Esse texto é para ser lido, ouvido, dialogado. Serve para conversar. Dizer ao outro o que se pensa. E nesse tema, não pode ser dito de forma reduzida, como se fosse uma propaganda. Pois ele não é uma idéia sabonete. Não é para ser descartável depois de usado.
Vivemos de utopias e realizações. A utopia anima o sonho. A realização desnuda
a realidade. Vivemos hoje um Brasil, Paraíba, momentos de muita reflexão e
tomada de posição. Pois a fila anda. E é preciso dar continuidade a vida. E
nossa vida está umbilicalmente enroscada na organização social, portanto
política, que criamos e chamamos de Estado Brasileiro. E achando boa a criação
do Estado Brasileiro, nós os humanos, criamos os governos e suas
representações. Seus poderes, nem tão necessariamente harmônicos, mas é o que
temos. Talvez não seja bem o que queríamos mais é até onde conseguimos chegar
ou deixamos chegar. Mas com todo esse impasse legal de disse-me-disse, é
preciso que seja dito algumas coisas. De minha parte dou minha contribuição ao
debate. Não peço concordância, peço apenas que seja ouvida/lida/discutida.
Eu tenho cinqüenta e um anos de Brasil. Dos quais trinta e um anos de vivência
na Paraíba. Aqui já trabalhei vinte e oito anos como professor e técnico da
SEC. Passei por vários governos, assisti muita coisa e vivi outras. Sempre vi
um governo atrás do outro, assumir o poder de mando no Estado e querer
implementar o ‘seu jeito’ de governar. Dirão que tudo isso é justo e com
certeza será. Mas esquecem de dizer que esses governos foram passageiros. Mas
o Estado que eles representavam não. E isso se perpetua até hoje. Mas não vejo
ninguém dizendo que dessa forma não vai dar certo. Pois eu digo que não vai.
Pois o Estado – a governança estadual – precisa ser preservada e as políticas
públicas implementadas apesar das mudanças governamentais.
Vamos sempre, como cidadão e/ou como sociedade, prescindir de alguma
organização mínima para que as coisas possam funcionar. O ideal seria que
todos tivessem as mesmas oportunidades e soubessem tomar conta de si, dos
outros e do mundo, sem necessariamente ferir os direitos alheios. Mas, como
dissemos no início do texto, a utopia nos anima a continuar na caminhada. Mas
precisamos ter resultados satisfatórios. E esses resultados é o que importa.
Pois sem eles nada do que fazemos por aqui vale a pena. Precisamos de um
Estado de Direito que flua. Que se perpetue por uma seqüência lógica de tempo,
com programas e projetos sendo concretizados, independentemente da mudança de
governos.
Nunca entendi (e claro, sempre entendi) porque a cada mudança de governo se
muda tudo e todos. O poder de quem assume um governo hoje, vai de nomear o
vigilante do prédio oficial até seu diretor mais renomado. A cada governo
reinventamos a roda. Pois cada um quer fazer do ‘seu jeito’ com o dinheiro de
todo mundo. Os impostos! Tantos e tão mal explicado sua aplicação que ‘ser
governo’ passou a ser um sentido em si mesmo. Muitos querem a chave do cofre
público. Mas poucos querem prestar conta de forma transparente. Que Estado é
esse que temos? Que Estado é esse que queremos? Essa é a pergunta de hoje. De
agora. Essa é nossa urgência.
O Estado Brasileiro de Direito, paraibano, tem que ter continuidade.
Independente do governo de plantão. Com programas e projetos claros, com
cargos de direção, formatados na base de carreiras administrativas. Com
começo, meio e fim. Com continuidade de governança e cumprimento dos planos
decenais, que deveriam nortear o funcionamento de um Estado voltado para
melhoria das condições de vida do seu povo. Um Estado que seja administrado
por governos eleitos – em regras claras e iguais em oportunidades – para
gerenciar um Estado que funcione, apesar do governo e não e apenas para seu
deleite. O Estado em última instância somos todos nós. Os governos são nossas
representações sociais, dirigentes, coletivos, que administrarão com a
participação e opinião direta do seu povo, para que os governos sejam
legítimos.
Já passou da hora de formatarmos um Estado Brasileiro de Direito, onde 98% do
seu aparato estatal sejam de carreira. Temos que acabar com esse festival de
nomeações a cada governo. Concurso público e carreira de trabalho definidas.
Cumprimentos legais através de programas e projetos que atendam e resolvam os
problemas do povo brasileiro, paraibano. Chega de usar o Estado como se ele
fosse um bem particular. De grupos que se revezam no poder. Pois isso não é um
Estado é uma Corte. E pelo que sabemos, também fizemos nossa queda da
Bastilha. O Imperador foi abolido. Mas o império nos parece querer resistir,
pois persiste. Temos que mudar essa lógica perversa de um Estado que observa e
privilegia - através do mando do governo - apenas seus mais diletos cidadãos.
Ou somos um Estado Brasileiro de Direito, paraibano, na busca do atendimento
do direito de todos ou seremos apenas um estado de coisas que nunca será o
Estado Brasileiro de Direito que queremos. Precisamos moralizar as práticas e
as relações políticas, com a construção de parâmetros éticos, onde os
princípios da legalidade, solidariedade, equanimidade, respeito, cuidado,
atenção, inclusão, divisão, justiça, oportunidade, segurança, possam ser não
apenas metas e projetos a ser perseguidos, mas uma realidade em nossa vida.
Sei que a utopia nos alimenta a alma. Sei da fragilidade dos interesses
pessoais, em detrimento dos coletivos. Sei da educação que não temos ainda.
Pois bem, precisamos rediscutir esse Estado de coisas. Pois não podemos mais
ficar olhando para a linha do horizonte esperando que apareça ‘o salvador da
pátria’. Pois a pátria só existirá se a gente tomar conta dela. Cuidar dela.
Fazer por onde sermos melhores por nossos próprios méritos. Pois sabemos fazer
as coisas. E temos um território belíssimo, rico de tudo. Mas precisamos
cuidar dele. De verdade. Sem essa ‘enrolação’ de que no ‘meu governo’ vocês
herdarão o paraíso. Cargos de confiança? De quem cara-pálida? Precisamos de
continuidade. Pois estamos cansados de ver as coisas do Estado sendo tratadas
na base da: ‘a única coisa que tem continuidade no Estado é a falta de
continuidade’. Deixemos de ser amadores. Passemos a ser armadores do nosso
próprio destino.
