Nos meus quase trinta anos de Promotor já vi e ouvi muitas coisas e estórias inusitadas, envolvendo os personagens que atuam nos meandros do Judiciário. Por isso, reuni cerca de cem dessas estórias e publiquei-as no livro “Crônicas Forenses: o dia-a-dia da Justiça”. Mas, o mundo jurídico é muito dinâmico e não para de criar novas situações, algumas inusitadas, outras inverossímeis. Recentemente, em São Paulo, um Promotor de Justiça pediu desculpas aos seus jurisdicionados depois que um gato de sua estimação estragou os autos de um inquérito policial.
O inquérito danificado pelo gato do promotor tem como alvo um caso envolvendo um acusado de roubo. O próprio representante do Ministério Público esclareceu para a Justiça e a Imprensa o episódio: “Esclareço que o depoimento juntado às fls. [folhas] 19 foi danificado por meu gato de estimação, que se aproveitou de minha ausência momentânea do quarto em que trabalhava, por cerca de três minutos."
A declaração do promotor de Justiça Fernando Henrique de Arruda faz parte de um documento enviado por ele, no final do mês de agosto deste ano, ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Tudo para tentar salvar sua responsabilidade e justificar os estragos causados em um inquérito policial que estava sob seus cuidados. E, demonstrando zelo na profissão que exerce, o fiscal da lei acrescentou:
"Tal evento foi imprevisível, já que ele [o gato] nunca fez isso antes. Tentei recompor a folha com fita durex, dentro do que foi possível, mas o teor do depoimento, ao menos, permaneceu íntegro". O fato despertou a atenção de jornalistas da cidade de São Paulo, mas, ao ser procurado pela Imprensa, o promotor afirmou, por meio da assessoria de imprensa do Ministério Público Estadual, que não quer falar sobre o incidente envolvendo seu animal de estimação. E que, o que haveria de dizer está no documento enviado aos seus superiores e ao Tribunal de Justiça.
A assessoria de imprensa do Ministério Público, diante da repercussão inusitada do caso, defendeu o promotor:
"O doutor Fernando não concederá entrevista porque, segundo ele, se tratou de um incidente isolado em vinte anos de carreira. As páginas danificadas foram reconstituídas e não houve prejuízo ao inquérito. Além do mais, em sua justificativa ao Tribunal de Justiça, o promotor pediu desculpas à sociedade”.
Já vi casos piores do que esse do gato do Promotor. Certa vez recebi de um Delegado de Polícia de Água Branca, que pertencia à Comarca de Teixeira, um Inquérito Policial com um “exame cadavérico de um jumento”. Quando era Promotor em Campina Grande escutei a história de um advogado que “engoliu” um cheque emitido por seu cliente e que eras peça chave do processo. Vi o processo, na mesma Comarca, de uma criança que atirou pedras no cachorro da vizinha e esse processo foi parar no Supremo Tribunal Federal.
Mas, com certeza outras estórias virão, pois o dia-a-dia da Justiça é dinâmico, inusitado e recheado de cenas humorísticas.

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