Fico imaginando como ficarão os presídios (inferno na terra) com a queda da
idade penal de dezoito para dezesseis anos. De cara vamos ter que ‘acomodar’
mais vinte mil vítimas do nosso sistema social injusto. A quase totalidade de
negros, pobres e analfabetos. Vítimas que foram desse apartheid social
(www.terra.com.br/istoe/1781/educacao/1781_apartheid_social.htm) que
envergonha todos nós. Mais uma vez a hipocrisia das nossas autoridades
competentes – representantes na prática de nossa elite insensível – tenta
jogar pra platéia da sociedade atônita e atingida pela violência que grassa em
todos os cantos. As pesquisas estão provando que tudo está ruindo e as
autoridades ficam jogando o lixo embaixo do tapete.
Tratam-se os problemas sociais como se fosse caso de polícia. Com uma polícia
recrutada no meio dos trabalhadores para punir os trabalhadores, que sem
emprego e sem educação, enfim sem oportunidade de progressão social, torna-se
presa fácil dos descaminhos dessa vida. Se os trabalhadores se organizam para
exigir uma reforma agrária - que não sai do papel - condena-se o seu movimento
e seus líderes a penitenciária e aos rigores da lei. Se os nossos jovens não
encontram emprego e são presas fáceis do crime cada vez mais organizado,
prenda-se e dêem a eles a oportunidade se especializarem cada vez mais na
escola do crime que são nossas penitenciárias. Um atentado terrorista aos
nossos direitos humanos.
Não vemos ninguém pregando a diminuição de impostos para quem ganha menos e
nem tão pouco a tão sonhada distribuição de renda. O que se distribui mesmo no
Brasil é a falta de oportunidade. Essa é quase uma distribuição socialista,
pois atende a maioria da nossa população. Aqui quem paga imposto é quem não
tem condição de pagá-lo, pois o mesmo já vem embutido em tudo que consumimos.
Veja a injustiça de quem ganha um salário ínfimo de R$ 380,00 reais terem que
pagar os mesmos 40% de impostos embutidos em um quilo de açúcar, por exemplo.
Será que é justo alguém que ganha R$ 380,00 reais pagar os mesmos 40% de
imposto de quem ganha dez, vinte, cem, quinhentos salários mínimos de renda?
Pois é, mas estamos no Brasil onde uma elite insensível e desumana escava cada
vez mais o fosso que separa os 5% da população que tem direito ao céu na
terra, dos outros 95% que tem que pagar essa vida boa que eles levam. Basta
observar as páginas e mais páginas que se transformaram os segundos cadernos –
ditos culturais – recheados de colunas sociais (seriam calúnias?) onde
desfilam os ricos com suas festas, suas roupas chiques, cheios de jóias e suas
mulheres refesteladas em cirurgias plásticas e botox. Mas os filhos do povo
que se lasquem pra lá. Não têm nada a ver com isso. Até quando vamos suportar
tanta violência sabendo de fato de onde ela vem?
Não vamos sair dessa barafunda sem fazermos mudanças radicais por aqui. Não
adianta pagar as autoridades competentes salários milionários, pois eles não
vão conseguir parar a onda de violência que se avoluma e que vai tragar muita
gente ainda. Pois do jeito que vão as coisas ninguém – que esteja em solo
brasileiro – ficará livre de colher o que se está plantando. Justamente por
falta de justiça social e solidariedade humana. Não é uma questão de discurso
é uma questão de prática. Pois não vemos, a curto, médio e nem tão pouco em
longo prazo, indícios de que a coisa por aqui vai mudar. Muito pelo contrário,
as pesquisas têm mostrado que os problemas se agudizam a cada dia.
Já passou da hora de ficarmos só reclamando. Temos que agir e rápido. Enquanto
o lobo mau da violência que alimentamos com nossas injustiças não come todos
os nossos filhos e filhas, onde futuro algum nos espera. Esse pode ‘ser o
Brasil do futebol, do carnaval’, da cachaça, da mulata e até da putaria. Mas
com certeza não é o país que tanto sonhamos e que queremos ver como futuro
para os nossos filhos. É lamentável descobrir que desembargadores e juízes
dando o péssimo exemplo de dilapidarem os recursos públicos com seus super
salários vergonhosos (além da venda de sentenças) onde a justiça que eles
deveriam promover, fica ignorando solenemente que uma família não pode
sobreviver com um salário ínfimo como o que se paga hoje por 44 horas de
trabalho semanal. Logo eles que deveriam ser o espelho da decência e da
justiça como exemplo.
É bom abrimos os olhos, a mente, a consciência e o coração, pois pode ter
certeza, estamos embarcando num caminho sem volta. Ou agimos agora ou vamos
amargar cada vez mais a violência de que somos vítima. Ou aparecem fórmulas de
distribuição de renda e oportunidades no país ou vamos mesmo nos engalfinhar
numa guerra civil que já acontece em muitos lugares brasileiros. Notadamente
nas grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. A hora é agora, temos
que pressionar os governos por mudanças de rumo, pois esse curso em que o
Brasil se encontra está em rota de colisão social.
