portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 22/10/2009
Fui ontem a noite ver mais uma vez a continuadíssima
sequência de eventos do SESC-PB, na coordenação inteligente de Chico
Noronha e equipe. Fui eu e Ana Maria vê o espetáculo - o nome é esse mesmo
– espetáculo, dado pelo decano do teatro paraibano Fernando Teixeira. A
qualidade que mais admiro em Fernando Teixeira, afora o excelente diretor,
autor, ator dos mais convincentes, é a sua humildade depois de cinqüenta
anos de batente. Diz o ditado que os sábios são simples e mansos de
coração. E ontem por diversas vezes tive que engolir o choro, pois as
lágrimas teimavam em cair, entre o discurso do urubu Arquimedes e a ação
desesperada do ex-guerrilheiro Manuel, num cenário das misérias humanas.
Tão bem representada na interpretação impecável que Fernando Teixeira dá
ao ‘seu’ urubu entrando numa esparrela.
Ver Fernando Teixeira atuando no palco com aquele vigor, é uma aula que
nenhum ator em começo de carreira, ou já em carreira, não pode deixar de
ver. É um exercício obrigatório de um mestre em ação. Daí a significante
humildade em dar-se daquela forma, mesmo depois de já ter vivido todas as
glórias e tristezas em cinqüenta anos de trabalhos ininterruptos e de uma
qualidade indiscutível. Fernando Teixeira é um dos nomes - sem sombra de
dúvidas - do que o teatro paraibano conseguiu produzir de melhor em todos
os tempos. E ontem eu compreendi mais uma quadra do meu quebra cabeça
Fernando Teixeira que monto desde 1976 pra cá. Já vi muita coisa sua.
Lembro do melhor espetáculo que já assisti, em montagem de sua direção, do
Auto da Compadecida – de Ariano Suassuna – no Theatro Santa Roza. E olhe
que eu já andava acostumado com esse teatro popular, pois vi Vital Santos
- diretor de Teatro em Caruaru - PE – deitar e rolar nessa temática.
Ainda bem que quem caiu na esparrela foi o urubu Arquimedes. Uma espécie
de alter-ego de todos nós, com suas estratégias de sobrevivência mesmo
sendo um simples urubu em apuros. Fernando Teixeira em seu monólogo, com
sua interpretação e direção irreparável, faz do urubu Arquimedes um
arremedo de verdades e contradições, onde a disputa pela liberdade e a
certeza do exercício dela, traz lucidez ao desespero humano. Que mordido
na jugular, traído pelo veneno da cobra pestilenta e mesmo depois de
morto, Manuel serve de alento pra liberdade que Arquimedes sempre soube
que tinha. Eu sei caro leitor, você não deve esta entendendo nada. Mas eu
explico: Arquimedes é um urubu que foi aprisionado por Manuel - um
ex-guerrilheiro do Araguaia – que força-o a dançar em cima de uma lata
quente, de feira em feira, de cidade em cidade, para que ambos possam
viver a vida.
Mas acontece – dentre todas as tragédias contadas ali – uma em que Manuel
é mordido por uma cobra no pescoço e agoniza com urubu Arquimedes preso em
sua perna. E o instinto de liberdade que habita todos nós, faz Arquimedes
esperar pacientemente, a putrefação de Manuel para que ele enfim volte a
ser um simples urubu, que sabe agora que pode fazer outras coisas alem de
comer apenas carniça. E isso Fernando Teixeira faz você acreditar o tempo
todo que o urubu Arquimedes baixou no palco. E ai companheiro,
companheira, prepare seu coração, pras coisas que vai ver e ouvir. Pois o
texto inteligente, instigante, elétrico, vai fazer o resto. Confesso-lhes
que ainda estou com a respiração diminuída. Pego-me respirando fundo,
buscando ar no meio de tanta emoção. Se você não assistir esse monólogo,
lamento muito. Mas você está perdendo um dos melhores momentos do teatro
paraibano. Que continua excelente, mas precisa intervir mais na vida e na
rua das pessoas, como faz Fernando Teixeira.
Dom Fernando Teixeira de La Mancha! Meu muito obrigado por tudo que você
já fez, faz e fará. A Paraíba lhe reverencia. O teatro lhe agradece. O
mundo fica melhor.