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Como não fazer turismo

portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 15/08/2008

Induzido por farta campanha publicitária, resolvi ir à região do Brejo Paraibano, a fim de constatar como eram esses “caminhos do frio” ou “o circuito do frio”. Abria os jornais, a Internet ou recebia folders publicitários e lá estava o chamado: “visite os caminhos do frio”, “visite a Casa do Padre Ibiapina”, “brejo paraibano tem turismo revitalizado”, etc.

Com parte da minha família idealizei um périplo, iniciando por Sapé, Mari, Guarabira. Como já conhecíamos o santuário e a estátua de Frei Damião, passamos rapidamente pela “rainha do Brejo” e seguimos por Pirpirituba rumo a Bananeiras. Combinamos em deixar a Cachoeira do Roncador para a volta.

Em Bananeiras, “a futura Gravatá da Paraíba”, como muitos a estão denominando, sente-se no ar um “cheirinho de turismo”, de desenvolvimento. Vários condomínios estão se formando, dentro de uma paisagem paradisíaca, de clima ameno e aconchegante. Mas, cadê os pontos turísticos? Fomos à Estação, à Igreja, ao Cruzeiro de Roma, ao Conjunto Arquitetônico “Carmelo”, mas ninguém para prestar uma informação. Nossa sorte foi o churrasco no novo Condomínio “Águas da Serra”, esse sim, com lotes vendidos aos montes a pessoenses e natalenses. Aí, sim, se enxergava o toque de gente antenada com os novos rumos do turismo.

Solânea é um pouco mais desenvolvida em matéria de hotéis e restaurantes. Mas ainda está muito longe de uma moderna recepção turística. No dia seguinte, nos dirigimos à cidade de Arara, onde está localizado o colosso monumental dedicado ao Padre Ibiapina. O que poderia se tornar num referencial para o turismo religioso em nosso Estado é um verdadeiro fiasco.

A construção impressiona, mas cadê gente? Como era um domingo pela manhã, muitas pessoas visitavam o local. A igreja fechada, a casa do sacerdote aberta, mas abandonada, uma escola idem, a Casa Caxangá (que parece ser uma creche) também, só um menino rondava o local, como se estivesse à espera de algumas moedas. Lá no colosso monumental de Arara, com capacidade para abrigar milhares de fiéis, tem até lanchonete e centro de documentação. Mas, cadê o pessoal? A Casa dos Milagres pode ter os seus objetos furtados por turistas inescrupulosos.

Quero abrir um parêntese para louvar as iniciativas do Governo do Estado nesse sentido. É muito proveitoso para o nosso Estado que se divulgue o “turismo rural”, mas tem de existir a mínima estrutura para tal. Folder bonito ou publicidade bem feita não significa atração responsável de turistas. É necessário o mínimo de organização. E a PBTUR tem condições de sobra de realizar tal tarefa.

Em seguida, para matar as saudades da adolescência, conduzi o grupo para a histórica cidade de Areia. Era nesse domingo o dia da “terra de Pedro Américo” no badalado “circuito do frio”. Mas, afora uma Banda de Música que tocava pelas ruas da cidade, não presenciamos nada que justificasse a publicidade. Cadê o Museu da Rapadura? (fechado). Cadê os restaurantes? (fechados). Para não fazer refeição no “Bar do Chifre”, pegamos a estrada rumo a Alagoa Grande, almoçando um gostoso filé de carneiro na BR 230.

Falta sinalização nas estradas e nas cidades. O povo é desinformado. Pelo que sentimos, o “circuito do frio”, para a maioria da população, se traduz na apresentação de uma banda de forró. É bom que se invista no setor, preparando jovens para serem os guias de turismo, pois o maior problema (segundo parece) é a falta de sintonia da própria população local com os novos rumos do turismo. Assim não dá. É ensinar como não se deve fazer turismo.

Fernando Vasconcelos
  • Escritor, promotor de Justiça aposentado, mestre e doutor em Direito Civil pela UFPE. É professor da UFPB e do UNIPÊ
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