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João Pessoa - PB -

Barba, cabelo e bigode

portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 21/04/2009

Um Tribunal de Justiça de determinado estado nordestino costumava - entre outras mordomias aos desembargadores - proporcionar-lhes, no último andar do prédio, uma sala com serviços de corte de barba e cabelo, prestados por servidor público devidamente nomeado. Era o barbeiro oficial do Judiciário. Prática, aliás, bem antiga nos palácios estaduais e federal.

Sempre bem vestido, polido e cultor dos termos jurídicos praticado pelos magistrados, o barbeiro tratava a todos com educação, mas também gostava de dar palpites sobre casos judiciais polêmicos.

Certo dia - ainda antes do advento da Internet - a capital onde estava situado o Tribunal foi sede de um encontro nacional de magistrados. Um desembargador sulista foi ali passear, mas aproveitou para se inteirar sobre a evolução do direito e as decisões pioneiras da justiça daquele estado Depois de um dia intenso de palestras e debates, encerrados os trabalhos, alguns dos magistrados reuniram-se em um restaurante situado na frente do prédio do TJ, aproveitando o clima agradável de fim de tarde, para olhar as belezas da Praça e curtir um papo gostoso.

Foi então que o desembargador do estado sulista se aproximando de um colega nordestino, aproveitando para questionar sobre as posições inovadoras e as sentenças surpreendentes de uma juíza local, que era dada a sentenças consagradoras de união estável entre pessoas do mesmo sexo, reconhecendo sempre os direitos de gays e lésbicas. O magistrado visitante queria saber, também, "sobre as posições do tribunal daqui sobre esses casos de homem com homem, mulher com mulher".

Exatamente neste momento, deixava o prédio do Tribunal - bem-vestido como sempre - o barbeiro da casa. Habitualmente gentil, sorria e se despedia de todos. Convidado pela maioria, o barbeiro judicial foi colocado na roda e, de imediato, serviu-se do bom wiskie servido aos magistrados. E, já pegando o mote da discussão, foi logo perguntando:

- Mas os ilustres desembargadores não estão aqui a discutir questões jurídicas, não? Esse momento é propício a que se fale de praia, mulher e futebol. Vossas Excelências já devem estar cansados de tanto juridiquês.

Um desembargador local, conhecendo bem o barbeiro, anunciou:

- Apresento-lhes, caros amigos, o colega aqui, que é especializado em causas de família e poderá melhor lhes explicar as novas posições...

Os desembargadores visitantes ficaram ansiosos para aprender. E o barbeiro - fazendo as vezes de desembargador - informou, nariz empinado, com voz pausada e gestos teatrais:

- As posições jurídicas sobre as quais temos decidido são as deitadas, as sentadas, as laterais, as da mulher por cima, as da mulher por baixo, mènage a trois, etcetera. Também temos debatido muito sobre o artigo n.º 69 do Código da Vida. E na semana passada julgamos, também, o caso inédito de um curioso, que veio do sul, tem jeito de macho, mas segundo o promotor da comarca, seria discreto admirador do homossexualismo.

Quando os visitantes pareciam não entender mais nada, uma forte risada geral foi ouvida, acabando com o clima de seriedade. Foi então que o "erudito" suposto desembargador apresentou-se pessoalmente:

- Muito prazer, eu sou o barbeiro da corte.

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