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João Pessoa - PB -

Na linha do horizonte – I

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 20/02/2010
Na Paraíba de hoje discutir qualquer assunto com mais profundidade parece ser perda de tempo. Mas a teimosia insiste a colocar essa questão como fundamental para os dias de amanhã. Pois vejo muita discussão em torno de ‘quem’ ou que ‘grupo político’ vai reger a orquestra dos governos, mas proposta que é bom, não aparece. Claro, vão aparecer aquelas pra encher o saco e os programas do ‘horário eleitoral’. Onde a única contribuição que traz de verdade, é fazer com que as famílias desliguem seus televisores e por alguns momentos – antes da novela das oito – possam conversar amenidades ou se ocupar em algum afazer domestico, enquanto o ‘horário eleitoral’ termina. Acha que estou exagerando? Faça uma pesquisa e pergunte se o eleitor assiste ou discute sobre o que passa na propaganda eleitoral OBRIGATÓRIA. Por tanto, o que sai nessa programação é conversa fiada pra colocar gado pra dormir.

Como os ‘políticos’ e os seus incansáveis comi$$ionados têm a certeza de que somos apenas uma estatística e que por isso merecemos ser tratados em termos de cifras. ‘A tendência é de que fulano de tal tenha 33% dos votos e sicrano 45%’. O que será feito de verdade, a gente só vai ver mesmo depois da eleição. Claro, se ganhar fulano de tal ou sicrano. E se ganhar: ‘temos que ter a grandeza de querer outros mandatos’. De preferência consecutivo que é para não perder a tal da ‘continuidade administrativa’. E quem sabe alçar cargos e vôos mais altos ainda. Por isso é importante começar já, a pensar nas próximas eleições. Pois essa de 2010, de certa forma, já é carta de jogo marcado para acontecer e dar os resultados esperados. Os currais, ou desculpe, os grupos sociais, já estão todos ‘contatados’ e a postos. Positivo e operante.

Pra que vocês tenham uma idéia de como as coisas por aqui andam, estava a olhar fotografias da década de setenta de João Pessoa e foi só bater o olho nas tais fotografias, e ver a imensidão do verde que predominava essa cidade. Ao passar desses quarenta anos, essa vegetação exuberante está cada dia menor. A PMJP tem dito que plantou milhares de árvores (mais derrubaram muitas, inclusive em locais preservados por lei). E essas árvores plantadas hoje, estarão daqui a trinta anos dando ou resgatando uma pequena parte do que tínhamos na década de setenta. Fixo essa década, pois é nela que a população de João Pessoa vai começar a ganhar mais consciência ecológica. Nesse período tínhamos um cientista tabajara chamado Lauro Xavier - a quem reputo a salvação da Mata do Buraquinho - foi quem liderou a reação contra a idéia de construir conjuntos habitacionais nas terras da Mata do Buraquinho. Imagine se isso tivesse ocorrido?

Puxo o assunto da ecologia, do meio ambiente e da preservação, para que os jovens de hoje tenham consciência de que aqui em João Pessoa já se teve maiores preocupações com tudo isso. Ou você acha que se faria hoje um hotel como foi feito o Hotel Tambaú dentro do mar? Tente fazer um hotel hoje, mesmo perto de um rio e você verá a confusão. A sociedade nesse ponto evoluiu muito e a própria legislação que essas discussões tiveram, ajudou a moldar os capítulos jurídicos existentes hoje. Mas mesmo assim, com todo esse ‘avanço ecológico’ nas consciências do povo daqui, ainda hoje os governos (em pleno 2010, início de terceiro milênio) se comportam como se estivessem na idade média. O que a PMJP já fez na Ponta do Cabo Branco (e que quer continuar fazendo), mais a devastação agorinha acontecendo para se criar mais um elefante branco no altiplano do Cabo Branco pelo Governo Estadual, só faz descaracterizar cada vez mais a nossa ainda bela cidade. E olhe que não estou a falar na ganância dos empreiteiros por lucros mirabolantes. Mesmo que o resultado de suas obras seja a sujeira no nosso sapato e o mau cheiro no ar.

Veja esse outro exemplo agora no Bairro dos Bancários. Antes um bairro bucólico, com uma qualidade de vida extraordinária, com uma ocupação territorial planejada, pensada para que os adensamentos humanos fluíssem de forma civilizada. Mas, mais uma vez a PMJP abre o gabarito do bairro e permite que um empresário em nome do lucro, compre casas no meio de uma rua – que foi feita para ser rua de casas – e construa edifícios tipo casa de pombos, onde o adensamento populacional e o aumento desastrado do uso e do abuso do sistema de esgotamento sanitário, energia e abastecimento d’água extrapola o já planejado. Mas ai vão dizer que isso é o ‘progresso’ e que em todo canto é assim e assim caminha a humanidade. Eu até entendo essa explicação meio tapa buraco, mas não justifica o que tem sido feito por aqui. Aqui tudo mudou com o aumento populacional. Esse adensamento só tem trazido problemas. Até uma simples fila de padaria, para a compra do singelo pão, pulou de dez, quinze pessoas na hora de pico, para cem, duzentas pessoas.

Isso ocorre em proporções maiores ou menores em outras áreas da cidade. Veja em que tem se transformado o Bairro de Manaira. A insegurança, a solidão dos edifícios na frieza das sombras dos mesmos, que nem o sol consegue clarear ou aquecer. Ruas inteiras em Manaira não possuem mais sol à tarde. Os edifícios ficam de costas pro sol e suas sombras escurecem o dia. Tira a ventilação, aumentando o calor insuportável nesses dias de verão. Mas e o quê você tem a ver com isso não é verdade? Em minha opinião tem tudo a ver. Pois deveria ter participado mais, ter cobrado mais, ter falado mais e não ter deixado que esse pessoal que a gente elege fizesse ou faça isso com nossa cidade. Todo mundo fala hoje que João Pessoa passa por um ‘boom’ de desenvolvimento. E que agora é que ela é a bola da vez. As outras vezes anteriores ela era apenas bolhas e que não vingou.

A cidade está cheia de turistas’, afirmam os mais altruístas desse modelo econômico e suicida. Realmente tem muita gente (poucas na verdade) ganhando rios de dinheiro em João Pessoa, em detrimento da degradação que esse ‘progresso’ socializa com a cidade. Veja o caso exemplar e emblemático do Shopping Manaira. Em nome do ‘arrojo empresarial’ de um único espertinho, o Rio Jaguaribe a o ‘Bairro’ de São José – milhares de famílias – ficaram prejudicados para que você e eu, ao comprar naquele estabelecimento comercial (sic!) possa pagar as férias faraônicas da família do empresário e seus carros importados. Mas isso é chique e sai nas calúnias sociais. Já o rio Jaguaribe e seus vizinhos podem ficar com os prejuízos. O lucro tem dono.

Mas quando tudo isso aqui se transformar numa cidade inviável, ai os ricos pegam sua grana e vão degradar outro ambiente, onde os nativos poderão ser enganados a troco de que agora vamos ter edifícios de 52 andares, ‘os mais altos do nordeste brasileiro’. Ou que a Ponta mais Oriental das Américas, possa ser desfigurada por uma obra de Oscar Niemayer. ‘Mas é Niemayer!’ E olhe que outro projeto - esse sim interessante - elaborado e dado de presente a sociabilidade de João Pessoa, por ninguém menos importante que o paisagista Burle Marx e que simplesmente foi desprezado, porque partia da ‘idéia idiota’ de preservar o patrimônio material e imaterial da ponta mais Oriental das Américas.

Pra concluir esse primeiro texto – pois um assunto assim tão vasto não pode caber em apenas uma crônica – confesso que o que me levou a esse tema de hoje e sua decorrência em próximos textos, foi à preocupação do arquiteto Hugo Pelegrino que enviou uma carta denúncia, reproduzida na coluna do combativo jornalista Rubens Nóbrega semana passada no Jornal Correio da Paraíba (carta anexada abaixo). Hugo Pelegrino – que toda sociedade pessoense pensante conhece e sabe das suas preocupações e lutas ambientais – disse com todas as letras de quem tem autoridade pra dizê-la, que João Pessoa está sem projeto de preservação, para proteção de tesouros seculares, em paisagens, sítios históricos e patrimônio ambiental que se degrada a olhos vistos. E o pior, com a contribuição desastrosa de quem deveria protegê-lo, preservá-lo, respeitá-lo.

Mas talvez você não tenha nada a ver com isso também. Só mora aqui e vai herdar tudo que for feito de bom e de ruim nessa cidade. E olhe que não queremos ser acusados de omissos. Acho que Hugo Pelegrino também não. Nem Rubens Nóbrega, nem Marcos Aranha, nem o artista plástico Hermano José. Não quero nem falar dos falsos ecologistas, que trocaram sua defesa por um cargo em comissão na PMJP ou no Governo Estadual. Nem tão pouco por aqueles que trocaram sua convicção em defesa da natureza por votos e interesses patrimoniais. Prefiro ficar com o exemplo de Dr. Lauro Xavier. Que criou uma Associação dos Amigos da Natureza para fazer política pública em defesa do meio ambiente. E nunca - em tempo algum - para fazer política partidária, como tem feito ultimamente. Tá ai o resultado de toda essa omissão.

Carta de Hugo Pelegrino:

Sexta, 5 de Fevereiro de 2010 - 06h00

Praças e árvores

Rubens Nóbrega - Fonte: Portalcorreio

O arquiteto Hugo Peregrino sentiu um frio na espinha ao ler domingo último, na coluna de Abelardo Jurema Filho, deste Jornal, uma nota sobre o início das ‘obras de restauração’ da Praça Rio Branco, no centro da Capital.

Tenho do Doutor Hugo as mais positivas referências, tanto por sua atitude de cidadão como por sua competência profissional, predicados que fazem dele um dos mais qualificados defensores do nosso patrimônio histórico e natural.

Daí por que tenho não apenas como verdadeiro, mas também contagiante, esse frio na espinha que dá nas pessoas de bem que amam esta cidade quando vêem mais uma tentativa de desfigurá-la por obra e graça de um autoritarismo insano.

Mas por que foi mesmo que Hugo Peregrino reagiu assim à nota de Abelardo? É o que vamos saber na carta que ele enviou ao colunista, que reproduzo em boa parte, a seguir.

Rubens, toda vez que vejo uma notícia sobre o início das obras do Poder Público em alguma praça existente em nossa cidade de João Pessoa me dá um frio daqueles na espinha. Isso porque, em geral, o desconhecimento desses projetos pela comunidade – sua principal usuária, tem se mostrado uma caixinha de surpresas não muito agradáveis.

Veja o caso do Ponto de Cem Réis – Praça Vidal de Negreiros, após a “recuperação” feita pela Prefeitura: durante o dia foi mantido como local inóspito para se circular, principalmente no verão, quando o grande piso cimentado, sem qualquer árvore ou sombra no meio, o transforma em um verdadeiro “fogão solar”; durante a noite, para as apresentações artísticas foi montado um palco gigantesco com instalações de apoio proporcionais a ele, formando como um tapume em um de seus lados que era aberto, o que torna a praça pro demais pequena. Durante o último mês de janeiro, praticamente toda a praça ficou tomada por aquele grande “trambolho”. E, quase no meio dessa praça fizeram uma grande base elevada, onde colocaram, emoldurado por granito, o busto de Vidal de Negreiros.
Essa base só serve, ora de local para alguns assistirem show à noite sentados aí, ora para o pessoal do skate usar como rampa de lançamento para seus bólidos (quem quiser, pode assistir esse show de skate, no domingo, à tardinha). Os bancos da praça, então, Rubens, porque será que os projetistas só pensam em placas de concreto, duras como pedra, quentes como chapa para fritar ovos?

 Por que ninguém usa a madeira, assentada sobre estrutura de ferro fundido, com um confortável encosto, material muito mais agradável, que apenas necessita de uma manutenção, cada ano? Eram assim – e ainda o são em muitas cidades, os bancos das praças que nos convidam a sentar, ler um jornal ou um livro, refletir e contemplar. E as poucas árvores plantadas – apenas cinco (afinal até quando João Pessoa será a “segunda cidade mais verde do planeta”), simétricas àquelas já existentes (devemos elogiar sua manutenção), margeando a rua Duque de Caxias – via que ninguém da população sabe ainda como vai ser: será que pensam em voltar o tráfego de veículos por ali? Rogo que isso não aconteça.

Volto, então, ao porquê de sentir o frio na espinha: no último domingo (31/01) vi uma nota na coluna de Abelardo falando sobre o início das obras de restauração da Praça Rio Branco (antigo largo ou Praça do Erário), no centro da cidade, logo ali atrás do prédio da FUNAPE, margeando a Rua Duque de Caxias. Lá existem oito grandes árvores (do gênero fícus, também conhecidas como figueira, gameleira, etc ), que há bastante tempo fornecem uma generosa sombra e servem de morada – e ambiente, para uma boa quantidade de pássaros. É verdade que essa sombra só favorece atualmente os carros que usam a praça como estacionamento privilegiado, e que a praça precisa de uma urgente intervenção. Mas seria demais pedir ou exigir que o projeto fosse conhecido antecipadamente pela comunidade usuária – nós, cidadãos e cidadãs? Quem sabe, poderia até ser alvo de uma consulta pública, e o melhor é que pudessem ser utilizados todos os meios possíveis de auscultar a sociedade – o presencial e o virtual onde pudessem aflorar as sugestões e, também, todos pudessem saber o que pretendem os projetistas. Há, aliás, entre as metodologias científicas de intervenção em áreas históricas aquelas que se utilizam de pesquisa junto à população usuária, como forma de obter o projeto e a forma final mais próxima aos anseios do cliente.

O meu medo maior, Rubens, esse eu deixei para o fim: é o de perder aquelas árvores, que dão essa sombra tão importante e agradável para nós humanos, que servem de morada para uma boa quantidade de pássaros e que levaram tanto tempo para chegar a esse ponto – algumas gerações! É que está virando moda derrubar árvores em áreas e órgãos públicos nesta cidade, sem avisar, nem pedir licença previamente a ninguém, pois até a Prefeitura tem praticado essa política, mesmo que não exista necessidade dessa ação drástica. Basta citar aquela árvore (ou árvores) que existia (m) no lugar da antiga Barraca do Pau Mole, em Tambaú, e que veio (vieram) abaixo para dar lugar a um pedaço do mercado de peixe.

 Será que não dava para deslocar nenhum pouco o mercado (ou quem sabe diminuí-lo um pouquinho só), no projeto, para preservar a morada de tantos pássaros e a imensa sombra que aquela árvore dava? Afinal, se ela também levou gerações para chegar onde chegou - antes do Hotel Tambaú ela provavelmente já estava lá, ao lado do extinto coqueiral, merecendo melhor sorte nos dias de hoje, nem que fosse ser substituída por outras plantadas previamente. Para agravar meu medo, Rubens, no caso da Praça Rio Branco, o órgão que está atuando em parceria com a Prefeitura é o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional! E nem no IPHAN eu posso confiar, em vista de experiências anteriores, das quais vou citar apenas uma que me toca mais de perto, das quais vou citar apenas uma que me toca mais de perto, como cidadão e como arquiteto.

Entre abril e maio de 2008, a vegetação que havia por trás da murada do adro da Igreja de São Francisco – tombada como Patrimônio Nacional, do lado esquerdo, composta de dois jambeiros, um coqueiro de grande porte e dois coqueiros menores, foi sacrificada, sem quaisquer explicações à comunidade. Será que daqui a pouco vão derrubar também as árvores que ficam por trás da murada direita, e que sofreram uma poda drástica na mesma época? Pela placa que se vê na murada do adro, o IPHAN deve ter autorizado a derrubada das mesmas. Será que o patrimônio natural não pode conviver com o patrimônio cultural edificado? Acredito que há sempre uma maneira de nós – humanos, convivermos com o que nos antecede – a natureza, da qual dependemos. Basta imaginação e criatividade!

Não quero acreditar que estejam pensando em sacrificar também, aquelas árvores da Praça Rio Branco, mas “seguro morreu de velho” e, na dúvida e falta de crédito na ação consciente e transparente dos órgãos públicos, é melhor se precaver, não?

Pediria que, através de sua coluna, você fizesse um apelo para que os promotores da “recuperação” ou “restauração” da Praça Rio Branco tirassem de nós o receio de que poderemos sofrer essa perda, e que apresentem o que pretendem fazer ali, abrindo o debate para ouvir o que a sociedade deseja nesse espaço público que lhe pertence e que, brevemente, deverá lhe ser devolvido. Se a Prefeitura não quer promover mais concursos públicos para isso, como deveria – a exemplo daquele que foi feito para a Bica (Parque Arruda Câmara), que, pelo menos abra o debate público.

Faço meu – e sei que de muitos outros – o seu apelo, Doutor. E, aos leitores, informo ainda que a supressão das árvores da paisagem do adro do São Francisco está registrada em fotografias por Hugo Peregrino, fotos que ele mandou junto com o texto.

Ivaldo Gomes
  • Professor, com formação em Educação Física. Especialista em Educação Popular pelo PPGE-UFPB. Militante no campo da educação, meio ambiente e cultura.
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