No mês de novembro de 2008, Magali e George, que já viviam juntos há
seis anos e tinham duas filhas, resolveram dar entrada nos papéis para
regularizar sua situação conjugal e marcaram o casamento para janeiro
de 2009. Mas dois dias depois, George sofreu um acidente fatal.
Magali, desesperada, procurou um advogado, já que viviam na França e
não tinham qualquer contato com o mundo jurídico daquela país.
O advogado disse-lhe que havia uma possibilidade de resolver o
problema judicialmente, por conta de um artigo do Código Civil Francês
que permite o casamento com uma pessoa falecida se ela já havia
oficialmente dado início ao processo formal para realizar a união.
Magali, apesar de estupefata, comunicou o fato às filhas e aos
familiares residentes no Brasil. Apesar da lei, o casamento póstumo é
raro em França, com apenas algumas dezenas de casos registrados por
ano no país. Para conseguir realizar a sua união com a pessoa
falecida, o (a) interessado (a) tem de se submeter a um processo
judicial, de certa forma longo e exigente, pois não é todo dia que se
pode casar com um morto.
Sob a orientação do advogado, Magali teve de esperar que o processo
passasse por várias etapas e duas instâncias, até a decisão final
proferida alguns meses depois.
- Estou bastante nervosa – disse Magali à sua mãe pelo telefone.
- Mas, minha filha, respondeu a mãe que mora no Brasil – você acha
mesmo necessário esse casamento?
- Claro, mamãe. É a memória de Jonathan que está em jogo. E, se a lei
permite, vamos casar.
No dia determinado pela Justiça, Magali botou o melhor vestido, chamou
as filhas e alguns vizinhos e rumou para o Fórum. A cerimônia foi
realizada no prédio da Prefeitura da cidade de Dom Mary-Baron, que
fica no leste da França. Na ocasião, Magali usou o vestido de noiva
comprado há um ano. A seu lado, estava uma grande foto de George
colocada sobre um cavalete.
Na ocasião, depois do pregão realizado pelo meirinho local, o juiz
perguntou se havia algum impedimento para aquela cerimônia. Como
ninguém se manifestou, procedeu ao enlace:
- Diante de Deus e da Justiça, considero-os marido e mulher!
Magali não escondeu uma lágrima. As filhas, idem. Um repórter de
jornal perguntou a ela se estava feliz. Respondeu:
Não estou muito animada para festejar. Vou tomar um chá com algumas
pessoas amigas, para agradecer àqueles que me apoiaram.
Pela lei francesa, Magali agora passa a ser considerada oficialmente
como viúva. Agradeceu ao juiz:
- Doutor, muito obrigada. George foi
e é o meu único amor.
Um advogado, presente à cerimônia, alfinetou:
- Tal como em algumas pregações religiosas, os dois ficarão
eternamente juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
E Magali completou:
- Doutor, mesmo casando com a fotografia do meu amado, ficaremos
juntos por todos os dias da nossa vida. Quer dizer, minha vida...
E o advogado:
- Ainda bem que esse tipo de casamento não pode ser realizado no
Brasil. Se a moda pega por lá..