A história da merenda escolar no Brasil a gente conhece.
Sabe como tudo aconteceu nos últimos trinta anos. Vimos à antiga FAE sair
da centralização para uma gestão municipalizada e posteriormente
escolarizada. Onde os recursos da merenda são depositados numa conta do
Conselho Escolar e ele, soberanamente na comunidade escolar - de forma
participativa - define as compras, cardápio, preparação etc. Aqui em João
Pessoa estamos voltando aos tempos da centralização do início da FAE.
Estão trocando um sistema participativo por um centralizado na mão de
empresários. Que visa lucro. O atendimento será feito dependendo do lucro.
Mesmo que se fiscalize, se cobre, mostre e denuncie que o sistema de
centralização não funciona a PMJP optou por isso. Daí que a PMJP vai ter
que explicar a população da cidade o porquê dessa opção.
Essa semana que passou participei de reuniões para a escolha de
representantes de pais e entidades da sociedade civil para compor a
renovação do Conselho de Acompanhamento e Fiscalização da aplicação dos
Recursos da Merenda Escolar (apenas da parte federal). Este dito Conselho
– que se pretender ser um controle social – possui sete membros: dois
professores, dois país, um de entidade da sociedade civil organizada, um
da PMJP e outro da Câmara de Vereadores. A função desse conselho é
fiscalizar o cumprimento da tarefa de distribuir merenda para todos os
alunos que frequentam as 91 escolas municipais. Ninguém recebe nada por
participar dele. É um trabalho voluntário e se precisar de ajuda, a PMJP
dá uns vales transportes para que o ‘conselheiro’ possa se deslocar de sua
casa. Na prática é trabalhar para o aparelho do Estado de forma graciosa.
O discurso é que é em ‘nome da cidadania’.
Na Escola Municipal Lions Tambaú – onde tenho três filhos matriculados – o
Conselho Escolar me designou para representar a comunidade escolar nessas
reuniões. Que a princípio fui informado que seria para discutir sobre
Merenda Escolar. Quando lá chegamos descobrimos que era apenas para eleger
os conselheiros pais e da sociedade civil. Na primeira reunião apareceram
quatro pais devidamente oficializados pela escola em documento legal. Daí
que fazer uma eleição no meio de uma diminuta representação dessas, nos
posicionamos contra a eleição naquele momento. Foi marcada uma outra
eleição e nova mobilização nas escolas. Apareceram doze pais legalmente
habilitados. Dos doze seis se inscreveram e os outros escolheram os
futuros ‘conselheiros’ do Conselho da Merenda Escolar. Abstive-me de votar
pelo fato de não reconhecer naquela reunião, número e representatividade
suficiente para essa escolha. Doze pais são insuficientes para decidir por
91 escolas.
Não fui candidato e nem seria. Acho que a discussão da Merenda Escolar não
dá para ser feita com a PMJP sem a presença mediadora do Ministério
Público. Escolher um Conselho de Merenda Escolar – como tantos outros de
controle social – apenas para referendar o que a PMJP está fazendo não é o
caso e nem o papel dele. Mas na prática é o que acontece. O Conselho é uma
exigência do Governo Federal para dá mais transparência a esse processo de
acompanhamento dos recursos públicos. O prefeito de João Pessoa gosta de
usar do discurso da transparência, mas na prática a história é bem outra.
O caso da mudança do sistema de distribuição da merenda escolar sem
consultar a comunidade escolar é um fato inegável. NUNCA, como pai de
aluno da escola municipal, fui convidado para discutir sobre essa questão
na escola em que meus filhos estudam ou no bairro em que moro.
Portanto, não adianta ter um Conselho de Acompanhamento da Merenda Escolar
formal, mas sem o controle da real decisão e da definição da política
pública - merenda escolar – discutida e aprovada na mesa do Conselho ou
nos Conselhos Escolares. Imagine que a PMJP teve a coragem de fazer uma
licitação para contratar uma empresa de São Paulo (gerando empregos em São
Paulo e com uma lista imensa de processos e denúncias) para distribuir
merenda escolar em João Pessoa. Todo o aparato que existia funcionando
aqui foi desconsiderado e até todo o treinamento e capacitação de centenas
de pessoas para a preparação e os serviços dessa distribuição de merenda
ficou de fora. Não possuem mais utilidade dentro da escola. Se coloque no
lugar dessas pessoas. E perceba que tem algo de errado nessa estratégia da
prefeitura. O que está por traz disso é que a prefeitura precisa
esclarecer. Que jogo é esse seu prefeito? Porque abrir mão de servir
merenda para toda a escola (alunos, professores e funcionários) ao preço
de R$ 0,22 centavos a refeição, e optar por diminuir o atendimento apenas
para os alunos ao preço de R$ 1,25 centavos a refeição? Quero explicações
como cidadão e usuário do sistema de educação pública. A qual tenho
direito garantido na Constituição Federal.
É mas do que evidente que a discussão sobre Merenda Escolar não aconteceu
nas duas reuniões que participei representando a escola e a comunidade
escolar. Uma merendeira que estava presente – achando como eu que a gente
tinha sido convidado para discutir sobre as mudanças na merenda escolar –
aproveitou e perguntou como iria ficar a situação dela. Que tinha mais de
quinze anos como merendeira, que tinha feito toda uma formação e que os
alunos dela gostavam da merenda que ela fazia (e que podiam perguntar isso
na escola) e agora o que vai acontecer comigo?
A resposta veio em forma de pergunta: O quê está escrito na sua portaria?
Auxiliar de serviço? Logo você vai para função que a portaria determina.
Mas e a discussão sobre a merenda? Não. Não tem discussão aqui. Aqui é
apenas pra eleger os delegados, digo conselheiros, para legitimar todo
esse processo.
Eu discordo dele e vou ficar acompanhando essa discussão. Como cidadão.
Daí que vou sugerir a todos os Conselhos Escolares das escolas municipais
que procurem o Ministério Público pra contar o que está de fato
acontecendo e pedir a sua interveniência para estabelecer um diálogo
transparente com a PMJP. Pois da forma que as coisas vêm caminhando, o
discurso pode ser de ‘mudança, transparência, probidade administrativa’,
etc. e tal, mas na prática o resultado tem sido bem outro. A insatisfação
é grande e vamos procurar o direito que dizem que temos. O que não dá é
pra engolir calado tudo isso e ver pessoas - vidas, carreiras, funções -
serem desrespeitadas com o argumento de ‘que agora vai ser assim e
pronto’. Pois sou de um tempo em que lutávamos por mais democracia. E nos
parece que estamos diante de um caso que precisa ser mais democrático. Até
na forma de fazer essas coisas.
