portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 28/12/2009
É muito comum a existência de um ou mais retardatários que não querem
ir embora de jeito nenhum de bares e restaurantes. Quantos garçons e
barmans já ficaram de plantão até o dia amanhecer, esperando pela boa
vontade dos que buscam no bar o refúgio para suas vidas atribuladas! E
quantos garçons ou donos de bar não se transformaram em psicólogos e
psicoterapeutas?
Desabafar com o barman não equivale a um tratamento psicológico, mas
pode ajudar a preencher uma necessidade, diz a professora do Instituto
de Psicologia da USP, Leila Salomão Tardivo. Ela afirma que há pessoas
que sentem necessidade de se abrir e encontram no barman uma fonte de
empatia e carinho. "Isso acontece com o cabeleireiro também. São
pessoas que podem emprestar um ouvido atento, aliviar e dar apoio ao
cliente" – falou a pesquisadora.
Mas o fato é que as queixas e lamúrias de clientes em bares fazem de
garçons os "psicólogo" da noite. Que o diga o conhecido cantor
Reginaldo Rossi, com a sua música “garçom, aqui, nesta mesa de bar...”
Pessoas com problemas de relacionamentos (maridos traídos, filhos
frustrados, pais incompreendidos) buscam, muitas vezes, na mesa de
bar, refrigério para suas mágoas. E, assim, os balcões e mesas de
botecos na cidade abrigam clientes de divãs improvisados para aqueles
que querem desabafar As histórias mais comuns ouvidas pelos barmans
são as de amor, relatadas pelos que exageram na bebida para esquecer
uma traição.
Na minha época de estudante, presenciei (Ah!, bons tempos da Bambu, do
Pietro´s, do Luzeirinho) garçons que levavam clientes embriagados em
casa, que davam conselhos, que emprestavam dinheiro.
Uma vez escutei um garçom contar:
- Tive um cliente que havia sido traído. Ele bebeu oito caipirinhas,
pulou para dentro do bar e começou a gritar o nome da mulher. Estava
desesperado. Tentei acalmá-lo, dar uma palavra amiga.
A maioria dos clientes que bebem sozinhos precisa mesmo é de atenção.
Há pessoas, como vaticinam os “psicólogos da noite”, que só se abrem
depois de duas ou três doses. Chegam taciturnos, acabrunhados, mas,
depois da segunda dose, deitam falação. Uns são “pobres coitados”,
desprezados pela mulher, odiados pelos filhos. Outros, ao contrário,
são riquíssimos, donos de propriedades e carrões, têm várias mulheres.
Mas os garçons já conhecem o perfil de todos os bebedores. Há os que
falam demais antes de beber e, depois da primeira dose, caem num
mutismo inexplicável. E há os que gastam sem limites, mesmo que seja
no cartão de crédito.
Garçons mais simpáticos, tidos como "acessíveis", acabam dando mais
atenção ao cliente. Era o caso de “Biu”, antigo garçom do Pietro´s da
Lagoa. Baixinho, simpático, do tipo que todos cumprimentam ao entrar
no bar: "E aí, Biu, a família vai boa?" Ele contou que uma vez foi
abordado por um cliente que chorava de saudades da mãe, que havia
morrido. Biu, que também já perdera a mãe, disse a ele que entedia
perfeitamente como era sentir-se daquele jeito. E desatou a chorar no
ombro do cliente. Ficaram amigos.
- Pois é, comentou o dono da Fava do Bosco, na Av. João Machado, no
ramo há mais de quarenta anos: quem nunca chorou suas mágoas na mesa
de bar que atire o primeiro copo..