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As senhas e o mundo virtual

portalbip.com (Fernando Vasconcelos) 21/07/2008

Hoje, são raras as operações realizadas com sucesso no trabalho, nas comunicações, com dinheiro ou nos relacionamentos sem a senha certa para cada uma delas. E depois da consolidação da Internet entre nós, o número de senhas se multiplicou. Segundo pesquisa da Microsoft, cada usuário da Rede possui em média 6,5 senhas e 25 contas que exigem algum código.

Outra pesquisa realizada pela empresa americana de segurança tecnológica RSA relata que 36% dos funcionários de empresas têm de administrar entre seis e 15 senhas, e 82% deles se dizem frustrados por não conseguirem administrar direito esses códigos secretos.
E o mais chato é quando, na iminência de realizar uma operação dessas, o usuário esquece a senha. Quem nunca perdeu a sua? A comunidade "esqueci minha senha de novo", criada no Orkut, tem cerca de 1.300 esquecidos que trocam dicas para evitar o problema.

Senha no banco, no telefone celular, no supermercado, na Internet, no e-mail, na TV a cabo! É um verdadeiro inferno! O que faz crescer o uso das senhas, em um mundo centrado na Internet, é a importância da informação, que pode valer mais do que o dinheiro. Assim como se precisa de senha para acessar o dinheiro no banco, necessita-se também de uma chave para as informações mais corriqueiras. Sem se falar que todos devem saber de cor o RG, o CPF e a conta bancária. E, em ocasiões especiais, o número do chassi do automóvel, a numeração da apólice de seguro, o PIS/PASEP, o INSS, o ISS municipal.

É praticamente impossível alguém decorar seqüências aleatórias sem escrever. Por isso, alguns preferem anotar os inúmeros códigos que precisam usar todos os dias. Segundo pesquisa de comportamento, realizada na Unifesp, decorar é possível desde que sejam criadas estratégias que relacionem as senhas a informações conhecidas. A memória é associativa. São poucas e invejáveis as pessoas que conseguem decorar longas séries de números ao acaso.

Milhares de combinações se perdem todos os dias. É difícil estimar quantas são, mas no call-center do provedor Uol, por exemplo, das 500 mil ligações mensais recebidas, de 35 mil a 50 mil são de usuários que perderam suas senhas.

No Terra, as ligações para troca de senhas somam 62 mil por mês, 12% do total de atendimentos. A maioria por esquecimento. Nos portais iG, iBest e Br Turbo, em um mês são registradas, em média, cinco a seis mil reclamações referentes a senhas. Para evitar fundir a cuca com a profusão de sites, e-mails, aplicativos de computador e serviços bancários que exigem códigos de acesso, a maioria das pessoas constrói uma associação sentimental para a combinação numérica, acreditando que assim possa ser fácil lembrar.

Uma pesquisa da Universidade do Estado de Wichita (EUA) mostrou que 54,9% das pessoas usam palavras com significado pessoal, como os nomes de seus filhos, pais ou ruas, enquanto 49,8% usam números significativos como aniversários ou números de telefones. Exatamente o contrário do que recomendam os especialistas.

As informações que recebemos através dos sentidos são armazenadas em redes formadas por neurônios de diferentes regiões do cérebro. Cada rede corresponde a uma memória. E a capacidade de combinação entre essas conexões é infinita. Mas, se o leitor tem essa dificuldade, podem cair bem as recomendações lançadas pela Universidade de Michigan, nos EUA, que indica aos seus estudantes um mandamento básico para manter o que se deseja - conta bancária ou vida amorosa - em sigilo: "Trate as senhas como a sua roupa de baixo: não empreste para os amigos, não deixe largada por aí e troque sempre que possível".

Fernando Vasconcelos
  • Escritor, promotor de Justiça aposentado, mestre e doutor em Direito Civil pela UFPE. É professor da UFPB e do UNIPÊ
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