Todas as vezes que fico sem saber o que fazer - e olhe que por diversas vezes
na vida você vai passar por isso - lembro-me logo da linha do horizonte. É
como se procurasse por ela. É minha orientação para as horas em que fico sem
horizonte nenhum. Foge-lhe os pés. A vista fica curta, se vê quase nada. Mas a
linha está lá e ela existe e vai continuar a existir mesmo depois de nós.
Vamos-nos horizontalizar antes dela. E vendo-a ao longe, ao dia, à noite, fico
pensando também no que existe do outro lado de lá da linha do horizonte.
Imagino que muitos homens e mulheres já pensaram nisso a vida inteira. Tinha
até aquela informação da idade média, antes de Cristóvão, Vasco da Gama,
Cabral: depois da linha do horizonte tem um precipício sem fim.
Tem horas que acho que os precipícios são feitos pra isso mesmo, para nos
tirar do prumo, da linha vertical, vertiginosa que se transformaram os dias de
hoje. Tudo rápido demais. E a linha do horizonte lá o tempo todo. Mas tudo
correndo ao seu redor. Todo dia o dia todo. É gente pra lá e pra cá. Mas isso
é a vida, dirão todos. É a sociedade em tempo real. Ao vivo e a cores.
Orientada ou desorientada. Tem de tudo um pouco, como numa salada sociológica
para antropólogo nenhum botar defeito. Quinhentos anos de linha do horizonte.
Pindorama tem mais de vinte mil anos. Mas o que está nos livros só coube
quinhentos anos. E a gente aqui esperando o nascer do dia. Há quinhentos anos
descobrimos o que existe do lado de lá. E quanto custa.
Quanto custou quinhentos anos de exploração em ouro, prata, bronze, cobre,
pedras preciosas, madeira, café, açúcar, leite, carne, fumo, pimenta, cachaça
e escravidão? Quinhentos anos de espoliação do lado de cá da linha do
horizonte. Daí que de vez em quando a gente fica sem horizonte nenhum para ver
a linha do horizonte do ponto de vista do lado de cá. Mas quando ficamos
desnorteados nos lembramos da linha do horizonte. Da linha do horizonte do
nordeste de cá. Com esse sol forte a nos dizer todo dia: vai trabalhar que a
farinha é pouca. Chove pouco pelos lados de cá da linha do nosso horizonte. E
olhe que chove poucas chuvas de todas as qualidades que você possa imaginar.
Só não poucas as trovoadas de bem querer e viver desse nosso povo. Mas aqui,
da linha do nosso horizonte, do lado nordestino de ser, é seco. Mas com brisa
e cafunés.
Mas o tal do prumo, da linha, do sentido da vida, na lida, só trilhando em
passos lentos e seguros por aqui. São grandes as veredas dessa vida vivida ao
sol de todos os dias e noites de céus estelares e corpos celestes mil. Ficamos
perdidos às vezes. É verdade. Mas existem bússolas. E por aqui usamos três o
tempo todo. Todas filhas do tempo. Esse eterno senhor ai do lado. As bússolas
usadas são: linha do horizonte, bom senso e ética. Uma concreta, outra mental,
outra espiritual. Como você pode ver não estamos perdidos. Basta seguir a
linha do horizonte do seu bom senso e logo a ética aparece. Ai é tomar uma
cerveja na beira da praia, papear e relaxar. Pois ninguém é de ferro. E ferro
enferruja. Já linha do horizonte não.
E a tal da linha do Equador! Ah! Mas esse ai já é outro papo.
