Lendo, esta semana, algumas publicações sobre os gêneros
da cantoria de viola, percebi quanto os poetas populares se adaptaram ao
belo e curioso Galope a Beira Mar. Considerada uma estrofe relativamente
difícil de compor, sobretudo, em improviso, o galope, ao lado do Martelo,
recebeu a denominação de décima de versos cumpridos. Só que no caso do
galope os poetas populares o utilizam quando a peleja resgata temas
praieiros. Seus versos devem ser bem colocados em uma grade de dez linhas,
cada uma delas com onze sílabas e um estribilho que sempre termina com a
palavra mar.
De acordo com o livro Antologia Ilustrada dos Cantadores, página 51, o
Galope a Beira Mar é uma criação do violeiro José Pretinho, natural do
município de Morada Nova/CE. Diz a história que, após José Pretinho ter
perdido um duelo em martelo do seu colega Manoel Vieira Machado, chegou a
capital do Ceará e na famosa praia de Iracema, observando o movimento das
águas do mar, percebeu que as ondas parecem com o galope dos cavalos tão
marcante nas fazendas do interior nordestino, onde José Pretinho por muito
tempo foi vaqueiro de coronel. Depois que criou o estilo, procurou de
imediato seu algoz e devolveu a surra em um bonito desafio no mais
categórico galope.
Mergulhão de Sousa, contudo, foi o cantador responsável por difundir o
gênero em todo o Nordeste e outros estados brasileiros. Mas, Dimas
Batista, o irmão do meio da trindade dos Batista, foi um dos poetas
populares que mais se identificou com o Galope a Beira Mar e que mais
criou estrofes de peso histórico dentro do estilo. De improviso, como era
de costume fazer os grandes repentistas, Dimas Batista, entre tantas
outras pérolas da cantoria, lança esta estrofe em galope que está
imortalizada em diversos livros especializados:
Eu cantando a galope ninguém me humilha
Tudo que existe no mar eu aproveito
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
Em navio, em proa, em bússola em milha,
Medindo a distância para viajar,
Não quero da rota jamais me afastar
Porque me afastando o destino sai torto;
Confio em Deus avistar o meu porto
Cantando galope na beira do mar
