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Não é por nada não...

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 12/02/2009

Faço o registro pelo desaforo que somos submetidos. Só por isso. Pois não acredito mais que isso tenha jeito de verdade. Vai ser sempre assim. Melhorzinho, mas ineficiente. Irresponsavelmente explicado e indesculpavelmente justificado. Esse tem sido o lema do atendimento público no país. Atendimento esse caro – é só olhar pros impostos que pagamos – e de retornos discutíveis. Mais uma vez cai no conto do vigário do Sistema de Saúde Brasileiro. Sim, brasileiro. Pois todo o sistema de saúde hoje é integrado. Tudo é da responsabilidade dos governos. Seja ele federal, estadual ou municipal. Não existe hoje serviço de saúde sem essa integração. Todo mundo fala mal do SUS (eu mesmo, pois coleciono uma extensa e longa lista de descasos com minha família e amigos), mas a verdade é que ninguém quer dispensá-lo. Pelo menos do ponto de vista do acesso aos seus recursos. Pois os serviços de saúde que não usam o SUS, são pra ricos. Não precisa dele. Ofereço esse artigo às autoridades competentes. Que não se utilizam do SUS. A não ser para gerenciar suas verbas.

Mas veja fomos hoje (12/02/2009) pela manhã ao CAME de Jaguaribe (um complexo de atendimento ambulatorial em João Pessoa, apinhado de gente, trazidas de tudo quanto é canto desse Estado e com alguns cachorros perambulando por seus corredores). Chegamos cedo. Na marcação da consulta 13.0382.5275, para um dos meus filhos está escrito: 7.00 horas. Sai de lá as 8.40 h e o médico ainda não tinha nem chegado. Todos se olham apinhados numa sala, algumas cadeiras, um televisor baixinho que ninguém presta atenção. Caras de doentes, todos cabisbaixos. Alguns ainda conseguem reclamar entre si. Nada mais que isso. Só espera e lamentação. Para não me irritar mais com o ambiente resolvi ir ler o jornal em umas cadeiras que observei vagas na entrada do ambulatório. Minha esposa ficou com o filho que ia ser atendido e eu fui procurar um ambiente menos poluído pela aglomeração. Precisava respirar. Desanuviar os pensamentos.

Foi só sentar na cadeira, abrir o jornal e chega o primeiro cachorro. Ele passou pela portaria, pelos guardas municipais, achegou-se perto da minha cadeira e começou a se coçar. Meu outro filho sentado ao lado, ouvindo música no seu MP3, sentenciou: pulga! Virei-me de lado e mergulhei no jornal. 7.30 h e nada de atendimento. Os meninos ainda tinham horário de trabalho escolar pra fazer. Mas vamos aguardar mais um pouco, pensei com meus botões. Às 08 h, já impaciente liguei pra Ana Maria: e ai, o médico chegou? Não chegou e nem avisou do seu atraso. Perguntei pelos mais de trinta pessoas – àquela hora – esperando pelo médico. Ela disse: estão aqui com caras de resignados. Todos com raiva. Mas calados. Voltei pro meu jornal. O outro filho ouvia música e lia a programação cultural da cidade. Foi quando passou o outro cachorro de rabinho abanando. Esse de cor escura e vira lata. Diferente do pulguento ao meu lado, de cor branca, com alguma raça mais definida. O vira lata passou com passos seguros, pela portaria, pelos guardas municipais e foi caminhando até o final do corredor, dobrou a direita e sumiu.

Mergulhei no jornal de novo e nas ‘notícias’ do Jornal Correio da Paraíba (que por sinal continua tendencioso como sempre). De repente volta o cachorro pelo corredor, agora comendo alguma coisa. Era um pedaço de sanduíche. Descobri mais tarde que ele tinha ido à cantina ou algum lugar onde se prepara alimentação, café, essas coisas, no final do corredor. Mas a desenvoltura do cachorro passeando pelo corredor do Came de Jaguaribe era uma cena perfeita para um filme, desses de curta metragem, cujo título poderia ser muito bem: A saúde pública na Paraíba é casa de cachorro. São ambientes sujos, fedorentos, mal cuidados, onde a dor alheia passeia em público e pouco alento traz de volta pra casa. Vi hoje, por mais de uma hora e meia, como os cidadãos (alô Ministério Público!) são tratados por aqui. De novo! Daí que disse e reafirmo: cai no conto do vigário de novo. Acreditei que poderia ser atendido. E não fui. Mas a culpa deve ser minha. Da minha impaciência.

Só pra lembrar mais ainda e deixar registrado. Pois um dia alguém vai ler esse artigo, em algum tempo e vai tomar conhecimento desse fato. Pode até ser isolado. Mas faz parte desse contexto. E pelo que vi hoje pela manhã nos corredores do CAME de Jaguaribe, o povo sofre muito. Mas isso não deve ser coisa importante. Pois os reais dirigentes por essa situação, TODOS possuem outro tipo de atendimento em saúde. Não é pelo SUSplício que obrigam a ‘nosotros’. E olhe que essa consulta foi solicitada há meses. Lá no CAIS de Mangabeira (nomes interessantes não?). E hoje isso. Não tinha médico no horário combinado. Eu cheguei às 07 h. Sai de lá já era 8.40 da manhã. E como não sou vagabundo, tenho o que fazer, inclusive para manter meus filhos longe da marginalidade dos dias de hoje, posso e devo ser tratado assim. Sabe por quê? Porque só sei fazer um artigo pra dizer tudo isso. E parece que isso é muito pouco nos dias de hoje. Pois agorinha mesmo isso vai continuar acontecendo por esse país a fora e fica tudo por isso mesmo.

Poderia passar o dia aqui contando essas mazelas e esses descasos na saúde, na escola pública, na segurança, etc. e etc. Poderia até dá o nome do médico, comprometê-lo publicamente. Fazer uma denúncia por escrito na ‘ouvidoria’ da saúde. Ou mesmo ir ao Ministério Público reclamar. Mas não vou mais. Já fui muitas vezes. Hoje eu cansei de pedir mudanças pra essas coisas. Sabe o que eu vou fazer mesmo? Vou procurar alimentar minha família da forma mais correta possível pra que ela não precise do sistema de saúde daqui. Pra que ela não adoeça. Pois se precisar, vai ter que passar por humilhações como essa e tantas outras que eu já passei. Não estamos aqui (não é Ministério Público?) para ser humilhados por esses gestores, que inclusive lhes pagamos os salários e que salários! Com certeza não é o salário de professor do estado, que mesmo que tenha doutorado e trinta anos de serviços prestados, ganha menos que um soldado de polícia recém contratado. Não é que o soldado de polícia ganhe mal, mas o dos professores é vergonhoso. Mas isso também não deve ser importante. Essas coisas não servem pra sair nos jornais daqui.

Vou tentar arranjar dinheiro e levar o menino no médico particular. Esse Sistema de Saúde Pública que pagamos com os nossos impostos não pode nos atender adequadamente. Com o respeito que a nossa cidadania merece. Não estou mais interessado em denunciar nada disso e nem tão pouco os responsáveis por isso. Deixemos assim. Assim está bom demais. Claro que para meia dúzia de seis. Para esses deve estar muito bom. Nada melhor que um dia após o outro e uma noite no meio para que a gente reflita como as coisas aqui descambam para o desrespeito, o descaso, a desatenção. Por parte de quem recebe nossos impostos e nos dá a porta fechada como paga. Deus lhe pague. Sim, os cachorros eram três. O último entrou no CAME de Jaguaribe enquanto eu saia indignado. Nem lembro bem sua cor. Mas era também um vira lata. Assim como nós somos tratados.

Ivaldo Gomes
  • Professor, com formação em Educação Física. Especialista em Educação Popular pelo PPGE-UFPB. Militante no campo da educação, meio ambiente e cultura.
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