portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 14/07/2009
Sigo acompanhando chocado todos os fatos decorrentes do fato
de pessoas em estado de loucura terminar por assassinar sete pessoas. João
Pessoa semana passada foi palco de uma chacina que foi notícia no país
inteiro. Mas uma. E essa tem todos os componentes de grandes tragédias.
Pessoa simples, humildes, sem formação escolar qualificada, sem as mesmas
oportunidades sócio-econômicas, de periferia de cidade, ocultos aos olhos
das autoridades constituídas e de suas pesquisas ditas sociais. Talvez o
IBGE os tenha encontrado, mas ou muito pouco adiantou para lhe garantir
uma condição mais digna de ser um cidadão em plenos direitos e usufruto
deles. Cercados por ignorância e injustiças, um dia a pressão é tanta e
tantos são os casos no dia a dia que a panela explode. Reações
inexplicáveis acontecem e choca o padrão realmente aceito da preservação
da vida.
Os argumentos para a tragédia social que ali aconteceu são muitas.
Inclusive que uma galinha mal dividida e a arenga de meninos vizinhos
tinham alimentado a animosidade entre o grupo de vizinhos. O que se sabe
até agora é que um casal vizinho resolveu matar todos da outra família de
uma vez na faca e no facão. E fez o que haviam combinado. O que a mente
humana é capaz de fazer a gente já viu em Alchimists, Nagazake, Vietnã,
Iraque. Tudo é possível de ficar pior. A mente humana é ilimitada tanto
para o bem quanto para o mal. Talvez o que divise o bem e o mal seja o
grau de educação que cada um possui. E olhe, não estou a falar de qualquer
educação. Estou a falar da verdadeira educação que educa para a
solidariedade, para a compreensão, para o respeito. Para a convivência
social saudável. Pois faltou esse tipo de educação naqueles vizinhos. Foi
e quantos ainda serão tragados por tragédias que a falta de educação, a
falta de formação humanitária do convívio e do respeito social poderá nos
trazer?
Agora fica fácil julgar o ocorrido. Temos um casal de criminosos a ser
julgado e condenado. Mas o caso não está encerrado. Pois pode acontecer de
novo, com outros casais e outros vizinhos. Os apresentadores Datena,
Ratinho, Leão e outros papa-desgraça trarão logo mais na sua sala, quarto,
escritório, jardim, os crimes mais hediondos que estão acontecendo ao vivo
e a cores. Com possibilidades de golfadas de sangue e humilhações. Mesmo
ai, ainda falta muita educação. E vai continuar faltando, pois os governos
mentem calorosamente para a população dizendo que cuida da educação dela.
Basta ver as prestações de contas em que o Tribunal de Contas – com seus
conselheiros sendo nomeados por pessoas que têm contas a serem julgadas
por esses mesmos nomeados – aprovam suas contas e nos diz que tudo anda
bem, mas falta dinheiro. E eu acrescentaria: vergonha também.
Outra coisa que me chocou também foi o oportunismo de alguns em partir
para se cometer mais crimes. Destruindo casas, torturando os criminosos e
agora até as igrejas disputam um ‘memorial’ a ser erguido no local da
tragédia. Vai virar um ‘monumento’ a exploração da fé religiosa e logo
logo vão aparecer os milagres feitos, principalmente pelas crianças
assassinadas de forma vil. Se querem mesmo fazer alguma coisa séria e de
verdade que tal começar a melhorar as escolas públicas na periferia da
cidade? De todas as cidades? Mas escola de verdade, dessas que os 25% da
educação – se fosse aplicado de verdade – criaria. E não esses arremedos
de escola que temos por aqui. Falar em melhorar o salário e a capacitação
dos professores seria até cabotino de minha parte. Mesmo já ganhando um
salário indecente para trinta anos de serviços já prestados.
Faltou educação naquelas pessoas. Faltou o desenvolvimento de uma ética,
de uma filosofia de vida, de um modo de compreender a vida, que jamais os
levasse a esse beco sem saída da ignorância e violência. Se você observar
bem direitinho, toda raiz da violência está calcada na ignorância. Da
ignorância vem o preconceito – por falta de compreensão -, se estabelece o
egoísmo – por falta de doação – e se efetiva a miséria – por falta de
igualdade e oportunidade. Está montada a síndrome da miséria da violência.
Daí os gestos mesquinhos, traiçoeiros, premeditados, oportunistas. E cadê
a educação para corrigir isso? Pois isso só se forma na ausência dela. Da
educação. Portanto, faltou educação e sobrou violência para todos os
lados. Há dias que convivemos com a chacina dentro da casa de cada um.
E vamos fazer o quê? Construir mais presídios, comprar mais carros de
polícia, contratar mais filhos do povo para bater no povo, armá-los para
também contribuir com mais mortes no meio do povo? De bandidos a
inocentes? Morrem todos. Ou vamos mais uma vez deixar passar a
oportunidade da tragédia para refletir de que jeito mesmo queremos essa
sociedade e de como se educa pra vida, pra paz, pra prosperidade? Uma
educação que leve as pessoas ao desenvolvimento de suas capacidades
técnicas e artísticas. Críticas por natureza, onde possa saber sempre em
que lado ético ficar de cada situação. Onde a educação para a cooperação
(não a cooptação), educação para o empreendedorismo (não ao
assistencialismo), educação para a solidariedade (não ao individualismo),
seja de fato um entendimento para se manter e se estabelecer uma
convivência pacífica e de paz. Com justiça social em resposta as
injustiças de hoje (aqui o maior problema a ser encarado). A ignorância –
geradora de toda miséria – precisa ser extirpada do nosso meio social. Mas
ai caímos no sistema que adotamos até agora. Ta vendo como precisamos
mudar as coisas por aqui?