Faço o registro pelo desaforo que somos submetidos. Só
por isso. Pois não acredito mais que isso tenha jeito de verdade. Vai ser
sempre assim. Melhorzinho, mas ineficiente. Irresponsavelmente explicado e
indesculpavelmente justificado. Esse tem sido o lema do atendimento
público no país. Atendimento esse caro – é só olhar pros impostos que
pagamos – e de retornos discutíveis. Mais uma vez cai no conto do vigário
do Sistema de Saúde Brasileiro. Sim, brasileiro. Pois todo o sistema de
saúde hoje é integrado. Tudo é da responsabilidade dos governos. Seja ele
federal, estadual ou municipal. Não existe hoje serviço de saúde sem essa
integração. Todo mundo fala mal do SUS (eu mesmo, pois coleciono uma
extensa e longa lista de descasos com minha família e amigos), mas a
verdade é que ninguém quer dispensá-lo. Pelo menos do ponto de vista do
acesso aos seus recursos. Pois os serviços de saúde que não usam o SUS,
são pra ricos. Não precisa dele. Ofereço esse artigo às autoridades
competentes. Que não se utilizam do SUS. A não ser para gerenciar suas
verbas.
Mas veja fomos hoje (12/02/2009) pela manhã ao CAME de Jaguaribe
(um complexo de atendimento ambulatorial em João Pessoa, apinhado de
gente, trazidas de tudo quanto é canto desse Estado e com alguns cachorros
perambulando por seus corredores). Chegamos cedo. Na marcação da consulta
13.0382.5275, para um dos meus filhos está escrito: 7.00 horas. Sai de lá
as 8.40 h e o médico ainda não tinha nem chegado. Todos se olham apinhados
numa sala, algumas cadeiras, um televisor baixinho que ninguém presta
atenção. Caras de doentes, todos cabisbaixos. Alguns ainda conseguem
reclamar entre si. Nada mais que isso. Só espera e lamentação. Para não me
irritar mais com o ambiente resolvi ir ler o jornal em umas cadeiras que
observei vagas na entrada do ambulatório. Minha esposa ficou com o filho
que ia ser atendido e eu fui procurar um ambiente menos poluído pela
aglomeração. Precisava respirar. Desanuviar os pensamentos.
Foi só sentar na cadeira, abrir o jornal e chega o primeiro cachorro. Ele
passou pela portaria, pelos guardas municipais, achegou-se perto da minha
cadeira e começou a se coçar. Meu outro filho sentado ao lado, ouvindo
música no seu MP3, sentenciou: pulga! Virei-me de lado e mergulhei no
jornal. 7.30 h e nada de atendimento. Os meninos ainda tinham horário de
trabalho escolar pra fazer. Mas vamos aguardar mais um pouco, pensei com
meus botões. Às 08 h, já impaciente liguei pra Ana Maria: e ai, o médico
chegou? Não chegou e nem avisou do seu atraso. Perguntei pelos mais de
trinta pessoas – àquela hora – esperando pelo médico. Ela disse: estão
aqui com caras de resignados. Todos com raiva. Mas calados. Voltei pro meu
jornal. O outro filho ouvia música e lia a programação cultural da cidade.
Foi quando passou o outro cachorro de rabinho abanando. Esse de cor escura
e vira lata. Diferente do pulguento ao meu lado, de cor branca, com alguma
raça mais definida. O vira lata passou com passos seguros, pela portaria,
pelos guardas municipais e foi caminhando até o final do corredor, dobrou
a direita e sumiu.
Mergulhei no jornal de novo e nas ‘notícias’ do Jornal Correio da Paraíba
(que por sinal continua tendencioso como sempre). De repente volta o
cachorro pelo corredor, agora comendo alguma coisa. Era um pedaço de
sanduíche. Descobri mais tarde que ele tinha ido à cantina ou algum lugar
onde se prepara alimentação, café, essas coisas, no final do corredor. Mas
a desenvoltura do cachorro passeando pelo corredor do Came de Jaguaribe
era uma cena perfeita para um filme, desses de curta metragem, cujo título
poderia ser muito bem: A saúde pública na Paraíba é casa de cachorro. São
ambientes sujos, fedorentos, mal cuidados, onde a dor alheia passeia em
público e pouco alento traz de volta pra casa. Vi hoje, por mais de uma
hora e meia, como os cidadãos (alô Ministério Público!) são tratados por
aqui. De novo! Daí que disse e reafirmo: cai no conto do vigário de novo.
Acreditei que poderia ser atendido. E não fui. Mas a culpa deve ser minha.
Da minha impaciência.
Só pra lembrar mais ainda e deixar registrado. Pois um dia alguém vai ler
esse artigo, em algum tempo e vai tomar conhecimento desse fato. Pode até
ser isolado. Mas faz parte desse contexto. E pelo que vi hoje pela manhã
nos corredores do CAME de Jaguaribe, o povo sofre muito. Mas isso
não deve ser coisa importante. Pois os reais dirigentes por essa situação,
TODOS possuem outro tipo de atendimento em saúde. Não é pelo SUSplício que
obrigam a ‘nosotros’. E olhe que essa consulta foi solicitada há meses. Lá
no CAIS de Mangabeira (nomes interessantes não?). E hoje isso. Não
tinha médico no horário combinado. Eu cheguei às 07 h. Sai de lá já era
8.40 da manhã. E como não sou vagabundo, tenho o que fazer, inclusive para
manter meus filhos longe da marginalidade dos dias de hoje, posso e devo
ser tratado assim. Sabe por quê? Porque só sei fazer um artigo pra dizer
tudo isso. E parece que isso é muito pouco nos dias de hoje. Pois agorinha
mesmo isso vai continuar acontecendo por esse país a fora e fica tudo por
isso mesmo.
Poderia passar o dia aqui contando essas mazelas e esses descasos na
saúde, na escola pública, na segurança, etc. e etc. Poderia até dá o nome
do médico, comprometê-lo publicamente. Fazer uma denúncia por escrito na
‘ouvidoria’ da saúde. Ou mesmo ir ao Ministério Público reclamar. Mas não
vou mais. Já fui muitas vezes. Hoje eu cansei de pedir mudanças pra essas
coisas. Sabe o que eu vou fazer mesmo? Vou procurar alimentar minha
família da forma mais correta possível pra que ela não precise do sistema
de saúde daqui. Pra que ela não adoeça. Pois se precisar, vai ter que
passar por humilhações como essa e tantas outras que eu já passei. Não
estamos aqui (não é Ministério Público?) para ser humilhados por esses
gestores, que inclusive lhes pagamos os salários e que salários! Com
certeza não é o salário de professor do estado, que mesmo que tenha
doutorado e trinta anos de serviços prestados, ganha menos que um soldado
de polícia recém contratado. Não é que o soldado de polícia ganhe mal, mas
o dos professores é vergonhoso. Mas isso também não deve ser importante.
Essas coisas não servem pra sair nos jornais daqui.
Vou tentar arranjar dinheiro e levar o menino no médico particular. Esse
Sistema de Saúde Pública que pagamos com os nossos impostos não pode nos
atender adequadamente. Com o respeito que a nossa cidadania merece. Não
estou mais interessado em denunciar nada disso e nem tão pouco os
responsáveis por isso. Deixemos assim. Assim está bom demais. Claro que
para meia dúzia de seis. Para esses deve estar muito bom. Nada melhor que
um dia após o outro e uma noite no meio para que a gente reflita como as
coisas aqui descambam para o desrespeito, o descaso, a desatenção. Por
parte de quem recebe nossos impostos e nos dá a porta fechada como paga.
Deus lhe pague. Sim, os cachorros eram três. O último entrou no CAME de
Jaguaribe enquanto eu saia indignado. Nem lembro bem sua cor. Mas era
também um vira lata. Assim como nós somos tratados.
