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Processos perdidos

portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 23/08/2009
Na minha rápida passagem pela advocacia (profissão bonita, mas trabalhosa) dirigi-me num determinado dia a uma das Varas da Fazenda da Capital, buscando agilizar o andamento de um processo. Primeiro, na recepção do Fórum, o advogado passa pelo funil de recolher a ficha, esperar a chamada e pedir ao funcionário para ver o “andamento do processo”. Estava “concluso ao juiz”.

Já no Cartório, vinte minutos depois, fui atendido por uma servidora que informou:

- Ah, doutor, esse processo é com fulana, mas ela está de licença.

- Mas, minha cara senhora – retruquei – o processo está concluso ao magistrado. Não dá para verificar se está na mesa dele ou se foi exarado algum despacho?

- Não, senhor. Aqui cada uma mexe com os seus processos.

Chamei uma outra funcionária (que jogava paciência no computador), implorei e, muitos minutos depois, a atendente retorna de mãos vazias.

- Doutor, não encontrei seu processo. O senhor é advogado militante, sabe como são essas coisas, esses sumiços não provocados aqui nas Varas da Fazenda.

- Como assim, não achou? - perguntei, insistindo que a última e recente informação fora a publicação de uma nota de expediente.

- Não achei! Deve estar em outra pilha, ou em mesa errada, quem sabe dentro de uma caixa, ou caído atrás do armário. O senhor pode ver que não há espaços. Ou até na casa do juiz. Dê-me um tempo, volte mais tarde ou outro dia.

- Mas, minha senhora, preciso com urgência desse processo. O meu prazo em outro processo está correndo e necessito de umas cópias...

- Não se preocupe! Se o senhor quiser, lhe dou uma certidão.

- Não, minha cara senhora. Eu não preciso de certidão, mas de documentos do processo.

E revirando os olhos, a servidora foca o interior do cartório, apontando para as prateleiras e admitindo:
- Isto aqui, doutor, é um caos oficial, do qual sou mera figurante.

Pedi para procurar o processo. Afinal, conhecia a aparência externa dos vários volumes, amarrados com um cordão de náilon. A servidora concorda:

- Se o senhor quiser, pode entrar, mas duvido que o encontre!...

Nisso, o juiz abre a porta de sua sala (havíamos trabalhado juntos: eu como Promotor, ele como escrivão), pergunta o que estou fazendo ali, relato tudo, ele me manda entrar, serve um cafezinho.
Chama os três funcionários e ordena:

- Quero esse processo agora!

Após poucos minutos de procura no lugar indicado pela primeira que me atendera como "o possível”, um dos servidores encontra os volumosos autos. Estavam embaixo de uma pilha de processos em uma estante da sala do juiz.

- Estão aí, doutor – disse o juiz. Quer fazer algum requerimento?

- Não, doutor, muito obrigado. Só quero umas cópias xerográficas. Da próxima vez, ao invés de me dirigir ao balcão, venho direto para sua sala. E com direito a um cafezinho, Excelência.

- Cafezinho, tudo bem, mas se me chamar de excelência, eu mesmo esconderei os processos...

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