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Sina de nordestino

portalbip.com (Célio Furtado) - 16/12/2010
Em discurso no Ceará esta semana, Lula citou a transposição do Rio São Francisco. Disse que a obra era um desejo de dom Pedro I. “Nem dom Pedro conseguiu fazer. Nem ele, que era imperador, filho do rei! Foi preciso vir o Lula, filho da dona Lindu, para fazer”.

Ele culpou parte do atraso dos indicadores sociais e econômicos do Nordeste, em relação ao restante do país, à classe política da região. Acusou a elite do Nordeste: “Era colonizada, e pensava pelo Rio de Janeiro e São Paulo, esquecendo os nordestinos.”

“Não era justo que o Nordeste continuasse a ser tratado como se fosse a escória deste país. Não queremos mais ser exportadores de serventes de pedreiro para São Paulo,” disse.

Leio a reportagem, paro para pensar. Concluo: ”Miséria é uma situação que só pode dela falar quem dela provou.”  E o presidente provou e vivenciou,  sina imposta a inúmeras famílias nordestinas.

Fechei os olhos. Os pensamentos voaram feito aves de arribação. Pousaram na parede de um barreiro, aqui mesmo no município de Cuité. O lugar se chama sítio Marcação. Estive lá semana passada. Deixe contar.

A mulher, idosa, tinha marcas no olhar, vinham do coração. A fala calma traduzia a expressão de quem perdera as forças, embora preservasse a fé. “Se Deus quiser, vai chover em janeiro porque, se Ele quer, acontece.”

Escapou oito filhos com resto de leite dos seios muchos; criou-os com batata doce, feijão macassar, mistura de tripa e toucinho de porco. A estrada de rodagem passava à porta. A não ser poeira, quem nela transitava nunca deixava alguma coisa; sequer esperança.

Não confiava em políticos, que só apareciam com esmolas, e a cada quatro anos. Ia à prefeitura, voltava com as mãos abanando. Mas não podia se alimentar de promessas.

Quando então a situação beirava o desespero, o prefeito ordenava. Conseguia meia carga d´água - caminhão de vereador -   que recebia a ordem de abastecimento do programa emergencial.

A água vinha sempre pela metade, mas o homem recebia o pagamento dobrado, porque o caminhão ia embora ainda meio. O resto deixava mais adiante, no sítio vizinho. Sem contar que tudo era em troca do voto. Vereador que tinha carro pipa era vereador reeleito, e endinheirado.

Olhei para a mulher, depois o céu. Era o mesmo céu do passado. Um céu de causar tristeza, de tão azul que estava. No barreiro não havia quase o que refletir porque este se resumira a uma espaçosa casca cinzenta, rachada. No centro, uma rala poça d´água arrodeada por alguns bichos. Estavam gordos. “Cabra é assim, moço. Quanto maior é a seca, mais roliça fica”, disse-me ela.

Nesse dia o sol estava abrasador, a vegetação imóvel como pedra. Não há água, não há safra nem comida para o pouco gado que resta. A seca é uma peste cíclica que resseca mananciais e o coração de quem vive em terras hostis, quais o agreste e o sertão.

Quis perguntar algo. A mulher percebeu no olhar. “Pode dizer, moço.” Eu disse: “E seus filhos?”

“Dois morreram, ainda pequenos. Um mora aqui comigo; outros dois trabalham em São Paulo. Mexem com construção, um pedreiro, outro servente. Mas tão cansados de lá. Rezo todo dia para virem embora, do mesmo jeito que rezo pra chover.”

Os pensamentos voltaram. Agora era Lula que dizia: “ Não queremos mais ser exportadores de serventes de pedreiro para São Paulo.”

O presidente jamais viu aquela mulher nem nunca ouviu sua história.  Mas sabe que todos têm uma história, e que histórias de nordestino, na maioria das vezes, são sinas, sinas geralmente tristes e muito parecidas.

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