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Enquanto seu lobo não vem

portalbip.com (Ivaldo Gomes) - 25/04/2007

Fico imaginando como ficarão os presídios (inferno na terra) com a queda da idade penal de dezoito para dezesseis anos. De cara vamos ter que ‘acomodar’ mais vinte mil vítimas do nosso sistema social injusto. A quase totalidade de negros, pobres e analfabetos. Vítimas que foram desse apartheid social (www.terra.com.br/istoe/1781/educacao/1781_apartheid_social.htm) que envergonha todos nós. Mais uma vez a hipocrisia das nossas autoridades competentes – representantes na prática de nossa elite insensível – tenta jogar pra platéia da sociedade atônita e atingida pela violência que grassa em todos os cantos. As pesquisas estão provando que tudo está ruindo e as autoridades ficam jogando o lixo embaixo do tapete.

Tratam-se os problemas sociais como se fosse caso de polícia. Com uma polícia recrutada no meio dos trabalhadores para punir os trabalhadores, que sem emprego e sem educação, enfim sem oportunidade de progressão social, torna-se presa fácil dos descaminhos dessa vida. Se os trabalhadores se organizam para exigir uma reforma agrária - que não sai do papel - condena-se o seu movimento e seus líderes a penitenciária e aos rigores da lei. Se os nossos jovens não encontram emprego e são presas fáceis do crime cada vez mais organizado, prenda-se e dêem a eles a oportunidade se especializarem cada vez mais na escola do crime que são nossas penitenciárias. Um atentado terrorista aos nossos direitos humanos.

Não vemos ninguém pregando a diminuição de impostos para quem ganha menos e nem tão pouco a tão sonhada distribuição de renda. O que se distribui mesmo no Brasil é a falta de oportunidade. Essa é quase uma distribuição socialista, pois atende a maioria da nossa população. Aqui quem paga imposto é quem não tem condição de pagá-lo, pois o mesmo já vem embutido em tudo que consumimos. Veja a injustiça de quem ganha um salário ínfimo de R$ 380,00 reais terem que pagar os mesmos 40% de impostos embutidos em um quilo de açúcar, por exemplo. Será que é justo alguém que ganha R$ 380,00 reais pagar os mesmos 40% de imposto de quem ganha dez, vinte, cem, quinhentos salários mínimos de renda?

Pois é, mas estamos no Brasil onde uma elite insensível e desumana escava cada vez mais o fosso que separa os 5% da população que tem direito ao céu na terra, dos outros 95% que tem que pagar essa vida boa que eles levam. Basta observar as páginas e mais páginas que se transformaram os segundos cadernos – ditos culturais – recheados de colunas sociais (seriam calúnias?) onde desfilam os ricos com suas festas, suas roupas chiques, cheios de jóias e suas mulheres refesteladas em cirurgias plásticas e botox. Mas os filhos do povo que se lasquem pra lá. Não têm nada a ver com isso. Até quando vamos suportar tanta violência sabendo de fato de onde ela vem?

Não vamos sair dessa barafunda sem fazermos mudanças radicais por aqui. Não adianta pagar as autoridades competentes salários milionários, pois eles não vão conseguir parar a onda de violência que se avoluma e que vai tragar muita gente ainda. Pois do jeito que vão as coisas ninguém – que esteja em solo brasileiro – ficará livre de colher o que se está plantando. Justamente por falta de justiça social e solidariedade humana. Não é uma questão de discurso é uma questão de prática. Pois não vemos, a curto, médio e nem tão pouco em longo prazo, indícios de que a coisa por aqui vai mudar. Muito pelo contrário, as pesquisas têm mostrado que os problemas se agudizam a cada dia.

Já passou da hora de ficarmos só reclamando. Temos que agir e rápido. Enquanto o lobo mau da violência que alimentamos com nossas injustiças não come todos os nossos filhos e filhas, onde futuro algum nos espera. Esse pode ‘ser o Brasil do futebol, do carnaval’, da cachaça, da mulata e até da putaria. Mas com certeza não é o país que tanto sonhamos e que queremos ver como futuro para os nossos filhos. É lamentável descobrir que desembargadores e juízes dando o péssimo exemplo de dilapidarem os recursos públicos com seus super salários vergonhosos (além da venda de sentenças) onde a justiça que eles deveriam promover, fica ignorando solenemente que uma família não pode sobreviver com um salário ínfimo como o que se paga hoje por 44 horas de trabalho semanal. Logo eles que deveriam ser o espelho da decência e da justiça como exemplo.

É bom abrimos os olhos, a mente, a consciência e o coração, pois pode ter certeza, estamos embarcando num caminho sem volta. Ou agimos agora ou vamos amargar cada vez mais a violência de que somos vítima. Ou aparecem fórmulas de distribuição de renda e oportunidades no país ou vamos mesmo nos engalfinhar numa guerra civil que já acontece em muitos lugares brasileiros. Notadamente nas grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. A hora é agora, temos que pressionar os governos por mudanças de rumo, pois esse curso em que o Brasil se encontra está em rota de colisão social.

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