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(Célio Furtado) - 22/07/2010
Que sentimento pode superar amor de mãe? Somente
outro amor, e se for igual ou maior. Coração de
mãe cabem muitas coisas, sobretudo desgosto de filhos.
Mãe é branda como chuva fina.
Paixão é como temporal. Diferente de amor, provoca
coragem, despende muita energia e causa danos.
Dura o tempo que resistir a fúria. Estanca. Depois se apuram os
prejuízos.
A canção ´´Coração
materno´´ de Vicente Celestino – clássico da
MPB
- conta a história de um camponês. Ele mata a
própria mãe para alegrar à amada. Arrancado do
peito, o coração materno é levado, às
pressas, pelo filho cego de paixão. Tropeça no caminho.
Os versos da canção dizem: ´´E na queda uma
perna partiu/ E a distância saltou-lhe da mão/Sobre a
terra o pobre coração/Nesse instante uma voz
ecoou/Magoou-se pobre filho meu/Vem buscar-me filho, aqui estou/Vem
buscar-me que ainda sou teu!
Nelsom Mandela tem 91 anos, saúde frágil, aparece
raramente em público. Prêmio Nobel da Paz em 93,
não vive em paz. Talvez porque o país detenha uma das
taxas mais altas de violência e de crime fora de zona de guerra
no mundo. Ou talvez porque sinta as dores que cercam os humanos
normais. Perdeu a abertura do torneio no mês passado. A causa foi
a morte de uma bisneta num acidente de carro.
Guardou forças para a festa de encerramento. A
aparição emocionou a todos. Ele acenou para o
público e foi recebido de pé por quem lotava o palco da
grande final da competição.
O homem que foi preso e humilhado, não se rendeu à
solidão das grades. Vinte e oito anos de reclusão
não endureceram um coração que soube ser paciente
e perseverante. Em fevereiro de 90 as portas se abriram, o apartheid
cedeu, a África do Sul começou a contar nova
história.
Mandela poderia ter odiado o lado opressor, a porção
branca do país. Não o fez porque o coração
queria paz, sabia dar somente amor. Por isso, venceu. Por isso, o mundo
se emocionou ao ver nos olhos do líder um doce sorriso. No rosto
tinha a expressão de quem vê transformada em realidade o
que num passado recente eram apenas sonhos.
A copa de 2010 aconteceu graças à sua luta. Ele merecia.
O olhar sereno deixava notar o que se passava na alma. Parecia
coração de mãe, que bate feliz ao ver os filhos
unidos, dividindo o mesmo espaço.
Espírito iluminado, soube conquistar pelo dom do amor,
através da força das palavras. Tinha a linguagem certa.
Disse: ´´Se você falar com um homem numa linguagem
que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você
falar com ele em sua própria liguagem, você atinge seu
coração."
Enquanto o via desfilar no soccer city, sob os aplausos de dezenas de
milhares de torcedores, veio à mente a imagem de Bruno.
Aplaudido num maracanã lotado, o goleiro do Flamengo era
ídolo, exemplo a ser adotado.
Lembrei a senha do computador da namorada Eliza: ´´Amor e
ódio´´. Pensei na força desses dois
sentimentos. E concluí: ´´Negro como o
goleiro, o líder sul-africano também nasceu num
mundo de revolta, discriminação, negação.
´´
Alimentado pelo amor, Mandela venceu o ódio e um dia deixou a
prisão para entrar na história. Bruno fez o inverso.
Dominado pelo ódio, deixou a história para entrar na
prisão.