A dona da famosa loja DASLU, Eliana Tranchesi foi presa
duas vezes e condenada a quase cem anos de prisão. Antes, a senhora da
sociedade se envolveu numa disputa sócio-jurídica-zonal com a senhora
Gabriela Leite, definida por ela mesma como prostituta aposentada (é esse
o termo que escreve em fichas de hotéis). Gabriela é mais conhecida como a
criadora da Daspu - corruptela para Das Putas - a grife dirigida a
"mulheres da vida", que causou polêmica com a loja de luxo Daslu ao ser
lançada em 2005.
No passado o comum era a polícia bater e prender prostitutas. Estas, na
sua fase áurea, corrompiam policiais e eram o “calo” das senhoras da
sociedade, acusadas de conquistar seus maridos e de praticar com eles toda
sorte de orgias sexuais. A dona da Daslu e outras socialites tinham
direito a estar nas colunas sociais, onde eram relatadas festas famosas,
chás e aniversários pomposos. As prostitutas se contentavam com as páginas
policiais e um ou outro ramalhete de flores de um rufião apaixonado.
Com essa inversão, Eliana foi parar na cadeia e Gabriela, que trabalhou
como prostituta entre os anos 70 e 80, é hoje a maior "líder trabalhista"
da profissão no Brasil, com direito ao lançamento de sua biografia
("Filha, Mãe, Avó e Puta"), pela Editora Objetiva, que já chegou às lojas
do ramo. Trabalhou como prostituta em São Paulo, no Rio e em Belo
Horizonte e já tinha contado sua história em outro livro: "Eu, Mulher da
Vida" (Rosa dos Tempos), de 1992.
Quando a Daspu foi lançada, Eliana e as "senhoras do bem” esbravejaram
tanto que a loja das putas fez enorme sucesso. Nunca imaginaram que a
Daspu fosse repercutir tanto. A Daslu ameaçou processar a ONG Davida,
presidida por Gabriela, idealizadora da Daspu, para que desistisse do nome
inspirado na grife paulistana. Gabriela indagava: “Será que só grã-fina
tem direito a grife? E minhas meninas, que elas diziam ser de vida fácil,
não têm o direito de progredir?”.
Gabriela lamentou o fato da prisão da dona da Daspu. "Essa prisão é uma
coisa desumana. Como podem prender uma pessoa doente? Acho absurdo, espero
que ela seja solta logo”. Talvez o mesmo não acontecesse por parte de
Eliana se Gabriela e suas meninas tivessem sido presas. Mas a vontade de
Gabriela foi feita e Eliana deixou a prisão algumas horas depois.
No livro, Gabriela assume que a polêmica com a loja acabou sendo um ótimo
negócio para a Daspu. A Daslu, tão festejada pela Imprensa e pelos
corifeus da sociedade, contribuiu decisivamente para a visibilidade da
marca quando abriu um processo contra Gabriela e suas meninas. Estas, como
associadas da Ong Davida, têm como principal objetivo lutar contra
preconceitos.
Nas entrevistas que concede regularmente aqui e no exterior, Gabriela faz
questão de falar que é prostituta aposentada e não sente vergonha de nada
do que fez. Detesta a denominação politicamente correta de "profissionais
do sexo", tão bem aceita por Eliana e sua turma. Adora o termo “puta”. Ela
acha que esse termo tem de ser bem absorvido por suas colegas, inclusive
porque é um dos maiores xingamentos que usam contra os seus filhos.
Gabriela, igualmente a Eliana, é casada e mãe de duas filhas já adultas
(uma foi criada pelo pai, outra por sua mãe) e já fez muita vergonha a
elas por não negar o trabalho que exerceu. Uma vez, estava no aniversário
da sua neta, com todos aqueles casais chics conversando, quando lhe
perguntaram o que fazia. Respondeu: "Sou puta aposentada". Foi um
transtorno, as filhas ficaram desesperadas, choraram. Gabriela hoje vive
em congressos internacionais. Mas não deixa de ter saudade do passado.
Eliana não vive em congressos, mas freqüenta, principalmente,
importadoras. Ambas foram felizes e infelizes ao seu modo. Mas, como diz a
escritora da Daspu “ninguém é feliz a toda hora, em nenhuma profissão".
