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O discurso da razão cínica II

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 04/12/2009
Pululam no país os escândalos cometidos por gestores públicos, acumpliciados por ‘empresários’ da iniciativa privada. O objetivo é sempre o mesmo: lesar o erário que deveria ser público e termina sendo privatizado por pessoas inescrupulosas e que merecem ser punidas de forma exemplar. Sob pena da negação do próprio Estado ou da necessidade de sua existência e por decorrência de suas instituições. O que está em jogo por aqui é a credibilidade popular em suas instituições, que veem a muito sendo desmoralizadas com um escândalo atrás do outro. Nem vamos perder aqui tempo em listá-los, pois com certeza não temos espaço suficiente em uma única crônica. Daí essa segunda crônica abordando o cinismo como essas e outras questões estão sendo tratadas por aqui. E este - o cinismo - é tão eloqüente que já se ouve a surrada desculpa: mas FHC e Lula fizeram à mesma coisa! E o Eduardo Azeredo também, agora o Arruda e por ai vai à lista interminável de aproveitadores do erário público.

O que mais me preocupa em tudo isso não é apenas a dilapidação dos recursos do erário, mas a impunidade que sempre acomete os praticantes dessas ações. Eu acho que os bandidos internacionais olham para o Brasil e no fundo dariam tudo para ter seus ‘negócios’ por aqui. Pois aqui, além da facilidade de enriquecer rapidamente com todo tipo de falcatruas e ilícitos possíveis, têm-se a certeza da impunidade como garantia dos seus mal feitos. Se não é assim, nos aponte quem foi mesmo punido em todos esses escândalos horrorosos que ilustraram as últimas três décadas? Quem foi preso, quem devolveu o que roubou ou sanou os prejuízos causados? Quem? E o mais preocupante ainda (se é que se pode ter coisa mais preocupante ainda) é o cinismo como tudo isso é ‘aceito’ entre nós. Estou cansado de ouvir discursos do tipo: ‘meu filho, sempre foi assim’... ‘Esse pão e esse circo vêm desde Roma’.

Puxando a brasa pra sardinha da Paraíba, essa semana a Câmara de ‘Vereadores’ de João Pessoa, prestou um desserviço à ética e aos bons costumes, quando copiando o comportamento irresponsável da Assembléia Legislativa, resolveu auto se eleger para períodos administrativos que nem existem ainda. Ou seja, mandou a lógica à merda e ainda teve a coragem de vir a público e nos dizer, de forma cínica, que ‘o plenário é soberano’. Só não disse a que interesse ele serve. Uma lástima se tratando da representação popular da cidade de João Pessoa. Salvo a honrosa e decente atitude do VEREADOR Geraldo Amorim, que tal um Dom Quixote disse claro, alto e bom som, que as atitudes tomadas pelos seus pares era um golpe na democracia e um desrespeito às funções parlamentares, nas quais não se encontra o direito de fazer armações e maracutaias. Essa gente não merece nosso voto. Pode ter certeza.

Por outro lado e puxando a sardinha agora pra consciência de todos nós, esse silêncio ensurdecedor, principalmente dos tais formadores de opinião, da sociedade e das entidades sociais que a representa nos dá nos nervos. Pois o cinismo vai tomando conta das relações entre o ente público, privado e a sociedade. E fica cada vez mais claro o uso indevido do que deveria ser de fato público. E esse cinismo estabelecido como pacto de silêncio e aceitação velada desse nível de corrupção instalado em vários poderes da nação, vai corroendo suas entranhas e construindo um mundo onde as pessoas ficam cada vez mais apáticas e descrentes em soluções que venham ao encontro das necessidades e dos anseios reais da nossa população. Não sei mesmo aonde todo esse cinismo vai nos levar. É preciso que se reaja a isso e se diga que não concordamos com isso e que isso precisa mudar de uma vez por todas.

Precisamos construir controles sociais que nos garantam tanto o controle de quem elegemos quanto a aplicação proba, honesta, ética, dos nossos impostos. Volto a afirmar que se faz necessário, imprescindível, uma discussão da e na sociedade, para criar de vez esses mecanismos de controle. Pois da maneira que se encontra – e com todos os mecanismos já existentes – está mais do que provado que não temos o menor controle sobre esses eleitos que estão ai. E quanto aos nossos impostos, temos apenas a obrigação de pagá-los. E cada vez mais. Mas não temos o menor controle de como são aplicados e em que prioridades. Do jeito que está - sem controle dos eleitos e nem da aplicação dos nossos impostos - é a mesma coisa que passar manteiga em venta de gato. É só lamber o erário que deveria ser público. De minha parte, sem controle, não tem mais meu voto e nem meu apoio. Pois não vou engolir esse cinismo que tentam nos impor de que ‘é assim e assim sempre será’.
Ivaldo Gomes
  • Professor, com formação em Educação Física. Especialista em Educação Popular pelo PPGE-UFPB. Militante no campo da educação, meio ambiente e cultura.
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