Casos cômicos e acontecem aos montes nos fóruns e
tribunais espalhados pelo país. É muito comum o surgimento de atritos
entre os personagens que comandam o aparelho judiciário. Se não provocam
tragédia, é para rir mesmo com tais “causos”.
Em recente audiência na Justiça do Trabalho de Porto Alegre, nos autos de
uma ação civil pública promovida pelo Ministério Público do Trabalho, a
procuradora requereu lhe fosse dado assento ao lado do juiz que conduzia a
solenidade, alegando que, pela sua função, merecia tratamento
diferenciado. O julgador indeferiu o requerimento sob o fundamento de que,
na ocasião, o Ministério Público não atuava em custos legis (fiscal da
lei), mas como parte da ação, razão pela qual a procuradora deveria ocupar
o assento destinado ao reclamante. Inconformada, a “fiscal da lei” disse
que, então, realizaria a audiência em pé, ao lado da cadeira do
magistrado.
A partir desse momento, o clima ficou pesado e houve discussão acerca do
dever de se dar tratamento processual equilibrado às partes. Dizia o
magistrado:
- Mas, Doutora, nunca desrespeitei Vossa Excelência. Sempre a tratei, bem
assim aos outros membros do Ministério Público, com todo o respeito.
- Nada disso, retrucou a representante do MP. Tenho visto muito por aqui
desrespeito e discriminação contra os representantes do “parquet”.
Foi então que, percebendo que a procuradora não mudaria a sua conduta, o
juiz resolveu ceder a ela a sua própria cadeira e passou a ocupar o
assento destinado à parte autora (reclamante), junto à mesa de audiências,
em frente ao reclamado. E anunciou, alto e bom som:
- Quero, com esse gesto, demonstrar à ilustre colega que o local onde
eventualmente me sento, por ocasião da realização da audiência, não possui
qualquer importância para o atingimento das finalidades da prestação
jurisdicional. O importante, senhores e senhoras, não é o local do
assento, mas a postura de quem o ocupa.
A Procura não deixou por menos:
- É preciso, ínclito magistrado, que se cumpra a Constituição, que
considera juízes, promotores e advogados no mesmo pé de igualdade. Não
abro mão das minhas prerrogativas.
O magistrado era humilde, sensato:
- Não olvidamos a elevada função do Órgão Ministerial e sabemos que, mesmo
em demandas em que atua como parte, há quem o considere sempre isento,
face à natureza e abrangência dos direitos que busca tutelar. Mas, dar
tamanha importância a uma formalidade acaba por comprometer a própria
seriedade das suas motivações, pois que a razão se apresenta condicionada
à vaidade. Não sabia que uma simples cadeira representava tanto para Vossa
Excelência.
A audiência teve prosseguimento. A cadeira do juiz permaneceu vazia, já
que permanecia sentado junto às partes. Mas a Procuradora, de nariz
empinado, não sentou um minuto sequer. Ao que uma testemunha comentou:
- Enquanto juiz e promotor brigam pelos melhores assentos, nós, o povão,
continuamos no chão.
