Arrumamos as malas, eu, Ana Maria e os meninos e fomos para Campina Grande.
Fui ajudar na realização do I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas, que
aconteceu em Campina Grande nos dias 26, 27 e 28 de outubro. Quem não pode ir
por lá e conferir o encontro perdeu uma série de atividades que valeram a pena
a correia de acompanhar uma programação que começava às 08 horas e não tinha
hora para acabar. Dormir duas, três horas da manhã era rotina de trabalho. Mas
valeu a pena ter ido e ter participado. Esse é mais um relato do que vi e
vivenciei no Rap&Rep 2007. Pois existe a vontade do Ministério da Cultura pai
da idéia de realizar o segundo no ano que vem. Inclusive com a sugestão de
continuidade em Campina Grande.
Quem sabe o prefeito de Campina Grande tenha a sensibilidade que não teve esse
ano. Bola fora. A sua assessoria o assessorou de forma errada e ele negou por
picuinha política o que não o engrandece o espaço do Parque do Povo e o Teatro
Severino Cabral. Pior ainda, a assessoria boicotou o evento. O prefeito teve a
oportunidade ímpar de mostrar que com ele o negócio era diferente. Diferente
nada. Assumiu a mesma postura que o seu grupo oposicionista. Essa mentalidade
de desconstruir o que o outro quer fazer, ainda vai conseguir deixar a Paraíba
em pior situação do que já se encontra. Perdeu o movimento cultural de Campina
Grande, que não se deslocou para o longínquo Garden Hotel e nem tão pouco se
deu ao trabalho de ir ao também distante Spazzio.
Mas deixando as idéias menores de lado, preocupo-me com a reluzente idéia do
Ministro da Cultural Gilberto Gil, que acalentava a realização desse encontro
há mais de quinze anos. Pai da idéia do Rap&Rep fez de tudo e mais um pouco
para que acontecesse em Campina Grande. Por que Campina Grande? Pelo fato de
que Campina Grande tem tradição de cordel, repente e embolada. E Campina
Grande com seu cosmopolitismo poderia abrir sim um encontro dessa natureza. E
o fez da melhor maneira que se pode, dentro das circunstâncias criadas.
Atendeu os objetivos? Claro que sim. Pois o evento reuniu aqueles a quem se
propôs pensar um encontro de cultura entre várias tendências culturais. As
tradicionais e as contemporâneas.
Assisti a reunião com os Secretários de Cultura e presidentes de instituições
culturais do Nordeste. Vi e ouvi o Ministro Gilberto Gil dizer com todas as
letras que a palavra de ordem é parceria. Que se faz necessário à união de
todos, num esforço comum para se colocar - dar destaque - a cultura
brasileira. Se isso não for importante, não sei o que estávamos fazendo ali.
Vi o esforço da Secretaria da Diversidade Cultural - MINC, coordenada pelo
elegante, inteligente e talentoso Sérgio Mambert, onde em conferência, fez um
relato impressionante de coisas que já conseguiram realizar durante essa
gestão. E olhe que não é conversa fiada. São realizações de encherem os olhos
e os ouvidos de quem as ouve.
Vi toda uma discussão dos rumos e dos caminhos do Hip Hop brasileiro. Feito
por suas lideranças nacionais como Nelson Triunfo e Zé Braow. Ouvi as críticas
e as sugestões para a continuidade dessa fusão e discussão de repente,
embolada, cordel, hip hop. Emocionei-me com o discurso de Bráulio Tavares
sobre o momento do cordel, do repente, da embolada e do hip hop no Brasil de
hoje. É um panorama interessante e Bráulio Tavares continua sendo um dos
melhores quadros da cultura paraibano-brasileira. Apesar de morar no Rio de
Janeiro. Mas o mundo está cada dia mais cosmopolita e ele, como tal, não
poderia deixar de fazer sua parte. Perceber a história do cordel, sua
trajetória, o mundo do repente, da embolada, seu momento atual, com os
contrastes do Hip Hop americano e o Hip Hop brasileiro. Foi instigante
perceber toda essa simbiose. Ouvi atento o esforço de Medeiros Braga falando
da sua opção de levar para linguagem de cordel o erudito do conhecimento
humano. Achas fácil fazer isso? Tente como ele fez colocar em cordel o
Manifesto Comunista. E a biografia de Leon Trotsky? E as explicações do que
são capitalismo e socialismo em linguagem popular, de cordel?
Fiquei deslumbrado com a verve pesquisadora do grande Altimar Pimentel nosso
Câmara Cascudo discorrendo sobre a trajetória histórica do repente, da trova,
dos cantadores medievais desde o século XII até agora. Altimar deu uma aula de
como tudo aconteceu, historicamente falando. Fez com o grande menestrel
Oliveira de Panelas, um dueto de apresentação dos tipos e das formas do
repente e suas nuances na viola. Demonstrações sonoras de encantamento para os
ouvidos de quem ficou como eu, com os olhos marejados dágua. Ouvir Manoel
Monteiro discorrer sobre o cordel e sua forma de encantamento popular. Justo
na sala Leandro Gomes de Melo (o pai do cordel brasileiro). Não poderia ter
ouvido palestras melhores. O cordel é a arma que o trovador nordestino
exercitou para chegar aos ouvidos do seu povo. Esse povo, que mesmo
secularmente analfabeto, compra cordel e ainda paga alguém para ler pra ele. O
cordel foi e é uma forma fantástica de se comunicar o mundo. É a imprensa
popular, acessível ao povo.
Presenciei desafios incríveis entre emboladores e rappers. Desafios
complementares, onde cada um do seu jeito cantou sua sorte e sua dor. Seus
problemas e suas alegrias. Num diálogo respeitoso e cúmplice. Mas tudo saiu
tão bem assim? Não. Nem tudo. Pois tivemos problemas com horários e
deslocamentos. Tudo muito longe e o apoio, a infra-estrutura ainda
deficitária. Erros de primeiro encontro? Com certeza. Só se sabe se dá certo
fazendo. E foi isso que foi feito. O Governo do Estado, com a dedicação
inequívoca de Daniella Ribeiro, com o apoio pessoal do Governador, fez
acontecer o I Encontro Brasileiro de Rappers e Repentistas. Desdobramentos?
Teremos. Até porque o Ministério da Cultura quer que haja continuidade.
Destacaria ainda o empenho e a dedicação que a representação do Ministério da
Cultura no Nordeste, na pessoa de Tarciana Portella e sua equipe, num
incansável vai e vem pelo nordeste afora tem feito pela cultura de todos nós.
E olhe que é só o começo. Pois o MINC tem propostas em andamento para todos os
seguimentos da cultura brasileira. Entendo e reconheço como um dos melhores
desempenhos do Governo Lula a área da cultura. Pois ela tem norte, nordeste,
centro oeste, sudeste e sul. Tem direção. Tem propostas, tem planos. É tudo
uma questão de tempo. E isso é preciso ser reconhecido. Como precisa ser
reconhecido o esforço que se faz hoje na Subsecretaria de Cultura do Governo
do Estado, com uma infra-estrutura mínima, que procura fazer as vias de uma
Secretaria de Cultura sem efetivamente sê-la.
Por fim resta dizer que aprendi muito nesses três dias. Ouvi mais que falei.
Mas emocionei-me em ver todos aqueles mestres dispostos a conversar e trocar
repentes, emboladas e impressões. Acho que o mundo fica melhor, mais leve,
quando começamos perceber que o diferente de mim existe e precisa continuar
existindo. Pois nem nos jardins todas as flores são rosas. A pluralidade
cultural, a diversidade cultural, de ontem, de hoje, do nosso futuro, depende
muito do diálogo que tivermos a capacidade de fazer hoje. E o Rap&Rep foi um
passo nessa direção. Na direção das possibilidades utópicas, dos sonhos de que
tudo vem de uma mesma fonte humana e cultural. Que precisa ser cuidada,
regada, atendida, mostrada e reconhecida como um esforço coletivo do fazer o
bem. Mesmo que nem seja tão bem feito quanto gostaríamos, mas feito da mesma
maneira, com carinho e amor pelo que se faz.
Voltei recompensado da viagem. Cansado, mas com a sensação de missão cumprida.
Mesmo sabendo que fomos apenas arranjar mais trabalho. Mas o que seria da vida
sem trabalho algum? Sem esse trabalho que você se apaixona e acredita que é
possível sermos melhores sempre? Vê se você não falta ao próximo Rap&Rep. Que
poderá ser em Campina Grande ou não. Como diria Caetano Veloso, num dos seus
momentos mais odara. Que ótimo que Gilberto Gil toca e canta também fora dos
palcos. E que bom que Daniella Ribeiro teve ouvidos para ouvir e acompanhar no
coro. Eu, Chico Noronha, Sandoval Nóbrega, Dércio Alcântara (como marketeiro)
fizemos nossa parte. A equipe local de Campina Grande. A todos que de uma
forma ou de outra conspiraram pelo sucesso ou pelo fracasso do Rap&Rep, para
que tudo acontecesse daquela forma e daquele jeito, parabéns.
