Está aí uma idéia brilhante, que desde já encampo com
muito gosto: duas artistas da Estônia vieram a São Paulo realizar uma
sinfonia. Até aqui, nenhuma grande novidade - a não ser que será um
concerto de celulares - e com os aparelhos pendurados numa árvore.
As duas artistas vão tentar convencer o público a deixar seus aparelhos
celulares por 24 horas, como parte da instalação do 3º Mobilefest -
Festival Internacional de Arte e Criatividade em Mídias Móveis, que
acontece no Brasil. A performance "Um Dia sem Celular" será em uma grande
árvore e a sinfonia de luz e som será entre 19h e 20h, enquanto os
visitantes serão convidados a ligar para os números dos aparelhos
pendurados.
A idéia parece meio maluca, mas faz sentido. Dizem as idealizadoras: “A
obra surgiu da constatação de que os celulares, embora uma criação recente
na história da humanidade, viraram uma extensão de nós mesmos. São
extremamente ‘viciantes'. Embora saibamos que cada povo tem uma cultura
diferente, o apego e a dependência que o celular nos provoca é universal e
muito atual. Por isso, todo mundo entende a piada e a ironia que a obra
propõe. É um trabalho sobre o cotidiano de todos nós”.
Verdade! As palavras das artistas traduzem um sentimento
filosófico-sociológico profundo, produto de noites indormidas e de
procedimentos filosófico-dialéticos muito desgastantes. A dupla já
realizou o projeto em Tallinn (Estônia) e Montreal (Canadá). Como
preliminar, fizeram um teste na saída do metrô São Bento e conseguiram 20
celulares. A população aderiu em peso.
O Mobilefest é um evento dedicado às relações entre sociedade e
tecnologias móveis de comunicação. Neste ano quer discutir a "mobilidade
em cidades imóveis", por meio de seminários, workshops e mostras. Um dos
projetos expostos é uma instalação com fotos e vídeos feitos por 40
cadeirantes em Barcelona e Genebra. Munidos de celulares com câmeras e
GPS, criaram um mapa na Internet denunciando a falta de acesso a
portadores de deficiências. É através de idéias assim extravagantes que se
desperta a população para a letargia dos tempos atuais. Somos manipulados
a cada instante e nem nos damos conta disso.
Já imaginaram os leitores uma experiência desse nos pátios da faculdades e
escolas de segundo grau? Aonde iriam arranjar tantas árvores para pendurar
milhares de celulares?
