portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 04/08/2009
Leio, estarrecido, nos jornais de algumas grandes capitais
que “aluno tem aula de madrugada em centro universitário”. E mais: os
horários alternativos são previstos a partir das 5h45 ou após as 23h e a
mensalidade mais barata funciona como principal atrativo desses cursos.
Se levarmos em conta o ensino tradicional, que não era tão bom assim,
poderemos observar que os horários eram uniformes. Estudava-se de manhã ou
à noite. Pela tarde, só primeiro e segundo graus, que a tarde era
destinada ao trabalho. Quem trabalhava não podia estudar.
Mas, agora, chega a inovação: estudar de madrugada! Tudo começou com um
grupo de garçons jogando bola de madrugada no Aterro do Flamengo, no Rio.
Isso despertou em um empresário a idéia de criar horários alternativos em
cursos universitários para atrair quem sai muito tarde do trabalho -ou não
tem tempo de dia.O empresário, que é pró-reitor do centro universitário
UniÍtalo, em Santo Amaro (zona sul de SP) concluiu que “se tinham
disposição para jogar bola naquele horário, poderiam estar estudando".
O referido Centro Universitário inaugurou no horário das 5h45 às 8h30 uma
turma de administração de empresas. Em janeiro deste ano, criou uma
segunda opção de horário, das 23h à 1h45, abriu mais quatro turmas e
acrescentou cursos de tecnologia de recursos humanos e pedagogia. Agora já
são mais de trezentos alunos. A carga horária é a mesma dos cursos
diurnos, porém, redistribuída. A conclusão do curso se dá em 22 semanas,
com aulas de três horas, e não em 17 semanas, com aulas de quatro horas.
Nós, que militamos diuturnamente em Faculdades, Universidades e Cursos de
Pós-Graduação e que sabemos das deficiências e falhas no sistema atual,
poderemos imaginar como será o rendimento de um curso desse tipo. Sabe-se
que os Centros Universitários têm autonomia para isso (assim como as
Universidades), mas devem, obrigatoriamente, oferecer um volume expressivo
de pesquisa e cursos de extensão. Imagine-se, também, a disposição e o
estado de espírito dos professores para ministrarem aulas nesse horário.
Para facilitar a divulgação da iniciativa e atrair outros entusiastas, as
mensalidades são mais em conta do que as dos horários convencionais.
Paga-se em torno da metade da mensalidade de um curso convencional. E
alguns dirigentes ainda têm o desplante de advertir: “é mais fácil o aluno
ter sono na aula das 14h, depois do almoço, do que na das 23h”.
Pode até significar uma excelente iniciativa, beneficiando aqueles que
trabalham muito e propiciando um ensino mais barato para os que não
ostentam boas condições financeiras. Mas, diante daquilo que assistimos
atualmente, quando Cursos Superiores de “ponta de rua” prometem “ensino de
qualidade a preços módicos” e o ensino superior virou um verdadeiro
“comércio”, ficamos ressabiados. Tanto é assim que o idealizador desses
cursos de madrugada não se denomina educador, mas “empresário”.