Pululam no país os escândalos cometidos por gestores públicos,
acumpliciados por ‘empresários’ da iniciativa privada. O objetivo é
sempre o mesmo: lesar o erário que deveria ser público e termina sendo
privatizado por pessoas inescrupulosas e que merecem ser punidas de
forma exemplar. Sob pena da negação do próprio Estado ou da necessidade
de sua existência e por decorrência de suas instituições. O que está em
jogo por aqui é a credibilidade popular em suas instituições, que veem a
muito sendo desmoralizadas com um escândalo atrás do outro. Nem vamos
perder aqui tempo em
listá-los, pois com certeza não temos espaço suficiente em uma única
crônica. Daí essa segunda crônica abordando o cinismo como essas e
outras questões estão sendo tratadas por aqui. E este - o cinismo - é
tão eloqüente que já se ouve a surrada desculpa: mas FHC e Lula fizeram
à mesma coisa! E o Eduardo Azeredo também, agora o Arruda e por ai vai à
lista interminável de aproveitadores do erário público.
O que mais me preocupa em tudo isso não é apenas a dilapidação dos
recursos do erário, mas a impunidade que sempre acomete os praticantes
dessas ações. Eu acho que os bandidos internacionais olham para o Brasil
e no fundo dariam tudo para ter seus ‘negócios’ por aqui. Pois aqui,
além da facilidade de enriquecer rapidamente com todo tipo de falcatruas
e ilícitos possíveis, têm-se a certeza da impunidade como garantia dos
seus mal feitos. Se não é assim, nos aponte quem foi mesmo punido em
todos esses escândalos horrorosos que ilustraram as últimas três
décadas? Quem foi preso, quem devolveu o que roubou ou sanou os
prejuízos causados? Quem? E o mais preocupante ainda (se é que se pode
ter coisa mais preocupante ainda) é o cinismo como tudo isso é ‘aceito’
entre nós. Estou cansado de ouvir discursos do tipo:
‘meu filho, sempre foi assim’... ‘Esse pão e esse circo vêm desde Roma’.
Puxando a brasa pra sardinha da Paraíba, essa semana a Câmara de
‘Vereadores’ de João Pessoa, prestou um desserviço à ética e aos bons
costumes, quando copiando o comportamento irresponsável da Assembléia
Legislativa, resolveu auto se eleger para períodos administrativos que
nem existem ainda. Ou seja, mandou a lógica à merda e ainda teve a
coragem de vir a público e nos dizer, de forma cínica, que ‘o plenário é
soberano’. Só não disse a que interesse ele serve. Uma lástima se
tratando da representação popular da cidade de João Pessoa. Salvo a
honrosa e decente atitude do VEREADOR Geraldo Amorim, que tal um Dom
Quixote disse claro, alto e bom som, que as atitudes tomadas pelos seus
pares era um golpe na democracia e um desrespeito às funções
parlamentares, nas quais não se encontra o direito de fazer armações e
maracutaias. Essa gente não merece nosso voto. Pode ter certeza.
Por outro lado e puxando a sardinha agora pra consciência de todos nós,
esse silêncio ensurdecedor, principalmente dos tais formadores de
opinião, da sociedade e das entidades sociais que a representa nos dá
nos nervos. Pois o cinismo vai tomando conta das relações entre o ente
público, privado e a sociedade. E fica cada vez mais claro o uso
indevido do que deveria ser de fato público. E esse cinismo estabelecido
como pacto de silêncio e aceitação velada desse nível de corrupção
instalado em vários poderes da nação, vai corroendo suas entranhas e
construindo um mundo onde as pessoas ficam cada vez mais apáticas e
descrentes em soluções que venham ao encontro das necessidades e dos
anseios reais da nossa população. Não sei mesmo aonde todo esse cinismo
vai nos levar. É preciso que se reaja a isso e se diga que não
concordamos com isso e que isso precisa mudar de uma vez por todas.
Precisamos construir controles sociais que nos garantam tanto o controle
de quem elegemos quanto a aplicação proba, honesta, ética, dos nossos
impostos. Volto a afirmar que se faz necessário, imprescindível, uma
discussão da e na sociedade, para criar de vez esses mecanismos de
controle. Pois da maneira que se encontra – e com todos os mecanismos já
existentes – está mais do que provado que não temos o menor controle
sobre esses eleitos que estão ai. E quanto aos nossos impostos, temos
apenas a obrigação de pagá-los. E cada vez mais. Mas não temos o menor
controle de como são aplicados e em que prioridades. Do jeito que está -
sem controle dos eleitos e nem da aplicação dos nossos impostos - é a
mesma coisa que passar manteiga em venta de gato. É só lamber o erário
que deveria ser público. De minha parte, sem controle, não tem mais meu
voto e nem meu apoio. Pois não vou engolir esse cinismo que tentam nos
impor de que
‘é assim e assim sempre
será’.