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Ave César!

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 25/09/2008

Não tenho mais saco para discutir esse ‘nive’ de ‘política’ a que chegamos por aqui. Peço que tenha a paciência necessária para ouvir/ler minhas explicações. Afinal de contas sou um cidadão como outro qualquer. Tenho direito e deveres perante a sociedade e de viver em conjunto com tudo isso. E olhe, não sou candidato a nada. Nadinha de nada. Sou insignificante demais para querer ser mais alguma coisa do que já consegui ser. Meus sonhos são por coisas que o dinheiro e a vaidade não podem comprar. Logo estou liberado dessa ‘nóia’ de ser ou aparentar ser quem não sou, principalmente por vias materiais ou de imagens criadas para esses fins. Não almejo sair nas colunas sociais e nem tão pouco pertencer às academias da vida. Basta estar aqui. Pra mim é mais que suficiente.

Mas vejam bem o porquê de não mais querer me envolver, participar, desse jogo que se faz hoje em nome de uma ‘política’ que se traduzida ao pé da letra ficaria mais ou menos assim: a política que se faz hoje no Brasil é um tremendo embuste. É pura enganação. É o espetáculo mais deprimente que já assisti em toda minha vida. Pois o que se faz em nome da ‘política’ de hoje não está no gibi. Começa pela imposição das regras. Ao povo, o direito, o dever, a obrigação de pagar todo tipo de imposto – impostos a ferro e a fogo – e votar obrigatoriamente, naqueles candidatos que se faz chegar aos ouvidos e ao bolso do cidadão. Aqui pagamos tudo e não recebemos nenhuma garantia de que a coisa vai funcionar.

Obrigam-nos a votar de dois em dois anos, em candidatos que sempre dizem que vão mudar o mundo. E quando a gente vê o sujeito/a, encastelado no cargo, o encargo é sempre nosso. Pois lhes pagamos as contas do free shop, do motel, da amante. Participamos de uma eleição atrás da outra, onde o próprio TSE reconhece que somos o ‘patrão’ mas não nos apresenta o comprovante de idoneidade das urnas eletrônicas. Ficamos ao bel prazer de acreditar ou não. Não temos como fiscalizar as eleições. E ainda nos dizem que somos os únicos responsáveis por quem elegemos. E aqui também ficamos sem controle algum.

Um senador sabonete pode ficar lavando as mãos como Pilatos oito longos anos no Senado e nós, os eleitores, o ‘patrão’, teremos a única e imperdível oportunidade de mudá-lo numa próxima eleição. Depois de oito anos? Mas tudo isso é vendido nas escolas, nas ruas, nos meios de comunicação – principalmente pelos comentaristas ‘políticos’ - como a maior demonstração de democracia participativa do mundo. Votamos obrigados, não temos como comprovar a lisura do pleito, não controlamos os eleitos, mas pagamos à conta. Desculpe, mas o desempenho dos eleitos, tanto no executivo, quanto no legislativo, não justifica a despesa que temos para manter essas cortes todas. Confrarias de amigos, tal qual moscas em torno do pote de mel do erário que deveria ser público. Não tenho, sinceramente, que referendar tudo isso com minha participação.

Daí que resolvi poupar os meus possíveis leitores de falar de tudo isso que vocês já sabem - mas fingem que não sabe de nada - pois querer mudar isso que está ai vai criar uma série de problemas e isso é constrangedor nos dias de hoje. Pois ninguém quer ter problemas não é? Mas o problema dessa pseuda ‘política’ e de seus representantes continuam. E tal qual César eles desfilam em carros abertos, em festas populares, soltando beijinhos e dando a mão a todo mundo. Mãos que tão logo recolhidas ao que fazer público, privilegia o privado. E hoje existem muitas formas de se privilegiar o privado em detrimento do público. Imagine que eu posso, com a caneta de nomeação na mão, nomear toda a sua família e dar-lhe de quebra uma ‘acelerada social’ de fazer gosto. É aquele caso clássico de quem morava nos Bancários e de uma hora para outra aparece morando de frente para o mar na praia do Cabo Branco.

Esse ano eu estou mais interessado em cultura, comunicação e educação popular, dessas feitas a partir da reflexão do dia a dia, sem necessariamente ajudar isso que está ai. A mudança hoje é interna. É de dentro pra fora. Quando formos capazes de ficarmos literalmente contra esse ‘status’ que querem nos impor mesmo com esse discurso de ‘democracia representativa’ ai a gente começa a mudar o jogo de forças. Enquanto não, fico fora disso! Deixa que a gente se representa. Estamos vivos e aqui e agora. Não preciso bater palmas para ‘político’ nenhum em carros de alegorias fajutas. ‘Não põe corda no meu bloco, nem vem com seu carro chefe, nem dê ordem ao pessoal, pois a gente não precisa que organizem nosso carnaval’. É só um sambinha do João Nogueira que passa nessa avenida. Nada contra a política, com ‘P’ maiúsculo. Mas essa que se diz ‘política’ que está ai é pura enganação. Fazer as coisas com o dinheiro público além de um dever é uma obrigação do gestor nomeado por nós. Mas como tem Césares a cobrar do povo uma saudação.

E olhe que lhes poupei de falar na corte desses Césares em outros poderes. Quanto mais poder nós lhes damos, mais eles querem. Nunca discutem a função do cargo, mas querem o cargo a todo custo. Parece Luiz XIV absolutistamente repetindo “O Estado sou eu”. O Estado - senhores e senhoras - somos todos nós que pagamos à conta e ‘escolhemos os eleitos’. Escolhemos? E o pior é que tão logo eleitos se esquecem de quem os elegeu. Pois até o que é da obrigação do gestor fazer, fica parecendo que uma concessão – estão ai as secretarias de comunicação que não me deixam mentir – o Rei é mesmo fulano de tal, diz a propaganda e os brasões da idade média. Até o pagamento dos funcionários é uma ‘obra’ meritória de sua excelência. É como dizia o filósofo Blanchur: ‘o ar que respiras, fui eu que autorizei’. Nem de cafuçu eu convenço ninguém a ser mais hilário. Portanto, não perderei meu tempo com essa ‘politicalha’ que está estabelecida e que parece – por um consenso muito estranho – que vai perdurar por mais algumas décadas. Até que um dia o povo, cansado de falcatruas e enrolações, diga alto, claro e bom som: não precisamos mais de vocês. Caiam fora.

Eu ando preocupado mesmo é com o vôo dos passarinhos que saem da mangueira daqui de casa para os jambeiros do outro lado da rua. Jambeiros esses que estão ameaçados pela ‘outorga onerosa’ de quem acha que o céu pode ser visto melhor da cobertura da minha torre de babel. Ou seria de papel? Ando preocupadíssimo com o não brotar de uma roseira rara que consegui plantar no jardim e as formigas teimam em comer suas folhas. Já fiz um ‘espanta inseto’ com fumo, sabão e pimenta, mas as formigas se apaixonaram pela roseira. Tenho preferido à natureza da natureza. Esses ‘políticos’ de hoje, com suas esfinges e seus enigmas acham que ficarão impunes. Mas a natureza se encarregará de fazer os arranjos necessários para que prevaleça o bem. Pois da maneira que vamos, parece que só a maldade, a esperteza, a ganância, inclusive política, prospera. Mas é sempre bom lembrar o que diz a filosofia taoísta: lembrem-se da lei das oitavas, tudo gira e volta ao seu ponto de mutação, o tempo todo. E tudo muda.

Bom, já que meus possíveis leitores já sabem o que penso sobre o que se faz em nome da política hoje, pouparei vocês desse reme-reme. Deixarei essa seara para àqueles que vivem preocupados em descobrir, cobrir, furar a notícia, explicando que é mais importante saber o porquê que o senador quer nomear fulano de tal em detrimento de sicrano, do que realmente explicar o quê fulano de tal vai mesmo fazer naquele cargo para servir o povo. Fica parecendo que o importante mesmo é o cargo ocupado e o correligionário satisfeito. O quê ele vai fazer no cargo não tem importância. Todas as despesas serão custeadas mesmo pelo contribuinte não é? Ou seria ‘obriguinte’? Obrigatoriamente contribuinte?

Ave César! To fora.

Ivaldo Gomes
  • Professor, com formação em Educação Física. Especialista em Educação Popular pelo PPGE-UFPB. Militante no campo da educação, meio ambiente e cultura.
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