Não dá pra falar de emprego e geração de renda sem antes falar de economia e
de salário. Do ponto de vista da economia temos que entender como ela funciona
e quem de fato dita as regras. E aqui a soberania dos banqueiros é uma coisa
absurda. Quase não se faz nada no país sem passar pela mão do banqueiro. Uma
espécie de agiota legalizado. Só quem vive de rendas é a rendeira e o
banqueiro. Não sei se vocês sabiam, mas se formos todos nós ao banco num mesmo
dia combinado para resgatar nosso dinheiro depositado lá, não vamos ter
dinheiro pra todo mundo. Até porque o banqueiro, quero dizer, o agiota
oficial, emprestou a juros absurdos todo nosso dinheiro. Vivemos hoje no
Brasil para pagar o banco e os governos. São tantas taxas e tantos impostos
que já somam mais de 40% de tudo que produzimos como força produtiva:
trabalho, produção, mais valia.
Já o salário faz parte dessa estratégia de classe, centenária, corporificada
na cultura do colonizador. Muitas das vezes quem menos faz é quem mais ganha.
Mas a política salarial adotada e em vigor é extremamente injusta. Está
baseada numa falsa formação, onde a competência nem sempre é o critério para
se aquilatar o salário e o cargo do ocupante. O título ou o QI (de Quem
Indica) tem sido os mais importantes. Infelizmente. Existem mudanças,
mas ainda não passam de concessões à base de pressões. Os salários no Brasil
são extremamente injustos, com camadas inteiras da população ficando de fora
da ‘distribuição de renda’. Tanto é assim que o governo tem adotado as tais
‘bolsas de compensação de pobreza’. Que não resolvem, amenizam um pouco quem
tem fome. Mas é muito pouco pra fome de dignidade que a cidadania cobra e tem
direito. E tem mais: quem tem fome tem pressa.
Um salário deveria ser a condição de dignidade para manter uma família com
seus direitos de cidadania. E quanto é isso? É caro, mas o dinheiro existe.
Basta olhar os orçamentos dos governos e suas instituições e você verá que
existe dinheiro para resolver todo e qualquer problema no Brasil. Basta
vontade política e democratização do poder. Mas isso é outra discussão. E
veremos em outro texto. Mas quem define o salário mínimo no Brasil, por
exemplo? Quem? Alguém sabe quem são as pessoas que se reúnem e dizem assim: ‘o
salário mínimo vai ser de tanto’... Não os conheço, mas com certeza elas não
devem ganhar o salário que propõe para a maioria dos brasileiros. Querer que
um trabalhador sobreviva com sua família, com um salário ínfimo desses é um
tanto quanto sádico. Pois todos nós sabemos que é impossível garantir
cidadania com um salário desses. O interessante é que a maioria sabe disso e
continua sendo assim. Conivência? Aceitação pura e simples? Comodismo? Falta
de solidariedade social?
Numa perspectiva de mudança, onde o cidadão é o centro das atenções das
políticas públicas, o salário é o primeiro passo e de fundamental importância
para resgatar direitos. O moderno hoje, o contemporâneo, o chic do chic é
resgatar direitos. Devolver a quem de direito os tem e não os tinha por pura
injustiça social. Precisamos rediscutir o salário dos trabalhadores
brasileiros. Precisamos descobrir políticas de emprego e geração de renda,
onde a autonomia, o empreendedorismo e as relações de troca sejam mais justas,
éticas, saudáveis. Pois eu mesmo tive que fechar um pequeno negócio por
concorrência desleal. Por comportamentos que não me dispus a assumir. Não
basta crédito, treinamento, sem uma educação que reforce a auto-sustentação e
a independência financeira. As formas cooperativadas ainda são as melhor
saídas para a construção de uma economia voltada para os interesses de todos.
O danado é que vivemos num capitalismo cruel, onde a exploração não tem
limites. E nós entendemos de exploração não é? Basta olhar a nossa história
dos últimos quinhentos anos.
Existem trabalhos hoje no Brasil que são remunerados a centavos a hora de
trabalho. Isso demonstra o nível de ‘escravização’ que ainda está imbuída
muita mentalidade nesse país. É vergonhoso o governo encontrar trabalho
escravo nos dias de hoje. E todo santo dia descobrem famílias inteiras sendo
exploradas como escravo no Brasil de 2008. E olhe que falar de escravidão,
preconceito e racismo no Brasil vão ser necessário escrevermos alguns milhares
de textos. Pois ela existe no preconceito que perdura, principalmente com o
que foi escolhido e culturalmente definido como diferente da elite que sempre
está no poder por aqui. A elite dita os seus e os preconceitos. E ai de quem
quiser mexer com isso. Pois vai enfrentar a fúria de quem não quer perder
nenhum privilégio. E como tem privilégio no Brasil.
A valorização do salário vai ampliar os empregos. Pois os salários mais altos
geram mais consumo e mais distribuição de renda. A economia é uma roda que não
para de rodar. Às vezes mais rápida, às vezes mais lenta, mais sempre rodando.
O danado é quando ela começa a rodar ao contrário. Só chupa os recursos. Sejam
eles capitais ou físicos. Só retira da sociedade e da natureza sua riqueza. Na
conjuntura atual a roda econômica gira pra frente, mas a passos de tartaruga.
É como se alguém instalasse a sociedade num trem que viaja muito devagar (o
trem da economia) e a distribuição dessas riquezas fossem sendo distribuídas
prioritariamente no primeiro vagão e depois para o segundo, depois para o
terceiro, quarto, quinto, sexto, ou quantos vagões sejam necessários para
manter essa situação que estamos vivendo. Os de ‘primeira classe’ serão sempre
saciados, por sempre são servidos primeiro. Imagine o ‘serviço’ que vai chegar
à última classe. E olhe que eu nem falei naqueles que ficam explorando todo
mundo dentro dos vagões.
Os governos no Brasil deveriam no mínimo estabelecer uma paridade entre os
salários e as diversas profissões. Não existe justificativa - ética, moral, de
justiça - que justifique a diferença brutal, humilhante, de um salário de um
juiz comparado a de um professor, médico, soldado. Justifiquem o porquê de um
professor ganhar 2%, 3% de um salário de um juiz? Não existe justificativa a
essa discrepância e falta total de critério para se remunerar de forma justa
no Brasil. As distorções são tantas e variadas que não dá para listar aqui.
Mas fiquemos no exemplo do juiz e dos tais ‘cargos de confiança’. Aqui as
coisas descambam pra ilegalidade. Pois os governos - seus dirigentes –
saqueiam o erário público com a desculpa de ‘que precisam ganhar o suficiente
para fazer o trabalho do governo’. Empregam parentes, aderentes e cabos
eleitorais. Na cara dura. Já o trabalho oferecido como resultado de todo esse
pagamento está ai para quem quiser ver.
A conjuntura no Brasil para discutir emprego, renda e mobilidade social são
muito ruins. Pois simplesmente as políticas de emprego e renda no Brasil de
hoje, além da sua timidez, atinge muito poucos. E os que conseguem ser
atingidos ficam sendo explorados pelo salário baixo que perdura em quase toda
economia. Essa coisa de salário de executivo é uma espécie de ‘big bhother’
para gerente ver. Pois quase ninguém consegue ser esse ‘chair man’ que as
revistas econômicas tanto falam. É uma minoria no mar de salários achatados.
Se você fizer uma média do salário do brasileiro (*) é de uns R$ 900,00 reais
per capita. Baixíssimo. Comparado até aos países das Américas. Não vamos nem
na Europa. Fiquemos com os nossos vizinhos que possuem médias melhores na
medida em que se aproximam da América do Norte.
O DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos -,
defende um salário mínimo de sete a oito vezes o atual. Para você perceber
como o salário mínimo hoje é ínfimo. Mas no Brasil de hoje só quem pode ganhar
dinheiro são alguns. Não existe uma política de democratização e recuperação
salarial em andamento. Muito pelo contrário, a usura aqui é tão grande e tão
sufocante que quando esse salário mínimo de hoje é aumentado, em dez, quinze,
vinte reais, os preços nos supermercados aumentam. A ganância pelo lucro no
Brasil é uma coisa tão desavergonhada e tão impune, que as classes sociais
mais marginalizadas são justamente as que mais pagam impostos. Diretos e
indiretos. Pois quando lhes faltam assistência social é mais um preço que
nós/eles temos que pagar. Quando você compra remedias essenciais na ‘farmácia
popular’ (por mais baixo que seja o preço), os quais você tem direito por lei,
você está pagando de novo por uma coisa que já pagou com tantos impostos.
Ah! Então não tem saída... Tem. Têm várias. Mas a fundamental é se organizar e
discutir tudo isso. Fazer frente a tudo isso. Questionar profundamente esse
sistema de coisas e esse ‘estado de direito’ que esta sendo impingidos por
traz de leis e prerrogativas que são contra os direitos da maioria do povo
brasileiro. Organizar e pressionar por mudanças é a saída. Lutar por mais
transparência no uso do dinheiro público e punição dos corruptos. Por mais
mecanismos de controle social sobre os nossos representantes. Até quando eles
existirem e forem necessários. Pois um dia seremos tão educados, cultos e
prósperos que dispensaremos os chefes. E poderemos fumar o nosso cachimbo da
paz em paz. Com direitos e deveres garantidos para todos. De forma justa e
decente. Mas hoje à hora é de reagir. Organizar-se. Propor e executar
mudanças. Inclusive de atitude. Como por exemplo, exigindo uma discussão
pública para que tem servido mesmo o nosso imposto e nosso voto?
Uma política de emprego e renda tem que levar em consideração princípios de
justiça social. E ela não pode ser praticada num mercado injusto por natureza
capitalista. Precisamos rediscutir os conceitos de honestidade,
distribuição, lisura. E o melhor caminho são princípios éticos de justiça
social. De direitos humanos. De direitos civis que existam em nossa cidadania
cotidianamente e não apenas pregados em papeis e discursos de justificavas por
tanta injustiça. O Brasil precisa acordar para a compreensão de que o seu
maior patrimônio é o seu povo. E não pode mais tratá-lo dessa forma. Não falo
de um Brasil entidade, fora da gente. Falo de um Brasil brasileiro como eu e
você. Com vantagens e desvantagens a serem trabalhadas, superadas. Mas não
precisa ser esse ‘brasil’ injusto e indiferente que temos hoje. A mais
eficiente política de desenvolvimento econômico é aquela que redistribui a
riqueza produzida por todos. Eu disse por TODOS e para todos. E não e
apenas para alguns como tem sido até agora.
(*) O trabalhador brasileiro ganhou em 2006, em média, menos do que dez anos atrás. O rendimento médio mensal com trabalho em 2006 foi de R$ 883, o que representa 9,4% menos que os R$ 975 ganhos em 1996. Os dados, atualizados pela inflação do INPC, fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Fonte: http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=sl207
