Cláudia, funcionária de Banco privado, casada há pouco
mais de um ano, era daquelas mulheres que, se fosse possível, passava o
dia “pendurada” num aparelho celular. Chegou a ter problemas com o chefe
que, vez por outra, flagrava conversas suas durante o expediente. Mas
Cláudia engravidou e aí a situação ficou mais complicada. Além das
conversas com as amigas, o volume de consultas aumentara, seja junto ao
ginecologista, seja em conversas com sua mãe e sogra.
Numa das consultas com o médico, este fez a seguinte advertência:
- Cláudia, você já pensou que o uso do celular pode prejudicar a saúde do
seu bebê? Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e
de Aarhus, na Dinamarca, sugere que o uso do celular durante a gravidez
pode atingir o feto, causando problemas de comportamento quando ele
atingir a idade escolar.
- Mas, como é isso possível, doutor? Eu nem encosto o celular na barriga.
- Olhe, minha filha, foram entrevistadas 13.159 mães dinamarquesas que
tiveram bebês na década de 90. Quando completaram sete anos, as mães
responderam um questionário referente à saúde e ao comportamento dos
filhos. O resultado foi alarmante: as que usaram o celular de duas a três
vezes por dia na gestação tiveram crianças com mais chances de desenvolver
problemas de comportamento. Eles indicaram 25% mais riscos de apresentar
problemas emocionais, 34% de ter dificuldade de relacionamento, 35% de ser
hiperativos e 49% de apresentar desvios de conduta. O mesmo valia para
crianças que já usavam o aparelho antes dos sete anos: eles tinham 80%
mais chances de ter dificuldades comportamentais. Uma pesquisa canadense
em ratas grávidas comprovou o resultado.
Cláudia ficou apavorada. Como iria poder largar o celular, seu objeto de
consumo? Vou consultar outro médico (pensou) – esse está muito
desatualizado. Falou com o marido sobre o problema. Este ponderou:
- Mas, Cláudia, o que se imagina é que a exposição à radiação emitida pelo
celular, ainda que pequena, não seria bem absorvida pelo organismo humano.
Já li em algum lugar que as mães que mais usavam o telefone poderiam ser
também mais negligentes com as crianças. Mas, por via das dúvidas, vamos
consultar o nosso amigo, Dr. Lobão, ginecologista e obstetra, além de
professor de Medicina.
Foram ao consultório do Dr. Lobão e este recomendou ponderação:
- Pode até ser que o resultado um dia venha a se comprovar, mas os dados
parecem inconclusivos - disse. Este é o primeiro estudo na área a traçar
um paralelo entre o uso do celular e o aparecimento de problemas de
comportamento em crianças. Não dá para falar: “não use mais celular”. Mas
eu diria às minhas pacientes para usar o mínimo possível.
Cláudia não se conformava. Parecia um vício. Ao tocar no celular, lembrava
da criança e não fazia a ligação. Quando ligavam para ela, pedia para
alguém atender. Leu numa revista que a potência da radiação que o celular
transmite é pequena e, se causasse algum problema, seria no cérebro da
gestante.
- Existe uma distância grande entre o ouvido da mulher e o útero –falou
para o marido. Não consigo ver uma relação biológica, disse.
O marido ficava calado, sabendo do sofrimento da mulher. Recorreu a um
engenheiro eletrônico, seu amigo, que elaborou um “código de conduta”: ao
manuseá-lo, faça-o distante do ventre; não fale dentro do automóvel ou do
elevador, porque eles concentram a radiação; ao fazer ligações, disque o
número e mantenha o telefone longe da cabeça; use viva-voz. E o maridão
completava:
- É absurdo, eu sei, todavia, não custa racionar o uso. Faz até bem para o
bolso.
