Acostumado desde os doze anos a respeitar os dogmas da
Igreja Católica (estudei no Seminário Franciscano, de Lagoa Seca),
continuo professando a fé cristã, assistindo às missas dominicais, enfim,
levando uma vidinha normal de um católico mediano.
Mas, fico irritado quando assisto pela TV ou leio através dos jornais
disparates como o que partiu do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José
Cardoso, a respeito do estupro da menina de nove anos. Aliás, disparates
partidos de bispos do Nordeste não é novidade alguma, como bem pode
atestar o padre Luiz Couto, defensor ativo dessas meninas e das vítimas de
pistoleiros de aluguel.
Então, caros leitores, o médico que providenciou o aborto da menina vítima
do padastro monstro pode ser excomungado e este último não? A mãe da
menina, tão violentada quanto esta, deverá ser excluída da Igreja
Católica, só porque tentou salvar sua vida? Então aquela criança deveria,
segundo regras da Igreja Católica, conviver com o produto da
monstruosidade de um insensato, mesmo contra todas as regras da natureza
humana? Será que o Direito Canônico está acima da moral, do direito
natural, das regras de convivência? Será que o bispo de Olinda e Recife (e
os cultores dos cânones católicos) sabem o que significa “dano moral?”.
Vítimas de estupro, via de regra, passam todo o seu tempo de vida de forma
depressiva, cheias de problemas psicológicos, quando não desandam para o
álcool, as drogas, a prostituição. Não seria um crime, além do que foi
cometido pelo padrasto, o que setores da Igreja Católica querem fazer com
essa pequena vítima? Então o médico e a mãe da criança são os verdadeiros
criminosos?
Calma aí, Dom José. A Cúria Metropolitana saiu em defesa do arcebispo
excomungador. CNBB, idem. Depois recuou. Setores do retrógrado Vaticano
ensaiaram defesa “das três crianças”. Pergunta-se: que crianças? A que foi
vítima de um ato hediondo e desumano, ou os fetos que, se gerados, só
trariam ainda mais problemas para aquela humilde cabecinha de apenas nove
anos de idade? Ainda bem que o Presidente Lula, que é pernambucano,
defendeu a sensatez, ou seja: condenou a atitude do bispo.
Desculpe-me, Dom José, CNBB e Vaticano, mas que saudades de Dom Helder
Câmara! Desculpe-me, minha Santa Madre Igreja Católica, mas se um caso
desses acontecesse na minha família ou tivesse me chegado às mãos quando
exercia as nobres atividades de representante do Ministério Público, não
titubearia um só segundo: autorizaria o aborto! E, aí, autoridades
eclesiásticas, nessas circunstâncias, se me fosse dada a oportunidade de
falar, diria sem temor: nessa situação, quero ser excomungado!”.
