e que somos iguais. Mas o que vemos mesmo é bem
diferente disso.
De diferente, reconhecemos de
logo aqueles que se acham os mais iguais de nós. Aqueles que
pelo seu egoísmo de existência humana se acha no direito
de ter e querer ser mais do que qualquer outra pessoa. Acha-se o cara!
O protegido e o escolhido por Deus. Só pisa no chão
porque é o jeito. Mais assim que puder compra um
helicóptero. São diferentes de nós, esses 'iguais'.
Dos iguais, estamos a falar de classe. Diferentemente desses que
estão ai e que fazem questão de negá-la. Mesmo que
na atual conjuntura a queiram desqualificar, desacreditar em sua luta
continua e irrefutável, mesmo assim, subsiste e existe para
demonstração e contradição desse velho
capitalismo neoliberal de hoje em dia.
Não temos culpa se a elite brasileira resolveu acabar com a
história. Luta inglória. Aviso desde já. Mas a
dominação do Estado, pelos poderes constituídos
não conseguem dar conta do nosso cotidiano.
Logo, a verdadeira aliança se faz mesmo e de verdade com os
iguais e nunca com os diferentes.
Sim, os iguais de classe. Pessoas iguais a gente. Que acreditam que pra
viver por aqui precisa apenas do suficiente e justo.
Dos iguais em oportunidades, em direitos e deveres. Desses iguais que
até o salário mínimo é igual. Veja
só que contradição, TODOS esses que estão
ai afirmando que ‘a aliança se faz com os
diferentes’, TODOS eles, ganham diferentemente da maioria de
nós, os verdadeiros iguais.
Logo, eles são diferentes apenas do ponto de vista do discurso.
Mas o significado do diferente deles é sempre o mesmo: mandar em
você, ser diferente de você, através de muitos,
muitos privilégios.
Está mais do que na hora – pra alguns já passou da
hora – de nos livrarmos de vez dessa elite que sabe como
ninguém fazer discursos. De dizer aquilo que a gente quer ouvir
e nas nossas costas fazer justamente o que eles querem com o poder que
nós lhe atribuímos. Portanto, não esqueça a
quê iguais você pertence.