Mesmo assumindo – entre linhas – uma visão de prudência,
realista, que para muitos pode parecer pessimista sobre as perspectivas de
hoje em dia no Brasil e especificamente na Paraíba, reafirmo meu otimismo
em dias melhores. Desde que tomemos as decisões corretas. O momento é de
muita pressão para que as coisas sejam corrigidas numa perspectiva cidadã.
Não estou interessado em governos que fazem dos serviços sociais suas
correias de transmissão e atrelamento ao seu poder. Não gosto desse tipo
de administração que faz da saúde, da educação, uma grife de fulano de tal
ou do grupo tal. Foi no que terminou ficando o tal do ‘orçamento
participativo’.
Hoje está em moda e ‘é politicamente correto’ usar o termo república para
tentar dizer que o interesse é público. Mas na maioria dos discursos,
olhando bem direitinho, tirando as tintas do marketing, da propaganda,
descascando a tinta nova na mão antiga, percebemos que o entendimento do
conceito de republica fica muito a desejar. Mesmo daquela República de
Platão. A res-pública (de responsabilidade de todos) é o espírito coletivo
em pessoa. Em movimento. Onde a maioria decide em respeito às minorias
existentes. Na república o público é o objetivo. O fim e o motivo da sua
existência. Quando ela não funciona assim, pode ser tudo, menos republica.
Pode ser ditadura da maioria comprada ou representação ‘democrática’ com
práticas totalitárias. Onde as oligarquias mandam e desmandam no país e no
estado. E olhe, não estamos falando apenas das oligarquias familiares.
Vejam também as oligarquias da tecnologia, de mercado, de capital, etc. e
tal.
Todas as nossas perspectivas passam pelas opções que temos, tomamos e
tomaremos todos os nossos dias. Temos que nos colocar situações aonde as
coisas chegam ao limite. Não tem como não mais resolver. É agora, porque é
de verdade. Veja um exemplo ‘clássico’ da nossa situação atual: um apenado
hoje na Paraíba custa aos cofres públicos à importância de R$ 1.600,00
reais por mês. Um professor pró-tempore (substituto) um salário mínimo
(que chamo de ínfimo). Um professor concursado de nível superior pouco
mais de R$ 600,00 reais. Esse exemplo singelo deixa claro que nossas
opções estão erradas. Precisamos ter a coragem de admitir que temos
problemas sérios para se resolver. E não dá mais para aceitarmos tanta
passividade dos governos com os problemas muitos deles centenários.
Sou otimista sim sobre todos esses desmandos que os governos
estabeleceram. E olhe que eles têm se esforçado há anos para que as coisas
chegassem aonde chegou. Pois da forma que vai, vamos nos transformar num
grande aglomerado urbano e alguns rurais, onde cada um cuida de si e viva
a lei de murici: onde cada um pega pra si. E perceba que sem educação, sem
saúde e sem segurança, não tem emprego que se sustente. Não tem comercio
de verdade que progrida. Vida decente que resista. Pois as coisas vão se ‘degringolando’
e assim, esse quadro que pode advir dessa desorganização toda será um
quadro péssimo. Pois exemplos de barbáries já assistimos todos os dias na
televisão. A última que ouvi foi sobre uma chacina de quinze pessoas num
bar em Duque de Caxias - RJ.
Já ouvi comentários de pessoas dizendo que estão deixando de assistir os
jornais televisivos ou mesmo de ler jornais impressos. Não agüentam mais
as ‘más notícias’. Mais é a realidade que se espelha nas páginas dos
jornais e nos noticiários televisivos. Não dá pra esconder uma realidade
dessas. Por mais que os jornalistas não queiram contar essa história, eles
não podem faltar com a verdade. E que bom seria se eles, os jornalistas,
começassem também a se rebelar contra ditadura da pauta do dono ou das
empresas que pagam o comercial. Nunca é demais lembrar que ‘estava
cumprindo ordens superiores’ tem também seus limites éticos. Ninguém é
realmente pago para fazer coisas erradas. A cumplicidade é sempre latente.
Não sei qual é a estratégia que está por traz desse quadro todo. Mas ela
existe de forma direcionada, dá sinais de que está perdendo o controle
sobre determinadas áreas e ações. Veja o caso dos bolsões de pobreza nas
periferias das cidades grandes. Agora mesmo em João Pessoa o jogo de
classes está sendo jogado entre o Bairro São José (antiga favela Beira
Rio) e o Bairro de Manaira, um dos metros quadrados mais caros de João
Pessoa. Já ouvi discursos desse tipo: ‘vamos remover o Bairro São José. É
a solução do problema. São apenas cinco mil famílias. Vamos levá-los para
a periferia da cidade. Lá é o lugar delas. E não aqui perto da gente.
Roubando nossas casas, tomando nossas bicicletas, celulares, vendendo
droga aos nossos filhos’. Aparthaid?
Já vimos esse filme antes. São de propostas assim que se cristaliza o
preconceito. E a partir dele, as justificativas para o abandono, o
desprezo, a insensatez, o descaso, a desigualdade justificando mais
desigualdade. E ai aparece às cotas, a bolsa família, o vale cidadania:
compensações. E nas compensações embutimos os pré-conceitos de novo e
velho. Mais desigual, mesmo quando justo. Pois existe uma diferença muito
grande entre o justo e o ético (correto). É justo cobrar da sociedade uma
reparação contra a prática de racismo – escravidão - que foi vítima e são
vítimas os descendentes do povo africano no Brasil? Claro que sim. Mas
mesmo justo não é ético se criar privilégios baseados em cor,
religiosidade, filosofias, gêneros, números, jazz, reggaes e música
clássica. Pois todo privilégio é nefasto. A luta é por igualdade de
direitos e oportunidades de verdade e não de estatística.
Com o pré-conceito e seus conceitos advindos, não vamos a lugar nenhum. A
proposta, como perspectiva para a mudança, é jogar fora os preconceitos e
harmonizar-se com a natureza das coisas. Respeitar o diferente - por ser
diferente da gente – mas que possui o mesmo direito de existir como eu,
você, o tatu, o urubu. Viver e deixar viver deveria ser o lema
desse terceiro milênio para ver se a gente chega ao quarto. Ai tudo vai
ficar melhor. Finalmente no quarto milênio com vistas para o mar. Mas se
continuarmos a desmatar literalmente o planeta, vai faltar alguns
elementos para conjugar o verbo existir num presente próximo.
Talvez no início do quarto milênio sejamos uma comunidade aquática. Pois
só nos restou à água para sobreviver. Não vamos dá uma de ficcionista,
pois esse não é o propósito. O propósito é dizer, deixar claro, que temos
que tomar posições e agirmos com nossa consciência cidadã. Pois o tempo
ruge e a cada desmatamento, cada degradação da vida e da sua existência,
cometida em cada passo dado nesse caminho destrutivo, só nos levará a
morte junto com o planeta, junto com o que restar da natureza.
Nos dias de hoje negligenciar a cidadania é coisa muito séria. É típico de
quem não teve oportunidade de estudar. Ter uma formação. Uma visão de
mundo como dizia o professor, mestre, exemplo de bondade, Paulo Freire. O
mundo pra você é o que você pensa. Mais nem sempre coincide com o que você
pensa. Daí perceber outros ângulos é importante na compreensão do campo em
estudo. De um ponto amplo na arquibancada dá pra ver o jogo em todas as
suas emoções. Preocupa-me ver pessoas preocupadas apenas com o dia de
hoje. Eu sei que todo mundo tem uma vida particular pra tocar.
Compromissos inadiáveis. Mas os problemas particulares existem dentro dos
coletivos. Esses que andam na rua cobrando uma passagem pensada para
favorecer apenas o dono da empresa. O ônibus é novo, a fotografia é
bonita. Mas ele passa e eu não consigo estar nele. Ou vou a pé ou não
lancho na hora do almoço. Esse negócio de supermercados repletos de
alimentos e eu sem dinheiro pra comprar só dá raiva. E raiva mata muita
gente.
Mas falemos da vida, das perspectivas que temos doravante desses 2008 D.C.
É bom ‘amarrar’ o tempo. O tempo todo. Pois dependemos dele. Vivemos sob
seu ritmo. Todo mundo dorme alguma hora do dia. Uma característica humana.
Somos iguais nas necessidades e constituição. Temos os mesmos direitos. Só
não temos é a segurança desses direitos assegurados. Apesar de todos os
impostos - imposto a ferro e a fogo - numa carga tributária injusta frente
aos serviços públicos oferecidos. Precisamos começar mudar por algum
lugar. Pessoalmente escolhi como campo de debate público e de ação cidadã,
dois assuntos prioritários, paradigmáticos de cidadania nos dias de hoje:
o voto – repasse do meu direito de representação a outra pessoa – e
o pagamento dos impostos. Precisamos analisar bem direitinho para
que têm nos servido até agora.
Concluo afirmando que a saída para reestruturar o país, o estado e o
município, é colocar na agenda de discussão de todos nós essas duas
questões básicas para começar o debate da verdadeira mudança: Para que
têm servido nosso voto e nosso imposto? Como controlar os eleitos? Como
fiscalizar a aplicação dos impostos? Como priorizar sua aplicação? Como
punir os corruptos? Tanto na política quanto na economia? Sem uma
discussão séria sobre essa duas chaves de cidadania: Voto e imposto.
Uma porque constitui a autoridade pela via da representação social e a
outra porque assegura os recursos para serem aplicados na melhoria da vida
de todos. Pelo menos é o que deveria ser feito com o dinheiro público.
Essa história – histórica – ‘de que sempre foi assim e que assim
sempre será’ pode e deve mudar. Pois o Estado de Direito só existe
quando o direito de TODOS está garantido na prática e não apenas na letra
da lei. Tem que está presente na vida e no dia a dia do cidadão. De todos
nós. Tem que existir de verdade como direito. No Brasil de hoje parece até
que a gente só tem obrigações. E esse papel de figurante e pagador de
contas é muito pouco pro povo daqui. E ai meu coração não se conforma.
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