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De repente o rap

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 30/10/2007

Arrumamos as malas, eu, Ana Maria e os meninos e fomos para Campina Grande. Fui ajudar na realização do I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas, que aconteceu em Campina Grande nos dias 26, 27 e 28 de outubro. Quem não pode ir por lá e conferir o encontro perdeu uma série de atividades que valeram a pena a correia de acompanhar uma programação que começava às 08 horas e não tinha hora para acabar. Dormir duas, três horas da manhã era rotina de trabalho. Mas valeu a pena ter ido e ter participado. Esse é mais um relato do que vi e vivenciei no Rap&Rep 2007. Pois existe a vontade do Ministério da Cultura pai da idéia de realizar o segundo no ano que vem. Inclusive com a sugestão de continuidade em Campina Grande.

Quem sabe o prefeito de Campina Grande tenha a sensibilidade que não teve esse ano. Bola fora. A sua assessoria o assessorou de forma errada e ele negou por picuinha política o que não o engrandece o espaço do Parque do Povo e o Teatro Severino Cabral. Pior ainda, a assessoria boicotou o evento. O prefeito teve a oportunidade ímpar de mostrar que com ele o negócio era diferente. Diferente nada. Assumiu a mesma postura que o seu grupo oposicionista. Essa mentalidade de desconstruir o que o outro quer fazer, ainda vai conseguir deixar a Paraíba em pior situação do que já se encontra. Perdeu o movimento cultural de Campina Grande, que não se deslocou para o longínquo Garden Hotel e nem tão pouco se deu ao trabalho de ir ao também distante Spazzio.

Mas deixando as idéias menores de lado, preocupo-me com a reluzente idéia do Ministro da Cultural Gilberto Gil, que acalentava a realização desse encontro há mais de quinze anos. Pai da idéia do Rap&Rep fez de tudo e mais um pouco para que acontecesse em Campina Grande. Por que Campina Grande? Pelo fato de que Campina Grande tem tradição de cordel, repente e embolada. E Campina Grande com seu cosmopolitismo poderia abrir sim um encontro dessa natureza. E o fez da melhor maneira que se pode, dentro das circunstâncias criadas. Atendeu os objetivos? Claro que sim. Pois o evento reuniu aqueles a quem se propôs pensar um encontro de cultura entre várias tendências culturais. As tradicionais e as contemporâneas.

Assisti a reunião com os Secretários de Cultura e presidentes de instituições culturais do Nordeste. Vi e ouvi o Ministro Gilberto Gil dizer com todas as letras que a palavra de ordem é parceria. Que se faz necessário à união de todos, num esforço comum para se colocar - dar destaque - a cultura brasileira. Se isso não for importante, não sei o que estávamos fazendo ali. Vi o esforço da Secretaria da Diversidade Cultural - MINC, coordenada pelo elegante, inteligente e talentoso Sérgio Mambert, onde em conferência, fez um relato impressionante de coisas que já conseguiram realizar durante essa gestão. E olhe que não é conversa fiada. São realizações de encherem os olhos e os ouvidos de quem as ouve.

Vi toda uma discussão dos rumos e dos caminhos do Hip Hop brasileiro. Feito por suas lideranças nacionais como Nelson Triunfo e Zé Braow. Ouvi as críticas e as sugestões para a continuidade dessa fusão e discussão de repente, embolada, cordel, hip hop. Emocionei-me com o discurso de Bráulio Tavares sobre o momento do cordel, do repente, da embolada e do hip hop no Brasil de hoje. É um panorama interessante e Bráulio Tavares continua sendo um dos melhores quadros da cultura paraibano-brasileira. Apesar de morar no Rio de Janeiro. Mas o mundo está cada dia mais cosmopolita e ele, como tal, não poderia deixar de fazer sua parte. Perceber a história do cordel, sua trajetória, o mundo do repente, da embolada, seu momento atual, com os contrastes do Hip Hop americano e o Hip Hop brasileiro. Foi instigante perceber toda essa simbiose. Ouvi atento o esforço de Medeiros Braga falando da sua opção de levar para linguagem de cordel o erudito do conhecimento humano. Achas fácil fazer isso? Tente como ele fez colocar em cordel o Manifesto Comunista. E a biografia de Leon Trotsky? E as explicações do que são capitalismo e socialismo em linguagem popular, de cordel?

Fiquei deslumbrado com a verve pesquisadora do grande Altimar Pimentel nosso Câmara Cascudo discorrendo sobre a trajetória histórica do repente, da trova, dos cantadores medievais desde o século XII até agora. Altimar deu uma aula de como tudo aconteceu, historicamente falando. Fez com o grande menestrel Oliveira de Panelas, um dueto de apresentação dos tipos e das formas do repente e suas nuances na viola. Demonstrações sonoras de encantamento para os ouvidos de quem ficou como eu, com os olhos marejados dágua. Ouvir Manoel Monteiro discorrer sobre o cordel e sua forma de encantamento popular. Justo na sala Leandro Gomes de Melo (o pai do cordel brasileiro). Não poderia ter ouvido palestras melhores. O cordel é a arma que o trovador nordestino exercitou para chegar aos ouvidos do seu povo. Esse povo, que mesmo secularmente analfabeto, compra cordel e ainda paga alguém para ler pra ele. O cordel foi e é uma forma fantástica de se comunicar o mundo. É a imprensa popular, acessível ao povo.

Presenciei desafios incríveis entre emboladores e rappers. Desafios complementares, onde cada um do seu jeito cantou sua sorte e sua dor. Seus problemas e suas alegrias. Num diálogo respeitoso e cúmplice. Mas tudo saiu tão bem assim? Não. Nem tudo. Pois tivemos problemas com horários e deslocamentos. Tudo muito longe e o apoio, a infra-estrutura ainda deficitária. Erros de primeiro encontro? Com certeza. Só se sabe se dá certo fazendo. E foi isso que foi feito. O Governo do Estado, com a dedicação inequívoca de Daniella Ribeiro, com o apoio pessoal do Governador, fez acontecer o I Encontro Brasileiro de Rappers e Repentistas. Desdobramentos? Teremos. Até porque o Ministério da Cultura quer que haja continuidade.

Destacaria ainda o empenho e a dedicação que a representação do Ministério da Cultura no Nordeste, na pessoa de Tarciana Portella e sua equipe, num incansável vai e vem pelo nordeste afora tem feito pela cultura de todos nós. E olhe que é só o começo. Pois o MINC tem propostas em andamento para todos os seguimentos da cultura brasileira. Entendo e reconheço como um dos melhores desempenhos do Governo Lula a área da cultura. Pois ela tem norte, nordeste, centro oeste, sudeste e sul. Tem direção. Tem propostas, tem planos. É tudo uma questão de tempo. E isso é preciso ser reconhecido. Como precisa ser reconhecido o esforço que se faz hoje na Subsecretaria de Cultura do Governo do Estado, com uma infra-estrutura mínima, que procura fazer as vias de uma Secretaria de Cultura sem efetivamente sê-la.

Por fim resta dizer que aprendi muito nesses três dias. Ouvi mais que falei. Mas emocionei-me em ver todos aqueles mestres dispostos a conversar e trocar repentes, emboladas e impressões. Acho que o mundo fica melhor, mais leve, quando começamos perceber que o diferente de mim existe e precisa continuar existindo. Pois nem nos jardins todas as flores são rosas. A pluralidade cultural, a diversidade cultural, de ontem, de hoje, do nosso futuro, depende muito do diálogo que tivermos a capacidade de fazer hoje. E o Rap&Rep foi um passo nessa direção. Na direção das possibilidades utópicas, dos sonhos de que tudo vem de uma mesma fonte humana e cultural. Que precisa ser cuidada, regada, atendida, mostrada e reconhecida como um esforço coletivo do fazer o bem. Mesmo que nem seja tão bem feito quanto gostaríamos, mas feito da mesma maneira, com carinho e amor pelo que se faz.

Voltei recompensado da viagem. Cansado, mas com a sensação de missão cumprida. Mesmo sabendo que fomos apenas arranjar mais trabalho. Mas o que seria da vida sem trabalho algum? Sem esse trabalho que você se apaixona e acredita que é possível sermos melhores sempre? Vê se você não falta ao próximo Rap&Rep. Que poderá ser em Campina Grande ou não. Como diria Caetano Veloso, num dos seus momentos mais odara. Que ótimo que Gilberto Gil toca e canta também fora dos palcos. E que bom que Daniella Ribeiro teve ouvidos para ouvir e acompanhar no coro. Eu, Chico Noronha, Sandoval Nóbrega, Dércio Alcântara (como marketeiro) fizemos nossa parte. A equipe local de Campina Grande. A todos que de uma forma ou de outra conspiraram pelo sucesso ou pelo fracasso do Rap&Rep, para que tudo acontecesse daquela forma e daquele jeito, parabéns.

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