Caros educadores,
Venho por meio desta, solidarizar-me com sua luta e dedicação, nessa hora
de poucos amigos e muitas ameaças. Como se já não bastassem às ameaças que
temos que suportar pela falta de condições adequadas para podermos
desenvolver uma educação pública de qualidade. Invoco um dos meus
educadores prediletos, Paulo Freire, que afirmava: "... vivo a História
como tempo de possibilidade e não de determinação." Por isso caros
educadores, nada temos a temer, a não ser o próprio medo. A história
sempre esteve do nosso lado. Aliás, tudo que sabemos de história foi
repassado por nós educadores.
Gostaria que vocês recebessem essa cartinha como quem recebe uma notícia
de um amigo. Amigo de profissão, de fé, camarada. Desses que a gente conta
quando mais não se espera ajuda de ninguém. Desses que não deixa a gente
se desesperar e está ali pra dá algum tipo de ajuda. Mas falo também como
pai, que possui filhos sobre os seus cuidados. E jamais poderia
faltar-lhes com minha solidariedade cidadã a cidadãos que educam os
outros. Principalmente nossos filhos. Um dia, caros educadores, vão nos
reconhecer a importância. Pois nesse dia teremos vencido a ignorância, a
soberba e a indiferença. Nenhuma nação merece ter essa denominação sem
enaltecer seus educadores. Não com discursos, mas com respeito e
reconhecimento efetivo.
Não precisamos de esmolas. Precisamos de justiça. E não dessa ‘justiça’
que só vê um lado, interesses de poucos em detrimento de muitos.
Precisamos de justiça de verdade. Dessas que sabe que sem educadores não
seremos mais que bandos de seres de alguma forma disputando carniça. O
mundo foi construído de fato e de direito por educadores. Existimos desde
que alguém serviu de exemplo para outro alguém. Por isso exigimos
respeito. Justiça a quem faz justiça educando as pessoas. E em que
condições caros educadores? Sob ameaças de corte de ponto? De giz nos
pulmões e água pra molhar a boca? E agora, até sem direito a compartilhar
da mesa escolar, com a merenda sendo jogada no lixo. Nem que as contas
atrasem a gente larga a sala de aula da vida.
Educadores é o que somos. Nada mais sabemos fazer. Por tanto, está na hora
da sociedade saber também respeitar seus educadores. Pois sem eles, ela
com certeza não sobreviverá ao caos dos deseducados do futuro. Essa é a
hora de afirmar a educação. De todos os educadores - de todos os níveis -
unirem-se. Estabeleçamos o marco, o ponto de apoio que Arquimedes afirmou
que moveria o mundo. Vamos pras ruas educar o povo. Já que os governos não
nos querem nas salas de aula, façamos da rua a nossa escola. Eduquemos o
povo pras mudanças que haverão de vir. Pois como cantava o poeta Quintana:
‘Eles passarão, nós passarinho’.
Onde estará por essas horas a OAB? ABI? As ADUFs de todas as academias? Os
outros todos educadores? Os outros todos sindicatos? Onde estão? Os
estudantes, suas entidades, seus pais? A comunidade escolar por onde anda
na Paraíba que não reage a tanta humilhação? Pois pagar salário mínimo a
educadores é uma humilhação. Um desrespeito ao conhecimento, à formação, a
qualificação, ao estudo, a dedicação, enfim a cidadania dos educadores. E
não me venham com justificativas furadas, desonestas, de que não se pode
pagar mais. Mas, pode-se pagar toda essa corrupção que se faz em nome do
povo? Que tipo de escândalo querem que listemos aqui? Quais os escândalos
do dia hoje?
Torço, rogo, exijo da consciência cidadã de todos da comunidade uma
posição sobre tudo isso. Sob pena de cada vez mais o nível da nossa
educação servir apenas para ilustrar os péssimos índices de desempenho nas
pesquisas nacionais, que nos diz o tempo todo: precisamos investir em
educação. Formação. Capacitação para mudar o nosso destino. E isso passa
necessariamente pelas escolas e pela mão dos educadores. E isso, a
sociedade, nós os eleitores, contribuintes, temos que EXIGIR dos poderes
que deveriam servir ao público e não a interesses privados. Pois quando
você usa o governo para ser candidato a isso e aquilo você está
privatizando o que é público.
Educadores, não aceitem 10%. Com todo o respeito que temos aos garçons.
Vocês são educadores e como educadores devem ser tratados. E se a
sociedade souber honrar o trabalho de vocês, estará nas ruas, nas casas,
nos bate-papos do dia a dia, cobrando uma postura decente de quem não sabe
respeitá-los. Isso é o mínimo que um cidadão consciente de suas
responsabilidades sociais poderia fazer nesse instante. Por tanto, todo
apoio deve ser dado à greve dos educadores da rede municipal de ensino de
João Pessoa. Por respeito, por carinho, por reconhecimento da importância
do seu trabalho social.
Um abraço forte e conte com a gente.
Ivaldo Gomes, Ana Maria e filhos.
