Praças e árvores
Rubens Nóbrega - Fonte:
Portalcorreio
O arquiteto Hugo Peregrino sentiu um frio na espinha ao ler domingo
último, na coluna de Abelardo Jurema Filho, deste Jornal, uma nota
sobre o início das ‘obras de restauração’ da Praça Rio Branco, no
centro da Capital.
Tenho do Doutor Hugo as mais positivas referências, tanto por sua
atitude de cidadão como por sua competência profissional, predicados
que fazem dele um dos mais qualificados defensores do nosso patrimônio
histórico e natural.
Daí por que tenho não apenas como verdadeiro, mas também contagiante,
esse frio na espinha que dá nas pessoas de bem que amam esta cidade
quando vêem mais uma tentativa de desfigurá-la por obra e graça de um
autoritarismo insano.
Mas por que foi mesmo que Hugo Peregrino reagiu assim à nota de
Abelardo? É o que vamos saber na carta que ele enviou ao colunista,
que reproduzo em boa parte, a seguir.
Rubens, toda vez que vejo uma notícia sobre o início das obras do
Poder Público em alguma praça existente em nossa cidade de João Pessoa
me dá um frio daqueles na espinha. Isso porque, em geral, o
desconhecimento desses projetos pela comunidade – sua principal
usuária, tem se mostrado uma caixinha de surpresas não muito
agradáveis.
Veja o caso do Ponto de Cem Réis – Praça Vidal de Negreiros, após a
“recuperação” feita pela Prefeitura: durante o dia foi mantido como
local inóspito para se circular, principalmente no verão, quando o
grande piso cimentado, sem qualquer árvore ou sombra no meio, o
transforma em um verdadeiro “fogão solar”; durante a noite, para as
apresentações artísticas foi montado um palco gigantesco com
instalações de apoio proporcionais a ele, formando como um tapume em
um de seus lados que era aberto, o que torna a praça pro demais
pequena. Durante o último mês de janeiro, praticamente toda a praça
ficou tomada por aquele grande “trambolho”. E, quase no meio dessa
praça fizeram uma grande base elevada, onde colocaram, emoldurado por
granito, o busto de Vidal de Negreiros.
Essa base só serve, ora de local para alguns assistirem show à noite
sentados aí, ora para o pessoal do skate usar como rampa de lançamento
para seus bólidos (quem quiser, pode assistir esse show de skate, no
domingo, à tardinha). Os bancos da praça, então, Rubens, porque será
que os projetistas só pensam em placas de concreto, duras como pedra,
quentes como chapa para fritar ovos?
Por que ninguém usa a madeira, assentada sobre estrutura de ferro
fundido, com um confortável encosto, material muito mais agradável,
que apenas necessita de uma manutenção, cada ano? Eram assim – e ainda
o são em muitas cidades, os bancos das praças que nos convidam a
sentar, ler um jornal ou um livro, refletir e contemplar. E as poucas
árvores plantadas – apenas cinco (afinal até quando João Pessoa será a
“segunda cidade mais verde do planeta”), simétricas àquelas já
existentes (devemos elogiar sua manutenção), margeando a rua Duque de
Caxias – via que ninguém da população sabe ainda como vai ser: será
que pensam em voltar o tráfego de veículos por ali? Rogo que isso não
aconteça.
Volto, então, ao porquê de sentir o frio na espinha: no último domingo
(31/01) vi uma nota na coluna de Abelardo falando sobre o início das
obras de restauração da Praça Rio Branco (antigo largo ou Praça do
Erário), no centro da cidade, logo ali atrás do prédio da FUNAPE,
margeando a Rua Duque de Caxias. Lá existem oito grandes árvores (do
gênero fícus, também conhecidas como figueira, gameleira, etc ), que
há bastante tempo fornecem uma generosa sombra e servem de morada – e
ambiente, para uma boa quantidade de pássaros. É verdade que essa
sombra só favorece atualmente os carros que usam a praça como
estacionamento privilegiado, e que a praça precisa de uma urgente
intervenção. Mas seria demais pedir ou exigir que o projeto fosse
conhecido antecipadamente pela comunidade usuária – nós, cidadãos e
cidadãs? Quem sabe, poderia até ser alvo de uma consulta pública, e o
melhor é que pudessem ser utilizados todos os meios possíveis de
auscultar a sociedade – o presencial e o virtual onde pudessem aflorar
as sugestões e, também, todos pudessem saber o que pretendem os
projetistas. Há, aliás, entre as metodologias científicas de
intervenção em áreas históricas aquelas que se utilizam de pesquisa
junto à população usuária, como forma de obter o projeto e a forma
final mais próxima aos anseios do cliente.
O meu medo maior, Rubens, esse eu deixei para o fim: é o de perder
aquelas árvores, que dão essa sombra tão importante e agradável para
nós humanos, que servem de morada para uma boa quantidade de pássaros
e que levaram tanto tempo para chegar a esse ponto – algumas gerações!
É que está virando moda derrubar árvores em áreas e órgãos públicos
nesta cidade, sem avisar, nem pedir licença previamente a ninguém,
pois até a Prefeitura tem praticado essa política, mesmo que não
exista necessidade dessa ação drástica. Basta citar aquela árvore (ou
árvores) que existia (m) no lugar da antiga Barraca do Pau Mole, em
Tambaú, e que veio (vieram) abaixo para dar lugar a um pedaço do
mercado de peixe.
Será que não dava para deslocar nenhum pouco o mercado (ou quem
sabe diminuí-lo um pouquinho só), no projeto, para preservar a morada
de tantos pássaros e a imensa sombra que aquela árvore dava? Afinal,
se ela também levou gerações para chegar onde chegou - antes do Hotel
Tambaú ela provavelmente já estava lá, ao lado do extinto coqueiral,
merecendo melhor sorte nos dias de hoje, nem que fosse ser substituída
por outras plantadas previamente. Para agravar meu medo, Rubens, no
caso da Praça Rio Branco, o órgão que está atuando em parceria com a
Prefeitura é o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional! E nem no IPHAN eu posso confiar, em vista de experiências
anteriores, das quais vou citar apenas uma que me toca mais de perto,
das quais vou citar apenas uma que me toca mais de perto, como cidadão
e como arquiteto.
Entre abril e maio de 2008, a vegetação que havia por trás da murada
do adro da Igreja de São Francisco – tombada como Patrimônio Nacional,
do lado esquerdo, composta de dois jambeiros, um coqueiro de grande
porte e dois coqueiros menores, foi sacrificada, sem quaisquer
explicações à comunidade. Será que daqui a pouco vão derrubar também
as árvores que ficam por trás da murada direita, e que sofreram uma
poda drástica na mesma época? Pela placa que se vê na murada do adro,
o IPHAN deve ter autorizado a derrubada das mesmas. Será que o
patrimônio natural não pode conviver com o patrimônio cultural
edificado? Acredito que há sempre uma maneira de nós – humanos,
convivermos com o que nos antecede – a natureza, da qual dependemos.
Basta imaginação e criatividade!
Não quero acreditar que estejam pensando em sacrificar também, aquelas
árvores da Praça Rio Branco, mas “seguro morreu de velho” e, na dúvida
e falta de crédito na ação consciente e transparente dos órgãos
públicos, é melhor se precaver, não?
Pediria que, através de sua coluna, você fizesse um apelo para que os
promotores da “recuperação” ou “restauração” da Praça Rio Branco
tirassem de nós o receio de que poderemos sofrer essa perda, e que
apresentem o que pretendem fazer ali, abrindo o debate para ouvir o
que a sociedade deseja nesse espaço público que lhe pertence e que,
brevemente, deverá lhe ser devolvido. Se a Prefeitura não quer
promover mais concursos públicos para isso, como deveria – a exemplo
daquele que foi feito para a Bica (Parque Arruda Câmara), que, pelo
menos abra o debate público.
Faço meu – e sei que de muitos outros – o seu apelo, Doutor. E, aos
leitores, informo ainda que a supressão das árvores da paisagem do
adro do São Francisco está registrada em fotografias por Hugo
Peregrino, fotos que ele mandou junto com o texto.

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