portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 20/12/2009
O curso de Direito da UFPB (graduação e mestrado) agora funciona no
campus I, conhecido como Cidade Universitária. Em um intervalo de
aulas, por volta das 10 horas da manhã, dirigi-me a uma lanchonete que
fica próxima da Central de Aulas. Antes de chegar à casa de lanches
(uma barraca grande, circundada por mesas e cadeiras), deparei-me com
uma situação que nunca vira antes nos ambientes universitários: várias
mesas daquele ambiente estavam ocupadas por jovens que jogavam dominó
ou baralho.
Lanchei em pé mesmo porque não havia cadeiras ou mesas disponíveis. E
fiquei a observar a meninada. Gritos, pancadas nas mesas, palavrões,
tudo compunha um cenário nada parecido com o silêncio das bibliotecas
universitárias. E, em alguns casos, jogava-se a dinheiro, com fichas e
tudo para controlar “crédito e débito”.
Com a atenção fixada nas mesas de carteado e dominó, lembrei de uma
pesquisa recente, realizada nas Universidades de São Paulo. Diante da
frase "baladas e jogos me motivam mais do que as aulas", apenas 16,1%
dos estudantes das universidades da capital e região metropolitana de
São Paulo disseram discordar totalmente. Uma expressiva parcela
(52,3%) admitiu que fumou maconha; muitos certamente preferiam não
revelar nada. Beijar na boca várias pessoas numa única noite é rotina.
O resultado é que muitos enxergam no ensino superior um espaço de
prazer, onde se misturam baladas, jogos, drogas e sexo.
Valorizar mais as baladas, os jogos de mesa e as constantes festas
universitárias do que as aulas seria apenas uma fase passageira,
típica da liberdade e transgressão juvenis? Acredito que, em parte,
sim. Ali há muitos jovens que estão preocupados com o futuro, com a
carga de leitura, com a seriedade que deve imperar no ambiente
universitário. O dominó e o carteado poderiam até servir de válvula de
escape para os problemas diários. Mas, não, uma rotina e fonte de
prazer diário, como percebi pelos rostos e gestos daqueles
universitários.
Não quero, neste importante espaço, empunhar discurso moralista nem
saudosista. Não vou aqui dizer que “no meu tempo” (Lucas Suassuna,
Tarcísio Burity, Paulo Bezerril) não se jogava nas Faculdades, não se
tomava cerveja, não se beijava na boca abertamente. Todos sabemos que
o passado não foi melhor do que o presente e que o futuro, apesar das
incertezas, tende a ser melhor. Não vamos deixar de entender que a
juventude é um período, às vezes arriscado, de testes de limites e
experimentos. Mas, vamos devagar com o andor. Um pouco de ordem no
Campus não custa nada!
Observando aqueles jovens, verifiquei a presença maior de
universitárias. E era da boca de algumas delas que saíam os maiores
palavrões. E havia um, preferido, que era dito a todo o momento,
ganhassem ou perdessem: “carai”! Fico imaginando se, num futuro breve,
as salas de aula não se transformarão num imenso cassino, os livros
das bibliotecas serão substituídos por cartas de baralho e pedras de
dominó e de dama e as lanchonetes deixarão de vender apenas lanches
para apresentarem o cardápio de verdadeiras cervejarias.