Um Tribunal de Justiça de determinado estado nordestino
costumava - entre outras mordomias aos desembargadores -
proporcionar-lhes, no último andar do prédio, uma sala com serviços de
corte de barba e cabelo, prestados por servidor público devidamente
nomeado. Era o barbeiro oficial do Judiciário. Prática, aliás, bem antiga
nos palácios estaduais e federal.
Sempre bem vestido, polido e cultor dos termos jurídicos praticado pelos
magistrados, o barbeiro tratava a todos com educação, mas também gostava
de dar palpites sobre casos judiciais polêmicos.
Certo dia - ainda antes do advento da Internet - a capital onde estava
situado o Tribunal foi sede de um encontro nacional de magistrados. Um
desembargador sulista foi ali passear, mas aproveitou para se inteirar
sobre a evolução do direito e as decisões pioneiras da justiça daquele
estado Depois de um dia intenso de palestras e debates, encerrados os
trabalhos, alguns dos magistrados reuniram-se em um restaurante situado na
frente do prédio do TJ, aproveitando o clima agradável de fim de tarde,
para olhar as belezas da Praça e curtir um papo gostoso.
Foi então que o desembargador do estado sulista se aproximando de um
colega nordestino, aproveitando para questionar sobre as posições
inovadoras e as sentenças surpreendentes de uma juíza local, que era dada
a sentenças consagradoras de união estável entre pessoas do mesmo sexo,
reconhecendo sempre os direitos de gays e lésbicas. O magistrado visitante
queria saber, também, "sobre as posições do tribunal daqui sobre esses
casos de homem com homem, mulher com mulher".
Exatamente neste momento, deixava o prédio do Tribunal - bem-vestido como
sempre - o barbeiro da casa. Habitualmente gentil, sorria e se despedia de
todos. Convidado pela maioria, o barbeiro judicial foi colocado na roda e,
de imediato, serviu-se do bom wiskie servido aos magistrados. E, já
pegando o mote da discussão, foi logo perguntando:
- Mas os ilustres desembargadores não estão aqui a discutir questões
jurídicas, não? Esse momento é propício a que se fale de praia, mulher e
futebol. Vossas Excelências já devem estar cansados de tanto juridiquês.
Um desembargador local, conhecendo bem o barbeiro, anunciou:
- Apresento-lhes, caros amigos, o colega aqui, que é especializado em
causas de família e poderá melhor lhes explicar as novas posições...
Os desembargadores visitantes ficaram ansiosos para aprender. E o barbeiro
- fazendo as vezes de desembargador - informou, nariz empinado, com voz
pausada e gestos teatrais:
- As posições jurídicas sobre as quais temos decidido são as deitadas, as
sentadas, as laterais, as da mulher por cima, as da mulher por baixo,
mènage a trois, etcetera. Também temos debatido muito sobre o artigo n.º
69 do Código da Vida. E na semana passada julgamos, também, o caso inédito
de um curioso, que veio do sul, tem jeito de macho, mas segundo o promotor
da comarca, seria discreto admirador do homossexualismo.
Quando os visitantes pareciam não entender mais nada, uma forte risada
geral foi ouvida, acabando com o clima de seriedade. Foi então que o
"erudito" suposto desembargador apresentou-se pessoalmente:
- Muito prazer, eu sou o barbeiro da corte.
