portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 13/05/2010
O momento político brasileiro é surreal. De surreal diz-se que são
coisas inusitadas. Carmem Miranda foi surreal quando chegou a Hollywood
e pôs sua baiana pra fora. Arrancou suspiros, fez o inusitado. Quebrou
paradigmas. O Brasil, politicamente falando, é um caso de miséria
crônica. Pior do que seca no nordeste sem carro pipa. A indigência a que
chegou o ‘que fazer’ político no Brasil chega às raias da
irresponsabilidade. Irresponsabilidade de deixar o que tem que ser
feito, para ser feito o que o Brasil não precisa. Atender casos e
interesses de pequenos grupos, tanto rico quanto remediado à custa do
erário, que já foi público e que está cada vez mais privado. Privado
pela ganância de quem chega ao poder achando que o poder foi feito e
talhado pra ele e seu grupo.
Aqui não se administra o país, o estado, a cidade. Aqui se administra o
plano de poder de quem está no mando do país, do estado e da cidade.
Aqui a lei é pra ser cumprida, pelo cidadão, eleitor e contribuinte. Não
necessariamente nessa ordem, mas com a ordem de ser cumprida. Claro que
aqui não estamos falando de determinadas categorias que estão, pelo
jeito e pela forma de se comportarem, acima da lei e da ordem. Eles são
a lei e a ordem. Tudo é feito para que no fim, eles sejam os
contemplados. Por mais progresso cientifico que conquistemos, parece que
a mentalidade dessa elite governante - nos três níveis de poder e nas
três hierarquias administrativas - não consegue fazer progresso.
Tem horas que me encontro em 1930. Onde a lei dos coronéis era a palavra
final. Donde os mesmos diziam aos juízes das suas comarcas quem devia
ser intimado ou não. No Brasil de hoje, de 2010, ainda estamos do mesmo
jeito de trinta. Onde a perseguição, a desfaçatez, o menosprezo, a
discriminação, a inveja, a falta de solidariedade nos menores gestos,
continuam sendo exercitada por essa elite que sempre está no poder.
Quinhentos anos de ditadura econômica. Onde o mando do peso do capital,
faz com que o brilho e o tilintar do ouro de todos nós, fique sempre nas
mesmas mãos e nas mesmas famílias. O surrealismo brasileiro está
conseguindo carnavalizar até as ideologias. Aqui o pensamento do momento
é aquele em que você possa levar alguma vantagem. Sem vantagem não tem
conversa. Isso está tão entranhado nas consciências das pessoas, que até
festa de aniversário se pergunta qual a vantagem em ir?
O Brasil, os estados e suas cidades, do ponto de vista administrativo,
estão se tornando uma coisa amorfa. Sem rosto e sem identidade. Até o
discurso da impessoalidade foi entendido com a falta de transparência
nos atos públicos e de planejamento social. Aqui não se discute mais
projetos de vida. Mas a vida de alguns e seus projetos mirabolantes. Não
temos um projeto social global, para todos, socialmente responsável, com
visão de futuro. Administramos o caos, o aqui e o agora, o que sai de
errado. O que não tem conserto. Pois só corremos atrás do nosso
desenvolvimento, não somos empurrados por ele. Veja os dados da
educação, saúde e segurança. Não preciso dizer mais nada. Só por essas
três janelas você já pode deduzir a paisagem.
E o danado é que quando você pensa que as coisas vão tomar outro rumo,
um retrocesso faz mostrar que a gente mudou, mas não mudou muito que é
pra não ficar muito diferente. As representações sociais são mais fracas
que caldo de batatas, com poucas batatas. Se os pobres estão reclamando
muito! Endividemo-los no crediário, na casa ‘própria’ de trinta anos de
prestações e resíduos impagáveis. Querem carro? Setenta e dois meses pra
pagar um carro, mas que foi cobrado três. Digam que ‘a escola e a saúde
é pra todo mundo’. Só não pode ser tudo de uma vez. Dia sim tem, dias
não, não. Garanta o voto obrigatório para todos. Analfabetos inclusive.
Distribuam facilidades a crediário. Deixe que eles pensem que serão os
ricos de amanhã. Mas se não pagarem pela propaganda enganosa, SPC neles!
A moda agora é sem ideologia. Pode ser com lenço e com documentos.
Escrituras. Muitas escrituras. De milhões de terras devolutas de índios
que não sabe plantar. Não tem talento pro agronegócio. ‘Nem sei mesmo
pra que esses índios ainda existirem, mesmo depois de quinhentos anos
tentando exterminá-los’. A moda agora é ser o ‘cara’. Mesmo que pra
isso eu tenha que contratar um marqueteiro com seu dinheiro pra dizer
que eu sou ‘o cara’. E que vocês não vão mais conseguir viver sem mim. A
moda hoje é argumentar que é legal. Mesmo que seja imoral e engorde. Não
importa o que digam de você, o que vale mesmo é a conta bancária e o
numerário depositado. Se vierem do surrupio dos direitos sociais do povo
ou do que deveria sustentá-los, o que importa? O importante é se dá bem.
Que falta faz educação de verdade. Desaprendemos até separar alhos de
bugalhos.